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Esposa de brasileiro preso nos EUA diz ter medo de andar nas ruas após políticas de imigração de Trump: 'Não é a América onde cresci'

Em entrevista ao SBT News, Hannah Silveira conta detalhes do dia em que o marido foi detido pelo serviço de imigração e denuncia irregularidades

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Sofia Pilagallo
30/01/2026, 11:31 • Atualizado em 11/02/2026, 19:39
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Hannah e Matheus Silveira | Foto: Arquivo pessoal

Hannah e Matheus Silveira | Foto: Arquivo pessoal

"Está se tornando difícil olhar para o meu país e reconhecer qualquer coisa ou pessoa. Eu caminho por essas ruas e não me sinto segura. Não é a América onde cresci." As palavras são de Hannah Silveira, de 30 anos, que conversou com o SBT News. Natural de Minnesota (EUA), que virou símbolo da repressão contra imigrantes no país, ela é casada com o brasileiro Matheus Silveira, de 31 anos, preso há dois meses.

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Matheus foi detido pelo ICE, o serviço de imigração dos EUA, em 24 de novembro, durante uma entrevista para obter o visto de residência permanente — o green card. Ele mora no país desde 2019, quando saiu do Rio de Janeiro para estudar inglês e, em 2024, casou-se com Hannah. O brasileiro trabalhava fazendo entregas, enquanto a esposa é advogada.

O pedido do visto de Matheus já havia sido previamente aprovado. A entrevista, realizada no Edifício Federal do USCIS, o serviço de cidadania e imigração dos EUA, em San Diego, seria o último passo para a obtenção do visto. Apesar disso, o brasileiro, que já tinha visto notícias de pessoas sendo detidas em suas entrevistas de green card, estava ansioso.

Desde o início, o "clima" no local era tenso, segundo Hannah. Logo na entrada, três funcionários diferentes se aproximaram dela e de Matheus e pediram para ver suas certidões de casamento. Então, quando foram chamados para a entrevista, passaram por cerca de 20 escritórios até chegar ao último escritório, no final do corredor.

Após responderem a uma série de perguntas, Hannah e Matheus foram informados de que haviam sido aprovados no chamado Formulário I-130, que confirma o vínculo familiar e permite ao beneficiário solicitar o green card. Então, um funcionário disse que havia pessoas no corredor esperando para falar com eles. Antes que pudessem chegar à porta, o brasileiro foi encurralado por quatro agentes do ICE.

"Nós estávamos apenas sentados no escritório, completamente calmos. Foi uma quantidade desnecessária de pessoas, uma quantidade desnecessária de força, na minha opinião. Eles vieram com um mandado e apenas disseram: 'Eu tenho um mandado para a sua prisão'. Então o entrevistador disse a mim e ao nosso advogado para sair do prédio", conta Hannah.
"Nesse momento, eu apenas chorava, soluçava e mal conseguia me controlar. Antes de nos separarmos, eu perguntei se poderia trazer os óculos dele, porque ele não consegue ler sem os óculos, mas eles negaram o pedido. Disseram que, depois que alguém é detido, óculos são considerados contrabando", acrescenta.

Ao sair do prédio, Hannah relata ter se deparado com cerca de 50 casais que esperavam por suas entrevistas e que, ao vê-la voltando sem o marido, pareceram angustiados. Naquele momento, Matheus era levado para os fundos do prédio e colocado em uma van sem identificação. Enquanto alocava os imigrantes no veículo, o motorista gritava: "Temos espaço para mais cinco. Vá buscar mais cinco."

Hannah explicou que Matheus foi aos EUA originalmente com um visto de estudante, documento que expirou durante a pandemia de Covid-19. Eles se conheceram logo depois, ficaram noivos e se casaram. Desde então, o brasileiro estava no processo de obter o visto de residência permanente com base na cidadania da esposa.

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Irregularidades

Após ser detido pelo ICE, Matheus foi inicialmente levado ao Centro de Detenção de Otay Mesa, em San Diego, onde teve de dormir no chão com outros detidos e não recebeu alimentação adequada. O brasileiro contou que o local conta com cartazes com dizeres que parecem querer desencorajar os estrangeiros a obter cidadania, como: "Isso vai ser muito mais fácil se você simplesmente sair por conta própria".

Durante chamadas telefônicas, Matheus insistia em dizer a Hannah que estava tudo bem com ele — mas ela percebia, pela voz dele, que não estava. Então, quando foi visitá-lo, pôde ver com seus próprios olhos como os detentos eram tratados naquele local. A americana chegou a presenciar um agente se recusando a deixar um homem levar medicação para diabetes para sua esposa.

