Política

Ex-comandante do Exército nega ter impedido entrada da PMDF em QG na noite de 8 de janeiro

Arruda prestou depoimento no STF como testemunha de defesa de Cid; afirmou que função naquele dia era "acalmar" e que pediu ação "coordenada" entre autoridades

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Paola Cuenca, Felipe Moraes
22/05/2025, 13:51 • Atualizado em 23/05/2025, 01:09
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O general Júlio Cesar de Arruda, ex-comandante do Exército no início do governo Lula (PT), afirmou nesta quinta-feira (22), em depoimento na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que não impediu entrada da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) no Quartel-General do Exército (QGEx) na noite de 8 de janeiro de 2023, dia em que manifestantes golpistas depredaram e invadiram sedes dos Três Poderes, em Brasília.

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Depondo em audiência como uma das testemunhas de defesa do delator Mauro Cid, tenente-coronel e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro (PL), no âmbito do processo sobre tentativa de golpe de Estado, Arruda foi questionado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por que teria negado "ingresso" da PMDF no acampamento de manifestantes em frente ao QG. "Não neguei", disse o general.

"Quando começou a acontecer tudo aquilo lá, eu fui pro QG e fui coordenar ações que teriam ser feitas pelo Exército lá do QG", explicou, dizendo que ficou "o tempo todo" junto do general Gustavo Henrique Dutra de Menezes, ex-comandante militar do Planalto, e do ministro da Defesa, José Múcio. "Lá pela noite, quando parte dos manifestantes estavam voltando pra área da Praça dos Cristais [obra em frente ao QG], general Dutra me ligou e falou que a polícia estava indo atrás e 'tenho informação de que vão prender todo mundo'. E eu disse: 'Não, isso tem que ser coordenado. Encontra lá o interventor e isso tem que ser coordenado'", continuou.

Arruda falou que "o interventor [Ricardo Cappelli] veio com o comandante da PMDF e tivemos uma conversa para acertar como seria isso". "Quando chegou (sic) o ministro da Defesa, o ministro da Casa Civil [Rui Costa] e o ministro da Justiça [Flávio Dino], nós começamos a coordenar nós cinco, comigo e general Dutra, e ficou acertado o que seria feito entre nós cinco", disse.

Comandante durante transição entre governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), Arruda tomou posse em 30 de dezembro de 2022 e foi substituído por Tomás Paiva, atual chefe do Exército, poucos dias após o 8/1. Após pergunta da PGR, o relator do processo, ministro Alexandre de Moraes, relembrou ao depoente que "a decisão para prender imediatamente, em flagrante, as pessoas em frente ao quartel foi minha".

Moraes citou depoimento de Fábio Augusto Vieira, ex-comandante da PMDF, em que afirmou que Arruda "proibiu a retirada dos manifestantes e, em dedo em riste, teria dito: 'O senhor sabe que a minha tropa é um pouco maior que a sua'". O ministro questionou Arruda se isso ocorreu.

Arruda fugiu da pergunta e disse apenas que já respondeu sobre isso em depoimento anterior à Polícia Federal. Falou que função dele na noite daquele dia era "acalmar". "Ali tava um clima de nervosismo, você sabe disso. Então, eu falei, 'isso tem que ser feito de maneira coordenada', e foi feito de maneira coordenada com ministro Flávio Dino, Rui Costa e José Múcio. Minha função era acalmar", detalhou.

Moraes perguntou se Arruda disse ou não essa frase relativa ao tamanho da tropa. O depoente declarou não se recordar.

Contradição sobre encontro com general autor do "Punhal Verde Amarelo"

Arruda seguiu evitando questionamentos, mas entrou em contradição ao ser perguntado pela PGR sobre o general Mário Fernandes, ex-secretário executivo da Secretaria-Geral da presidência sob Bolsonaro e apontado como autor do "Punhal Verde Amarelo", plano de tentativa de golpe que incluía atentados contra Lula, Moraes e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).

O general Arruda falou que "a imprensa coloca muitas coisas, né" e admitiu ser próximo de Fernandes na carreira militar. A PGR citou reportagem apontando que Arruda teria expulsado Fernandes e dois coronéis da reserva de seu gabinete porque eles "teriam ido fazer pressão para barrar posse de Lula". O ex-comandante confirma encontro, nega ter mandado Fernandes sair da sala e afirmou que "só disse que ia dar continuidade ao que general Freire Gomes [ex-comandante do Exército antes de Arruda] estava fazendo".

A PGR insiste no questionamento, perguntando a Arruda se houve algum movimento para impedir posse de Lula. Arruda nega: "Não, senhor. Tanto que assumi no dia 30 [dezembro de 2022] e fui o comandante do Exército que fiz a posse".

Voltando a falar do encontro com Fernandes e dois coronéis golpistas, a PGR voltou a questionar Arruda. Ele disse não se lembrar se Fernandes "estava com mais alguém". Depois, entrou em contradição sobre teor da conversa.

A PGR indagou se Fernandes tinha ido à sala de Arruda para perguntar se ele iria assumir comando do Exército: "Você diz agora que ele não perguntou?". Arruda responde: "Não me perguntou. Foi me visitar, conversamos diversos assuntos e eu disse que ia assumir dia 30".

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