Desaparecimentos nem sempre são crime: vítimas fogem para escapar da violência
Casos de violência doméstica, abusos e ameaças levam pessoas a desaparecer voluntariamente para preservar a própria vida

Simone Queiroz
Quando alguém desaparece, a primeira suspeita costuma ser um crime, como sequestro, rapto ou tráfico humano. Mas autoridades alertam que nem todos os desaparecimentos são forçados. Em muitos casos, a própria vítima decide sumir para escapar de situações de violência, ameaças ou abuso.
Segundo a Secretaria Municipal de Direitos Humanos, há pessoas que desaparecem voluntariamente para preservar a própria segurança. Isso acontece, principalmente, em casos de violência doméstica.
“Existem casos em que a pessoa não deseja contato, por exemplo, situações de violência doméstica, onde o agressor registra o desaparecimento, mas ao localizar a vítima descobrimos que ela está fugindo da violência”, explica Darko Hunter, coordenador da política municipal de pessoas desaparecidas.
Entre os principais motivos que levam uma pessoa a desaparecer voluntariamente estão:
- Violência doméstica e tentativa de feminicídio;
- Abuso sexual
- Ameaças e perseguição
- Dívidas e ameaças criminosas
- Conflitos familiares e discriminação
Em alguns casos, desaparecer é visto como a única forma de sobreviver.
Sobreviver no anonimato exige abrir mão de direitos básicos
Uma mulher que sobreviveu a uma tentativa de feminicídio contou a nossa reportagem que precisou mudar de endereço sete vezes para evitar ser localizada pelo ex-marido, que a atacou com sete facadas. Ela afirma que viver escondida impõe diversas limitações.
“Eu não posso ter comprovante de residência no meu nome. Não posso trabalhar com carteira assinada porque poderiam me localizar”, relatou.
O agressor chegou a ficar preso por oito anos, mas, segundo ela, ainda tentava descobrir seu paradeiro por meio de familiares.
Outra mulher decidiu desaparecer após suspeitar que a filha sofria abusos durante visitas ao pai. Mesmo após denúncias, a Justiça manteve a guarda compartilhada.
Com medo, ela decidiu fugir com a criança. Desde então, vive sem usar contas bancárias, celular ou e-mail.
“É horrível. Não uso banco, não uso celular, estou sendo ajudada por amigos”, contou.
A decisão trouxe consequências legais. Ela recebeu multas que ultrapassam R$ 100 mil e corre o risco de perder o único imóvel que possui.
Vida na clandestinidade traz medo e isolamento
Pessoas que vivem escondidas enfrentam dificuldades emocionais, financeiras e sociais. Muitas dependem de redes de apoio, como amigos e organizações que ajudam vítimas de violência. Apesar das dificuldades, o desejo é reconstruir a vida.
“Meu sonho é ser livre, andar na rua tranquilamente, sem medo de ser reconhecida”, afirmou uma das vítimas.
Autoridades destacam que políticas públicas e redes de proteção são fundamentais para garantir segurança e permitir que essas pessoas possam, um dia, viver sem medo.








