O que as casas de apostas estão prevendo para a geopolítica mundial
Plataformas como Polymarket e Kalshi tentam adivinhar se Trump vai invadir a Groenlândia ou se haverá guerra entre China e Taiwan


Exame.com
O futuro das grandes nações está sendo discutido em diferentes cenários em 2026, diante das grandes mudanças geopolíticas mundiais. O papo rola até mesmo em plataformas de apostas, nos chamados prediction markets, os mercados de previsão, que movimentam cifras enormes.
O jogo que tenta antecipar decisões políticas está a todo vapor, com inúmeras menções aos Estados Unidos (EUA) e ao futuro de outras grandes nações, mas especialista alerta que a "aposta não é um investimento" de fato, tendo em vista que é atrelada a incertezas e à sorte.
O tabuleiro de xadrez entre Rússia e Ucrânia
No leste europeu, o otimismo para o fim imediato da guerra entre Rússia e Ucrânia é quase nulo: a chance de um cessar-fogo até o final de janeiro é de 3% na plataforma Polymarket, movimentando US$ 9,8 milhões em apostas. A chance aumenta para 46% — com mais de US$ 5 milhões jogados — até o fim de 2026.
O economista e conselheiro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais do Brasil (Apimec Brasil), Ricardo Coimbra, analisa que o papel dos Estados Unidos como mediador "esfriou" recentemente com a invasão à Venezuela.
A tendência era de uma pressão para que a Ucrânia aceitasse ceder territórios à Rússia em troca de uma resolução do conflito. Apesar das incertezas do cenário, Coimbra destaca que "qualquer tipo de acordo importante seria positivo para o mercado".
Mesmo em meio a dificuldades, essa esperança diplomática não morreu totalmente, com 56% de probabilidade dos presidentes Volodymyr Zelensky (Ucrânia) e Vladimir Putin (Rússia) conversarem antes de 2027 — e quase US$ 100 mil apostados que a conversa irá ocorrer, mas com inúmeras opções de datas, no Kalshi.
Duas maiores potências econômicas em jogo
A relação entre as duas maiores potências econômicas é um dos destaques: 31% vê com otimismo a possibilidade do presidente americano Donald Trump firmar um acordo de livre comércio com a China, movimentando US$ 38 mil dólares até o momento no Kalshi.
Além disso, a chance de a economia chinesa finalmente ultrapassar a dos Estados Unidos até 2030 está fixada em 29,5%, com US$ 43 mil dólares apostados no local.
No campo militar, o receio de uma invasão chinesa a Taiwan até o final de 2026 marca 13% na plataforma Polymarket, com um volume de US$ 5 milhões. Coimbra, reflete não saber se os EUA entrariam em uma eventual guerra contra a China em função de Taiwan.
Previsão nas Américas
Olhando para as Américas, as previsões misturam política interna e desejos territoriais. A Venezuela tem apenas 28% de chance de realizar eleições presidenciais até setembro de 2026, e US$ 69 mil apostados em diferentes datas no Kalshi.
Enquanto isso, as apostas de uma invasão dos EUA em algum país da América Latina giram em torno de 18% no Polymarket, mais de US$ 91 mil, com a Colômbia aparecendo com um risco de 8% e quase US$ 10 mil jogados.
Sobre o caso colombiano, Coimbra acredita que o clima de tensão diminuiu após buscas por entendimento entre os governos, o que pode sinalizar um recuo em relação a medidas mais drásticas.
Groenlândia chama atenção de apostadores
O que também chama a atenção é a fixação americana pela Groenlândia. Os apostadores, no Kalshi, indicam 36,3% de chance de Trump comprar parte da ilha (US$ 2,4 milhões movimentados) e 39,2% de os EUA assumirem algum controle territorial por lá (US$ 23 mil).
Há até quem aposte em uma invasão em 2026, com 9% de probabilidade e US$ 245 mil apostados no Polymarket. Coimbra alerta que essa ideia é complexa, pois a Dinamarca e a própria Groenlândia já demonstraram falta de interesse em fazer parte dos EUA.
Ele diz que qualquer tentativa de tomada forçada geraria uma crise sem precedentes na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pois os EUA estariam atingindo um aliado e provocando uma instabilidade mundial, que ninguém conseguiria prever onde terminaria.
Crises internas nos EUA e o fantasma nuclear do Irã
Enquanto olha para fora, o governo americano enfrenta suas próprias turbulências, com 55% de chance, no Kalshi, de Trump ser alvo de um processo de impeachment antes de 2028. As apostas movimentaram meio milhão de dólares.
Já a chance de um novo acordo nuclear entre EUA e Irã em 2026 está em 1% no Kalshi — mas conteúdo foi adicionado recentemente na plataforma —; e 14% acredita, no Polymarket, que o país americano possa invadir o persa antes de 2027, deslocando US$ 16 mil em apostas.
"Em relação à 'guerra' com o Irã, a gente observa que aquilo ali meio que parou. Houve uma certa estabilização. Não houve, parece que mais uma contraposição do Irã, principalmente em relação ao problema em Israel", de acordo com o conselheiro da Apimec.
Brasileiro pode apostar nessas previsões também?
O economista Ricardo Coimbra faz questão de colocar o pé no freio logo de cara. Ele explica que a aposta não é investimento, justamente porque a política global é o reino do imprevisto e ninguém sabe ao certo o que passa na cabeça dos líderes atuais.
"A gente sempre direciona para evitar qualquer tipo de aposta."
Coimbra aponta que o mundo está repleto de "políticos incertos" em lugares por todo o globo, o que torna qualquer tentativa de cravar um resultado um exercício de alto risco — inclusive para os brasileiros interessados.
Na prática, os brasileiros podem se cadastrar nas plataformas de apostas desejadas e realizarem movimentações financeiras em torno da geopolítica mundial ou outros temas, na maior parte dos casos via dólar.









