Saúde

Bets: vício em aposta avança nos consultórios de psiquiatria

Adultos entre 26 e 45 anos concentram quase 80% dos diagnósticos; veja sinais de alerta

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Camila Stucaluc
Mercado de apostas esportivas movimenta mais de R$ 30 bilhões por mês | Reprodução

Mercado de apostas esportivas movimenta mais de R$ 30 bilhões por mês | Reprodução

O crescimento das apostas esportivas e dos jogos online já começou a se refletir de forma consistente nos consultórios de psiquiatria. Um levantamento da Conexa mostra que os diagnósticos relacionados à ludopatia (jogo patológico) quase quadruplicaram entre janeiro de 2025 e julho de 2026.

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A análise considerou 250.951 consultas de psiquiatria realizadas na plataforma entre janeiro de 2025 e julho de 2026. Nesse período, foram registrados 545 diagnósticos de ludopatia, o equivalente a quase um novo caso por dia. Na comparação entre o início e o fim da série histórica, a participação do transtorno entre os diagnósticos da especialidade cresceu 325%, indicando que a dependência em apostas passou a aparecer com muito mais frequência na prática clínica.

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O levantamento ressalta que o subdiagnóstico do transtorno de jogo é comum e por vezes registrado pelo médico como “ansiedade” ou “depressão”. Isso significa que o número de pacientes com problemas ligados à apostas pode ser maior do que o registrado.

Segundo os dados, o aumento nos índices ocorreu de forma consistente ao longo de 19 meses e superou o crescimento da própria base de consultas de psiquiatria, que passou de cerca de 7,9 mil para mais de 16,3 mil atendimentos mensais no período. Isso indica que a alta dos diagnósticos não é explicada apenas pelo aumento do número de pacientes atendidos, mas pelo avanço do transtorno na prática clínica.

"O crescimento das apostas online amplia a exposição a mecanismos que favorecem o desenvolvimento da dependência. A facilidade de acesso, a possibilidade de apostar a qualquer momento e as recompensas imediatas tornam esse comportamento especialmente arriscado para pessoas mais vulneráveis", afirma Thiago Genaro, médico psiquiatra da Conexa.

Adultos entre 26 e 45 anos concentram quase 80% dos diagnósticos

Os dados revelam ainda o perfil dos pacientes diagnosticados com ludopatia. Quase oito em cada 10 (79,5%) têm entre 26 e 45 anos, com predominância da faixa de 26 a 35 anos, que concentra 45,2% dos casos, seguida por pessoas de 36 a 45 anos (34,3%). Entre os registros com informação disponível, os homens representam 42,5% dos diagnósticos e as mulheres, 38,6%.

Regionalmente, o Sudeste concentra 57,5% dos atendimentos, seguido por Nordeste (16,4%), Sul (11,7%), Norte (7,3%) e Centro-Oeste (5,2%).

Segundo Genaro, a concentração dos diagnósticos nessa faixa etária chama atenção por envolver adultos em plena vida profissional e financeira, justamente o público mais exposto às plataformas digitais de apostas.

"São pessoas que têm maior autonomia financeira, acesso constante ao celular e uma rotina cada vez mais digital. Quando as apostas passam a ocupar um espaço recorrente no dia a dia, elas podem comprometer não apenas a saúde mental, mas também o desempenho no trabalho, os relacionamentos e a estabilidade financeira. Esse perfil reforça que a ludopatia deixou de ser um problema restrito a casos isolados e passou a fazer parte da prática clínica de forma recorrente", explica.

Quando o hábito vira um transtorno?

Embora apostar seja uma atividade recreativa para grande parte da população, a ludopatia é reconhecida como um transtorno caracterizado pela perda de controle sobre o comportamento de apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, profissionais, familiares e emocionais.

Entre os principais sinais de alerta estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores, a dificuldade para interromper o comportamento, tentativas frequentes de recuperar perdas financeiras, irritabilidade quando não é possível jogar, preocupação constante com as apostas, além do comprometimento das relações pessoais, da produtividade no trabalho e da saúde financeira.

O transtorno também costuma vir acompanhado de sintomas como ansiedade, culpa, alterações de humor e isolamento social. Em muitos casos, familiares e amigos percebem as mudanças antes do próprio paciente, o que torna o apoio da rede de convivência essencial para o reconhecimento do problema e a busca por tratamento.

"Assim como outras dependências comportamentais, a ludopatia é uma condição tratável. O diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado aumentam significativamente as chances de recuperação. Procurar ajuda ao perceber os primeiros sinais faz toda a diferença para evitar que o transtorno evolua e comprometa diferentes áreas da vida", diz o especialista.

Proibição no Brasil

Em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou uma Medida Provisória que proibe as apostas de quota fixa em todo o Brasil, conhecidas como bets. A determinação prevê a extinção, em 30 dias, das autorizações concedidas às empresas que atualmente operam nesse mercado.

Ao justificar a medida, o governo federal disse que a experiência acumulada desde o início do mercado regulado mostrou que os mecanismos de controle existentes não seriam suficientes para proteger adequadamente a saúde e a estabilidade financeira das famílias.

Dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), por exemplo, estimam que as bets retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025 — o equivalente a cerca de 0,68% da renda disponível.

Ao citar o montante gasto com as bets, o governo associou a atividade a impactos sobre consumo, arrecadação e distribuição de renda. Mencionou, ainda, riscos relacionados ao jogo problemático, como endividamento, ansiedade, depressão, isolamento social e aumento do risco de suicídio.

A proibição foi criticada pela Associação Nacional dos Jogos e Loterias (ANJL), que classificou a decisão como juridicamente ilegal, e recomendou a seus operadores a não implementá-las. Em comunicado, a entidade argumentou que a medida não acaba com as apostas no Brasil, mas com a proteção de quem aposta.

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