Política

Aloysio Nunes critica EUA e defende acordo Mercosul-UE

Ex-chanceler vê avanço nas negociações com a União Europeia e afirma que estabilidade democrática fortalece a posição do Brasil no comércio internacional

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Soane Guerreiro, enviada especial a Bruxelas

O ex-ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes criticou a política comercial dos Estados Unidos e afirmou que as medidas adotadas pelo governo norte-americano são um dos principais fatores de instabilidade nas relações internacionais. Em entrevista exclusiva ao SBT News, em Bruxelas, na Bélgica, ele também demonstrou otimismo com a aprovação definitiva do acordo entre Mercosul e União Europeia.

"Trata mal os seus próprios aliados, impõe tarifas unilateralmente. Isso sabotou completamente o funcionamento da Organização Mundial do Comércio", afirmou o ex-chanceler ao comentar a atuação dos Estados Unidos. Para ele, a postura de Washington tem levado outros países a buscar novas parcerias comerciais.

Atualmente à frente da área de assuntos estratégicos da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Nunes participa de uma missão de empresários brasileiros em Bruxelas. A agenda inclui um encontro no Parlamento Europeu, onde a delegação busca fortalecer o diálogo com parlamentares sobre a ratificação do tratado.

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O acordo ainda depende de uma análise jurídica do Tribunal de Justiça da União Europeia e de uma nova deliberação do Parlamento Europeu. Segundo Nunes, a decisão de encaminhar o texto à Justiça europeia foi tomada por uma diferença de apenas dez votos.

"Faltaram 10 votos. Dez votos que não são necessariamente contrários ao acordo, mas deputados europeus que quiseram que a Corte de Justiça Europeia pudesse analisar alguns aspectos jurídicos para ver a compatibilidade do acordo com as regras europeias", explicou.

O ex-ministro acredita que o tratado será aprovado quando voltar à análise dos parlamentares, principalmente porque considera que a parceria traz benefícios econômicos e estratégicos para os dois blocos.

"Por que que eu tenho esse otimismo? Porque é vantajoso para a União Europeia também", afirmou.

Acordo pode reduzir impactos das tarifas dos EUA

Segundo Aloysio Nunes, os primeiros meses de aplicação provisória do acordo Mercosul-UE já apresentaram resultados positivos para as exportações brasileiras.

"Os primeiros meses de aplicação provisória do acordo já mostraram um aumento das nossas exportações para a Europa e que em alguma parte compensaram a perda das nossas exportações para os Estados Unidos", afirmou.

O ex-chanceler também destacou que o acesso ao mercado europeu pode contribuir para ampliar a competitividade dos produtos brasileiros em outros países. "É importante para que o ingresso de uma mercadoria brasileira no mercado europeu receba um selo de qualidade, pois a Europa é muito exigente", disse.

Além dos benefícios econômicos, Nunes considera que o acordo fortalece a autonomia diplomática do Brasil, ao ampliar as relações comerciais sem criar dependência de uma única potência.

"É da tradição diplomática brasileira, que poucas vezes foi desmentida, o Brasil não se alinhar incondicionalmente com nenhum grande protagonista, não com os Estados Unidos, nem com a Rússia, mas ter uma coisa mais equilibrada, e o acordo com a União Europeia ajuda a manter essa posição diplomática do Brasil", afirmou.

Na avaliação dele, a parceria também interessa aos europeus, que buscam diversificar fornecedores e preservar sua autonomia estratégica diante das disputas entre grandes potências.

Política comercial dos EUA

Ao analisar o cenário internacional, o ex-ministro fez críticas à condução da política externa e comercial norte-americana. Segundo ele, o governo dos Estados Unidos rompeu com padrões tradicionais de relacionamento diplomático, inclusive com aliados históricos, e contribuiu para enfraquecer o sistema multilateral de comércio.

Nunes atribuiu à política norte-americana parte importante das dificuldades enfrentadas atualmente nas relações comerciais internacionais.

"Isso contribuiu, acho que foi o principal fator de confusão no comércio internacional e nas relações internacionais", disse.

Democracia e eleições livres fortalecem confiança no Brasil

Questionado sobre os possíveis efeitos das eleições brasileiras nas relações comerciais, Aloysio Nunes destacou a importância de o país preservar sua credibilidade internacional em um cenário de mudanças políticas.

Na avaliação dele, a estabilidade institucional, a existência de eleições livres e a previsibilidade das regras econômicas contribuem para que o Brasil seja visto como um parceiro confiável.

"É um país democrático, um país com eleições livres, um país com Judiciário, com regras claras na economia, não é? Com inflação baixa. Tudo isso é um país que tem confiabilidade nesse quadro em que todos os países estão buscando acordos para solidificar suas relações", afirmou.

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