E as condições do centro de detenção não foram a pior parte da história. Hannah chegou a ficar cerca de 48 horas sem receber notícias oficiais do paradeiro de Matheus. Até então, ela conseguia rastrear o marido por meio de um aplicativo. Então, no início da semana, passou a constar na ferramenta que o brasileiro não estava mais lá — e nenhuma autoridade do centro de detenção sabia dizer onde ele estava.

Vinte e quatro horas depois do "sumiço" de Matheus, Hannah ficou sabendo, por meio de um amigo dele do centro de detenção, que o marido tinha sido levado, no meio da noite, para Louisiana, estado de onde partem a maioria dos voos de deportação. Isso contraria o que foi acordado judicialmente. Em janeiro, o brasileiro pediu à Justiça para deixar os EUA voluntariamente, e o pedido foi concedido.

O plano, portanto, era que Matheus arcasse com os custos da passagem e embarcasse em um voo comercial de volta para o Brasil. Agora, ele terá de esperar semanas, ou até meses, para ser mandado de volta ao país de origem. Isso porque as autoridades precisam esperar que um avião de grande porte atinja sua capacidade máxima de passageiros para que o voo seja autorizado.

"Na ligação, o amigo disse: 'Eles o levaram no meio da noite. Nós nem chegamos a nos despedir. Sabemos que estão levando os deportados para Louisiana.' A questão é: eu liguei para o centro de detenção. Perguntei: 'Onde ele está sendo mantido? No aplicativo, diz que ele foi liberado.' E a pessoa do outro lado da linha disse: 'Não sabemos onde ele está'", relata Hannah.
"Então fiquei tipo: 'O que você quer dizer? Você é uma agente federal do governo dos EUA.' Só posso especular que: ou eles são extremamente desorganizados e não têm a capacidade de gerir todas essas centenas, talvez milhares de pessoas sob seus cuidados; ou estão mentindo para mim, porque sabem exatamente onde Matheus está e não vão me dizer a verdade porque sabem que ele não deveria estar lá", acrescenta.

Na quarta-feira (28), Hannah finalmente recebeu notícias oficiais do paradeiro de Matheus. O ICE o fez assinar um documento em que ele autorizava ser transferido para Louisiana e o enviou para o Centro Correcional Richwood, que se encontra em condições "deploráveis". O brasileiro segue sem os óculos, então não consegue ler, e o documento foi assinado sem a presença do advogado do casal.

Uma vez que Matheus for deportado, o casal pretende recomeçar a vida no Rio de Janeiro. O plano, segundo Hannah, é morar com a família do brasileiro até eles se restabelecerem financeiramente. A americana não tem capacidade legal para trabalhar no Brasil e eles já gastaram todas as suas economias com advogado e custos associados ao processo.

'É constrangedor ser um cidadão dos EUA'

Em menos de 20 dias, dois americanos foram assassinadas por agentes do ICE em Minnesota, estado onde Hannah nasceu. No último dia 7, Renee Nicole Good, de 37 anos, foi morta depois que um agente atirou contra seu carro durante uma abordagem. Já no dia 24, a vítima foi Alex Jeffrey Pretti, também de 37 anos, que morreu enquanto tentava ajudar manifestantes que protestavam contra a repressão do ICE.

As mortes provocaram uma onda de protestos em Minnesota e em todo o país. As famílias questionam a versão oficial do ICE de que as vítimas oferecessem algum tipo de ameaça, em especial aos agentes. Vídeos verificados e revisados pela agência Reuters mostram que Pretti segurava um aparelho celular, e não uma arma, enquanto tentava ajudar manifestantes que haviam sido empurrados ao chão pelos agentes.

Hannah morava em San Diego com Matheus, mas agora voltou a morar com a família em Minnesota, onde deve ficar até se mudar para o Brasil. Ela conta que, apesar de o clima ser de extrema tensão, as pessoas não têm se calado diante da repressão e têm ido às ruas para protestar — até mesmo nos dias em que temperaturas congelantes dificultam qualquer ação de resistência.

"Sempre tive fé e esperança de que este país me proporcionasse tudo o que sempre quis. Você sabe, o sonho americano de poder ter um bom emprego, uma casa e uma família. Agora não vejo o sonho americano em lugar nenhum", afirma Hannah. "Não reconheço este lugar. E me posiciono firmemente contra tudo o que está acontecendo agora. É constrangedor ser um cidadão dos EUA."

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