Veja linha do tempo da escalada da crise no STF
Divulgação de mensagens de Vorcaro desencadeou embate entre ministros e decisões conflitantes sobre a cúpula da PF

Fachada do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil - 10.09.2025
O que começou com a divulgação de conversas atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro transformou-se, em pouco mais de uma semana, em uma profunda crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF). A sucessão de acontecimentos colocou ministros da Corte em lados opostos, envolveu a Procuradoria-Geral da República (PGR) e alcançou o comando da Polícia Federal (PF).
No centro do embate estão os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. A disputa ganhou uma nova dimensão quando acusações sobre a condução de investigações deram lugar a decisões conflitantes, levando o presidente do STF, Edson Fachin, a intervir para centralizar a análise dos casos.
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Divulgação de mensagens abre a crise
A crise veio a público em 1º de setembro, quando André Mendonça retirou o sigilo de um processo relacionado às investigações do Banco Master. O material reunia informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro e trouxe à tona mensagens enviadas a um contato salvo como "Alexandre de Moraes Brasília", atribuídas ao ministro.
Mendonça encaminhou o relatório para manifestação da PGR e defendeu que o assunto fosse analisado pelo plenário do Supremo. Também mencionado nas conversas de Vorcaro, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do documento.
Segundo Gonet, Mendonça não poderia ter determinado diretamente à PF o aprofundamento de uma apuração sobre outro ministro sem iniciativa do Ministério Público ou autorização do plenário. Para o procurador-geral, o magistrado conduziu uma investigação irregular sobre Moraes ao adotar o procedimento sem o aval do colegiado.
Encontro com Vorcaro amplia questionamentos
Em 2 de setembro, uma reportagem do ICL revelou que Mendonça havia se encontrado com Vorcaro em março de 2025. O ministro confirmou que recebeu o então banqueiro no Instituto Iter, entidade fundada por ele, mas defendeu sua isenção na condução das investigações relacionadas ao Banco Master.
A revelação acrescentou um novo elemento à crise iniciada com a divulgação das mensagens. Diante do aumento da tensão, Fachin afirmou que adotaria as medidas cabíveis "no tempo devido e sem precipitação".
Moraes reage e Mendonça deixa instituto
Em 3 de setembro, Moraes pediu a Fachin que Mendonça fosse investigado por suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. O pedido tratava da atuação do ministro nas operações Sem Desconto, relacionada às fraudes contra beneficiários do INSS, e Compliance Zero, que investiga irregularidades envolvendo o Banco Master.
A solicitação foi apresentada no inquérito das fake news e se baseou em um relatório interno da Polícia Federal. O próprio documento, no entanto, afirmava não possuir valor probatório nem poder servir como fundamento para a abertura de uma investigação formal.
Moraes acusou Mendonça de direcionar investigações por motivos pessoais e políticos e de determinar a produção ilegal de provas contra ele. No mesmo dia, em meio aos questionamentos sobre o encontro com Vorcaro, Mendonça comunicou sua saída do Instituto Iter.
Fachin determinou que Mendonça, Moraes, Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, apresentassem esclarecimentos por escrito. A medida deu início à centralização, pela Presidência do Supremo, dos procedimentos relacionados ao conflito.
Fachin centraliza apuração e defende fim de inquérito
Em 4 de setembro, Fachin fez um pronunciamento público no qual defendeu o encerramento do inquérito das fake news. O presidente do STF também afirmou que seguiria os procedimentos estabelecidos pela Constituição para lidar com a crise.
No mesmo dia, Gonet instaurou um procedimento para apurar possíveis interferências no relatório produzido pela Polícia Federal por determinação de Mendonça. A iniciativa acrescentou uma nova frente de investigação ao embate entre os ministros.
Fachin também retirou do inquérito das fake news os documentos encaminhados por Moraes contra Mendonça. O material foi incorporado à Petição 16.704, que passou a tramitar separadamente sob acompanhamento da Presidência do Supremo.
O presidente da Corte concedeu prazo para que Mendonça e a PGR se manifestassem sobre a regularidade do procedimento e das acusações apresentadas. Com as medidas, Fachin assumiu a condução do caso sem antecipar uma conclusão sobre os envolvidos.
Crise alcança o comando da PF
Em 8 de setembro, Mendonça determinou o afastamento cautelar de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal e de Leandro Almada da Diretoria de Inteligência Policial. O ministro alegou que os dois teriam participado ou tomado conhecimento da produção de relatórios de inteligência envolvendo autoridades.
Mendonça afirmou ter sido monitorado ilegalmente pela PF por mais de 30 dias. Além dos afastamentos, proibiu temporariamente a produção, a preparação e o compartilhamento de novos relatórios de inteligência pela corporação.
A Segunda Turma do STF formou maioria de três votos para manter a decisão. Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam Mendonça, enquanto Gilmar Mendes pediu vista e interrompeu o julgamento no plenário virtual.
Gilmar afirmou que o afastamento do diretor-geral da PF poderia ser inconstitucional e provocar desequilíbrio no processo eleitoral. Com o pedido de vista, a análise não foi concluída, embora a decisão cautelar de Mendonça continuasse valendo naquele momento.
A Advocacia-Geral da União recorreu a Fachin e pediu a suspensão imediata dos afastamentos. A AGU argumentou que a medida provocava grave lesão à ordem pública e administrativa e violava a competência do presidente da República para nomear e exonerar dirigentes da PF.
Dino derruba afastamentos
Em 9 de setembro, Dino determinou, em decisão liminar, a reintegração imediata de Andrei Rodrigues e Leandro Almada aos cargos. A medida suspendeu os efeitos da determinação tomada por Mendonça no dia anterior.
Dino questionou a legitimidade do Partido Novo para pedir o afastamento dos delegados em uma investigação criminal. O ministro também afirmou que a questão deveria ser analisada pelo plenário, uma vez que já existia um procedimento instaurado por Fachin sobre os mesmos fatos.
Segundo Dino, Mendonça não poderia decidir sozinho sobre documentos que também o mencionavam. O ministro sustentou ainda que a paralisação dos relatórios de inteligência poderia prejudicar investigações urgentes conduzidas por diferentes integrantes da Corte.
Após a decisão, Mendonça comunicou a Fachin que Dino havia agido de maneira ilegal ao interferir no caso. O episódio ampliou a tensão, que deixou de envolver somente Mendonça e Moraes e passou a expor divergências mais amplas entre integrantes do Supremo.
Fachin suspende decisões e convoca plenário
Ainda em 9 de setembro, Fachin suspendeu as decisões conflitantes de Mendonça e Dino. Com a intervenção, Andrei Rodrigues e Leandro Almada foram mantidos nos cargos até a análise do caso pelo plenário.
O presidente do Supremo interrompeu o andamento da Petição 16.662, relatada por Mendonça e relacionada aos desdobramentos da Operação Compliance Zero. Também convocou uma sessão extraordinária para 15 de setembro.
Fachin determinou ainda que qualquer procedimento com potencial de investigar ministros do STF seja previamente encaminhado à Presidência da Corte. Segundo ele, a sequência de decisões individuais em processos diferentes, mas relacionados aos mesmos fatos e autoridades, criou conflitos e sobreposições processuais.
A intervenção buscou impedir novas determinações contraditórias e preservar a competência do plenário para analisar a crise. Até a sessão extraordinária, ficaram suspensas as decisões individuais relacionadas aos afastamentos no comando da Polícia Federal.















