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Irã está mesmo prestes a produzir bomba nuclear? Especialista responde

Israel lançou uma série de ataques sob a alegação de que país estaria "próximo" de conquistar seu primeiro artefato nuclear

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Giovanna Colossi
17/06/2025, 17:58 • Atualizado em 17/06/2025, 18:21
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Irã está mesmo prestes a produzir bomba nuclear? Especialista responde

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Israel lançou na última quinta-feira (12) uma série de ataques contra o Irã, alegando que o país representa uma ameaça existencial. Tel Aviv acusa Teerã de manter um programa secreto para desenvolver armas nucleares que estaria “próximo” de conquistar seu primeiro artefato nuclear.

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Os alvos da ofensiva israelense foram instalações estratégicas do programa atômico iraniano, como a de Natanz, reacendendo os temores de uma guerra regional mais ampla. Em cinco dias de bombardeios, ao menos 224 pessoas morreram no Irã, e 24 em Israel.

As declarações foram condenadas por organizações islâmico-americanas. O Conselho de Relações Americano-Islâmicas (CAIR) afirmou que Trump repete os mesmos erros da era George W. Bush. “Assim como o Iraque não possuía e não buscava armas de destruição em massa, o Irã não possui nem busca uma arma nuclear”, diz o comunicado.

Em meio a essa guerra de narrativas, o SBT News entrevistou o professor Fernando Brancoli, especialista em Segurança Internacional e Geopolítica do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID - UFRJ). Ele explicou quão perto está a República Islâmica de fabricar uma bomba nuclear e o impacto dos ataques recentes sobre o programa atômico do país.

Irã estava prestes a produzir uma bomba nuclear?

"Hoje, reconhece-se que o Irã tem em seu estoque cerca de 400 kg de urânio enriquecido a 60%, um nível que muitos especialistas consideram 'próximo de grau militar'", explica Brancoli. Segundo ele, estimativas técnicas sugerem que esse volume seria suficiente para produzir material para múltiplas ogivas nucleares em questão de uma a duas semanas, caso Teerã decidisse enriquecer o material até os 90% necessários para uso militar — o chamado breakout.

No entanto, o professor pondera que a posse de urânio altamente enriquecido não equivale automaticamente à fabricação de uma bomba. "Seriam necessários componentes adicionais — projeto, testes, miniaturização e montagem de um sistema de detonação. Até o momento, não há evidências públicas de que o Irã possua essas peças finais prontas."

A questão sobre a existência de um programa secreto também é controversa. “Não há prova incontestável de que o Irã esteja atualmente construindo uma arma nuclear”, afirma Brancoli. Ele menciona o Programa AMAD, que teria funcionado até 2003, como o último esforço militar conhecido, e que, segundo o próprio governo iraniano, foi encerrado.

Desde então, Teerã tem mantido as inspeções, ao menos oficialmente, da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão das Nações Unidas encarregado de monitorar programas nucleares civis e prevenir o desenvolvimento de armas.

Foi, inclusive, sob a alegação de que o Irã estaria próximo de obter armas nucleares, que Donald Trump decidiu, em 2018, deixar o tratado nuclear que impedia Teerã de enriquecer urânio a 60%. O presidente também retomou sanções que haviam sido retiradas por Barack Obama, idealizador do acordo, o que possibilitou que o Irã deixasse de cumprir a promessa de manter o limite estabelecido de 3,67%.

Vale lembrar que Israel, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), tem ogivas nucleares. O país, no entanto, nunca admitiu ter essas armas e, assim como os Estados Unidos, não é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Quais foram as instalações nucleares afetadas?

Segundo a agência Associated Press, há quatro principais instalações no programa nuclear iraniano: Natanz, Fordow, Isfahan e Arak, todas conhecidas pela AIEA.

Natanz, localizada na província de Isfahan, abriga tanto estruturas subterrâneas quanto edifícios acima do solo, com milhares de centrífugas. Fordow, escavada dentro de uma montanha, é ainda mais protegida e, por isso, considerada crítica. Em Isfahan, além das centrífugas, há um complexo para conversão de urânio. Já Arak concentra uma planta de água pesada, que poderia ser usada para produzir plutônio — outra rota para a construção de uma bomba.

De acordo com Brancoli, os ataques israelenses entre os dias 12 e 14 de junho danificaram instalações importantes. "Instalações acima do solo, como a planta piloto de Enriquecimento de Combustível em Natanz, foram destruídas e tinham 1.700 centrífugas avançadas, danificando também rede elétrica e sistemas de apoio. Grandes infraestruturas secundárias, como o conversor de urânio e instalações de produção metalúrgica em Isfahan, também foram atingidas", relata.

Apesar dos danos, as áreas mais críticas parecem ter resistido. "Os cascades subterrâneos em Natanz e Fordow, mais protegidos, parecem ter permanecido intactos ou minimamente afetados. A AIEA reportou que o ataque interrompeu a produção, mas não se sabe se houve vazamento ou atraso de longo prazo, porque reparos e reforços geralmente ocorrem rapidamente."

Qual foi o impacto dos ataques de Israel?

Segundo o professor, os ataques atrasaram o cronograma iraniano, mas não eliminaram a capacidade técnica. "Há preocupações de que o cerco externo incentive o Irã a acelerar ou esconder ainda mais sua tecnologia — reduzindo a visibilidade dos inspetores"

Qual é o papel dos EUA na escalada?

Brancoli também comenta o papel dos Estados Unidos na escalada. “A ideia de que Israel estaria tentando ‘arrastar’ os EUA para uma guerra com o Irã não é infundada, mas também não é a única interpretação possível”, analisa.

“De fato, há sinais de que o governo israelense buscou provocar uma escalada calculada, esperando que o Irã retaliasse não apenas contra alvos israelenses, mas também contra instalações ou tropas americanas na região — o que criaria um pretexto político para um engajamento mais direto de Washington.”

Por outro lado, afirma o especialista, trata-se de uma relação estratégica, ainda que assimétrica. “Israel busca forçar a mão americana diante do que considera uma ameaça existencial, enquanto os EUA utilizam Israel para pressionar o Irã e dissuadir seus avanços, sem se envolver diretamente em mais uma guerra no Oriente Médio.”

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