Governo exclui Defesa e descarta risco militar dos EUA
Oficiais-generais veem com temor ação americana e apostam na diplomacia brasileira



Fachada do Ministério da Defesa, em Brasília | Divulgação/Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
O governo Lula (PT) deixou o Ministério da Defesa de fora da reunião realizada na manhã desta sexta-feira (29) para discutir a crise aberta com os Estados Unidos diante da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
A avaliação da gestão petista é que a ofensiva da administração de Donald Trump não representa um risco de intervenção militar.
Na visão de integrantes do primeiro escalão do governo, os riscos estão mais ligados à interferência na política interna brasileira, na cooperação internacional para o combate ao crime organizado e no âmbito financeiro.
Três oficiais-generais ouvidos pelo SBT News, porém, destacam que os EUA se utilizaram do discurso de combate às drogas para classificar como terrorista o Tren de Aragua, da Venezuela, e viabilizar a operação militar que capturou Nicolás Maduro.
Esses militares não acreditam em uma operação dos EUA em território brasileiro, mas destacam que Trump é imprevisível. A ordem interna é monitorar as discussões e colher a temperatura das relações da diplomacia militar com os oficiais que atuam nos Estados Unidos.
Interferência política
O governo brasileiro vinha monitorando a atuação da gestão de Trump para favorecer seus aliados em disputas eleitorais ao redor do mundo.
Na Hungria, o vice-presidente J.D. Vance viajou a Budapeste para acompanhar o candidato à reeleição Viktor Orban na semana do pleito.
Os EUA anunciaram oficialmente seu apoio a Orban. "A relação e a amizade entre a Hungria e os Estados Unidos são muito importantes para nós. Em parte porque amamos o povo húngaro e esta nação e cultura incríveis, mas em parte porque o presidente ama vocês, e eu também, porque vocês são uma parte tão importante do que tornou a Europa forte e próspera", disse Vance após pousar em Budapeste, em abril.
Orban perdeu as eleições, marcadas pela insatisfação com o líder da extrema-direita pela alta da inflação e por escândalos de corrupção.
No Canadá, o primeiro-ministro Mark Carney, de centro-esquerda, venceu as eleições com discurso agressivo contra Trump.
O presidente norte-americano fez provocações contra os canadenses, dizendo que poderia fazer do país o 51º estado americano.
No Brasil, a expectativa de aliados do presidente Lula é repetir o discurso da soberania nacional, que rendeu ao petista os melhores índices de aprovação no último ano.
Visita incômoda
Em maio de 2025, o então chefe militar do Comando Sul dos Estados Unidos viajou ao Brasil com o interesse de visitar o 4º Batalhão de Infantaria de Selva, em Rio Branco (AC).
O objetivo do almirante Alvin Holsey era conhecer a fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru, com foco no combate ao tráfico de drogas e armas.
O Exército Brasileiro estranhou o interesse. Em geral, oficiais americanos são recebidos nos comandos militares de área, comandado por generais 4 estrelas, para discussões de alto nível. A visita a um batalhão específico, chefiado por militar de baixa patente, foi recebido com alerta.
Oficiais-generais ouvidos pelo SBT News contam que a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas cria um risco de interferências externas no Brasil.
Há uma leitura no Exército de que os EUA se utilizaram de um discurso agressivo de combate às drogas nas Américas para justificar ações militares na vizinhança do Brasil.
O receio é que a mesma estratégia seja usada para emprego militar próximo ao Brasil, pelo mar. A avaliação majoritária, porém, é de que a classificação tem caráter mais político do que bélico.















