Entenda por que Irã enfrenta a maior onda de protestos antigovernamentais
Manifestações contra o regime do aiatolá Ali Khamenei entram na terceira semana, com mais de 500 mortos e expõem crise econômica e social no país


Giovanna Colossi
Iranianos voltaram às ruas nesta segunda-feira (12), marcando a terceira semana consecutiva de protestos contra o governo do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Com mais de 500 mortos, as manifestações já superam em escala as registradas em 2009 — quando a eleição presidencial foi questionada por opositores — e as de 2022, após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade.
A atual onda de protestos coloca o país no momento mais crítico desde a Revolução Iraniana de 1979. Mas o que explica a explosão social?
Economia em colapso
O Irã detém a segunda maior reserva de gás natural do mundo e a quarta maior reserva comprovada de petróleo bruto. Apesar disso, a economia do país enfrenta uma deterioração acelerada. As receitas governamentais dependem fortemente do setor petrolífero, que tem sofrido com o endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
A situação se agravou ainda mais com a crescente escassez de água e energia que prejudicam a atividade econômica, levando o Irã a uma inflação galopante, que atingiu em cheio uma importante parcela da população iraniana: os Bazaari (a classe de comerciantes do país).
Em 1979, esse grupo teve papel central na deposição do xá Mohammad Reza Pahlavi, promovendo greves prolongadas que enfraqueceram a monarquia e abriram caminho para a instauração da República Islâmica. E foram eles os primeiros a ocupar as ruas de Teerã, no fim de 2025, para protestar contra a desvalorização do rial frente ao dólar, o baixo crescimento econômico e o aumento do custo de vida.
Protestos ganham força nacional
As manifestações, no entanto, ganharam uma proporção maior nos últimos dias e se espalharam pelas 31 províncias do país com a adesão de outras parcelas da sociedade, principalmente as mulheres, que reivindicam maior liberdade de escolha e o fim das restrições impostas pelo regime. Ao mesmo tempo, setores abertamente contrários ao governo também aderiram aos protestos, apesar da fragmentação da oposição, que teve seus principais líderes presos ou silenciados nos últimos anos.
A repressão violenta atraiu atenção internacional. A União Europeia avalia a imposição de novas sanções, enquanto os Estados Unidos passaram a adotar um tom mais duro, levantando a possibilidade de intervenção militar caso a repressão continue e o shutdown da internet — que já dura mais de 48h — permaneça.
O regime pode cair?
Ainda que as manifestações resultem na queda de Ali Khamenei, no poder há 35 anos, dificilmente isso significaria uma transição para um regime democrático ou mesmo para uma monarquia liderada por Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979 — hipótese que voltou a circular no debate internacional.
Segundo a professora Muna Omran, especialista em Oriente Médio, apesar da escala massiva dos protestos, não há fissuras na liderança clerical xiita, nem nas forças militares ou de segurança, e os manifestantes tampouco contam com uma liderança centralizada. Além disso, a própria arquitetura do Estado iraniano dificulta qualquer mudança abrupta.
"A estrutura de poder do Irã é muito peculiar. Não é como, por exemplo, a Venezuela que você prende o presidente e coloca outro no lugar. Quando os aiatolás chegam ao poder, eles fatiam o poder de uma tal maneira, organizam a estrutura do Estado iraniano de uma tal forma que se cair o clero hoje, quem assume são os militares de dentro do governo.", explica
"E aí você sai de uma ditadura para outra", comenta a professora, que lembra que o Irã teve apenas um breve período democrático durante o governo do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, entre 1952 e 1953.
Mossadegh foi deposto após interferência direta dos Estados Unidos, que financiaram mobilizações populares depois que ele nacionalizou os poços de petróleo iranianos, contrariando interesses econômicos do Ocidente. A operação, conduzida pela CIA em conjunto com o serviço secreto britânico MI-6, levou à restauração do xá Mohammad Reza Pahlavi, que permaneceu no poder até a Revolução de 1979.
Hoje, o filho do xá, Reza Pahlavi, vive exilado nos Estados Unidos e é citado como uma possível alternativa ao regime islâmico. Para Muna, no entanto, essa hipótese não se sustenta.
"Ele não tem nenhuma credibilidade dentro do Irã. E isso é dito por pessoas ligadas ao governo e pessoas que não são ligadas ao governo", conta.
Nesta segunda (12), um cortejo em Teerã para agentes de segurança e civis mortos nas manifestações virou uma demonstração de apoio popular ao governo, atraindo milhares de apoiadores. Com as imagens do ato fúnebre sendo compartilhadas pela mídia estatal iraniana.
E Trump?
Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos voltou a adotar um discurso agressivo na política externa. Após a prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro e declarações sobre uma possível intervenção na Groenlândia, Trump também ameaçou interferir militarmente no Irã caso o regime continue reprimindo os protestos com violência.
Para a especialista, no entanto, uma ação militar contra o Irã seria muito mais complexa. Isso porque, a presença de Rússia e China no tabuleiro global limita qualquer escalada maior. Moscou, menos envolvida com a guerra na Ucrânia, e Pequim, interessada tanto no petróleo iraniano quanto em Taiwan, funcionam como fatores de contenção.
"O Trump é imprevisível, porém, o Irã não é a Venezuela. Por quê? Primeiro porque tem uma estrutura de poder consistente. Segundo, a posição geopolítica do Irã não favorece o Trump, porque está mais perto da China e da Rússia do que a Venezuela. O Putin tem uma força bélica, tem arma nuclear, pode querer apoiar o Irã, assim como pode se silenciar, a gente nunca sabe. E o Xi Jinping, da China, tem força econômica, inclusive são eles que mantêm o Irã, né? A economia chinesa que compra barril de petróleo do Irã."
Muna destaca ainda que, mesmo em caso de ataque, o padrão recente da política externa americana sugere um conflito controlado e de curta duração.
"Se o Trump efetivamente atacar o Irã, primeiro que, se atacar, ele vai avisar. Exatamente como foi na guerra dos 12 dias. Ele ataca, aí o Irã revida, avisando que vai atacar uma base aérea dos EUA no Oriente Médio. O Irã ameaça fechar o Estreito de Ormuz, principal rota de petróleo, e tudo volta como era antes."









