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Copa de 2026 escancarou a relação entre futebol e política

Da deportação de um árbitro às restrições impostas ao Irã, o torneio nos Estados Unidos expôs os limites da suposta neutralidade esportiva

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Vicklin Moraes
19/07/2026, 10:00 • Atualizado em 19/07/2026, 10:00
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Presidente dos EUA, Donald Trump, segura o troféu da Copa do Mundo. | REUTERS/Jonathan Ernst

Presidente dos EUA, Donald Trump, segura o troféu da Copa do Mundo. | REUTERS/Jonathan Ernst

A grande decisão da Copa do Mundo de 2026, disputada neste domingo (19) entre Argentina e Espanha, encerra um torneio histórico e repleto de particularidades. Realizada na América do Norte, a competição foi marcada por intensos debates diplomáticos, restrições imigratórias e manifestações políticas que foram muito além das quatro linhas.

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O SBT News reuniu os episódios mais marcantes dos bastidores do torneio e consultou Flávio Campos, historiador e professor da pós-graduação em História Sociocultural do Futebol na Universidade de São Paulo (USP), para analisar o impacto das tensões geopolíticas no esporte. Segundo o especialista, futebol e política são elementos impossíveis de serem dissociados.

A logística forçada da seleção do Irã

Seleção iraniana | Reprodução/Seleção Iraniana
Seleção iraniana | Reprodução/Seleção Iraniana

Em decorrência das históricas tensões diplomáticas entre Washington e Teerã, a delegação iraniana enfrentou condições inéditas de hospedagem. Por determinação das autoridades de imigração norte-americanas, a equipe não pôde pernoitar em território dos Estados Unidos. Como alternativa, a seleção concentrou-se no México, viajando de avião para o país apenas nos dias dos jogos e retornando imediatamente após o final das partidas.

Para Flávio Campos, a medida configurou uma interferência direta na isonomia esportiva da competição.

“Trump também está declarando guerra ao futebol. Declarando guerra àquilo que o futebol tem de mais razoável, que é a aplicação das regras para todos e a ideia de equidade, de isonomia entre os participantes. Com as medidas dele, ele persegue, cria embaraços para a seleção iraniana e dificulta os traslados. Em um torneio curto, o descanso dos atletas é fundamental. Eles precisam estar recuperados para encarar a maratona de jogos. Quando ele impede os iranianos de permanecerem em território dos Estados Unidos, interfere no desempenho dessa seleção”, defende o historiador.

Árbitro eleito o melhor da África é deportado

Outro incidente diplomático envolveu o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor juiz do continente africano em 2025. Selecionado pela Fifa para atuar no Mundial, Artan teve seu visto de entrada negado pela imigração dos Estados Unidos e acabou deportado.

Mesmo após a embaixada da Somália oferecer um passaporte diplomático para tentar contornar a situação, as autoridades americanas mantiveram o veto. O árbitro precisou retornar ao seu país de origem, onde foi recebido com manifestações de solidariedade pela população local.

Censura à camisa histórica do Haiti

Camiseta da seleção do Haiti continha ilustração da Batalha de Vertières, ocorrida em 1803 | Reprodução/SAETA
Camiseta da seleção do Haiti continha ilustração da Batalha de Vertières, ocorrida em 1803 | Reprodução/SAETA

De volta ao principal palco do futebol mundial após um hiato de 52 anos, a seleção do Haiti foi obrigada pela Fifa a alterar seu uniforme oficial às vésperas da estreia. A entidade considerou que a estampa original violava a regra que proíbe mensagens de cunho político ou ideológico nos uniformes.

A camisa continha uma ilustração da Batalha de Vertières, ocorrida em 1803, um confronto decisivo que garantiu a independência haitiana contra o exército de Napoleão Bonaparte. Com o veto, o país precisou disputar o torneio com um fardamento simplificado, sendo eliminado ainda na fase de grupos.

“A Fifa trabalha com uma ilusão, que é a ideia de que o futebol é neutro e de que a política atrapalha o futebol. É uma ilusão, e uma ilusão hipócrita. O que o Infantino [presidente da Fifa] fez nesta Copa foi servir; ele foi submisso ao poder de Trump e dos Estados Unidos. Essa hipocrisia revela um lado que não tem nada de neutralidade e evidencia um direcionamento da Fifa em relação aos poderes estabelecidos”, afirma Campos.

O caso Balogun e a aproximação entre Trump e Infantino

O presidente dos EUA, Donald Trump, exibe um cartão vermelho durante reunião com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, EUA, em 28 de agosto de 2018. REUTERS/
O presidente dos EUA, Donald Trump, exibe um cartão vermelho durante reunião com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, EUA, em 28 de agosto de 2018. REUTERS/

A relação entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o mandatário da Fifa, Gianni Infantino, gerou questionamentos de organizações internacionais. O ponto mais polêmico ocorreu quando a Fifa decidiu anular a suspensão automática por cartão vermelho aplicada ao atacante norte-americano Folarin Balogun.

Expulso na vitória por 2 a 0 contra a Bósnia e Herzegovina, Balogun deveria desfalcar a equipe na partida seguinte contra a Bélgica, mas teve sua escalação liberada após a interferência da entidade. Trump elogiou publicamente a anulação do lance e admitiu ter conversado com Infantino, embora ambos tenham negado qualquer interferência direta no comitê de arbitragem.

A proximidade entre os dois líderes motivou denúncias de entidades de direitos humanos, como a Fair Square, ao Comitê Olímpico Internacional (COI). Antes mesmo do torneio, durante o sorteio dos grupos da Copa, Infantino entregou a Trump o inédito Prêmio da Paz da Fifa (intitulado O Futebol Une o Mundo), honraria sugerida pelo próprio político norte-americano.

Campos classifica a interferência presidencial em uma decisão de arbitragem durante o torneio como um fato sem precedentes na história moderna das Copas, superando até mesmo a instrumentalização política vista na Copa de 1934, realizada na Itália sob o regime fascista de Benito Mussolini.

"Na Copa de 1934, observamos manifestações ideológicas claras, como árbitros realizando a saudação fascista antes do início das partidas. No entanto, a interferência direta de um chefe de Estado na reversão de uma punição técnica durante o torneio em andamento é um precedente inédito e preocupante", pontua.

As Malvinas no gramado

Argentinos comemoram com uma faixa relacionada às Ilhas Malvinas após partida contra Inglaterra | REUTERS/Amanda Perobelli
Argentinos comemoram com uma faixa relacionada às Ilhas Malvinas após partida contra Inglaterra | REUTERS/Amanda Perobelli

A histórica rivalidade entre Argentina e Inglaterra ganhou novos contornos após a vitória argentina por 2 a 1 na semifinal. Durante a comemoração no gramado, os jogadores argentinos estenderam uma faixa com a inscrição "As Malvinas são argentinas".

A manifestação ocorreu a despeito das recomendações expressas da Fifa, que havia proibido faixas, bandeiras ou adereços que fizessem alusão à Guerra das Malvinas (conflito armado de 1982 que opôs a Argentina e o Reino Unido pela soberania do arquipélago sul-americano).

“O futebol expressa muito as contradições do mundo contemporâneo, das nossas sociedades. Então, é evidente que essas questões vão aparecer, como apareceram fortemente nesta Copa, e devem surgir também na próxima. Eu acho que é impossível desconectar, desarticular as questões políticas do futebol”, explica.

O que esperar da Copa de 2030

A Copa do Mundo de 2030 marcará o centenário do torneio com um formato inédito, distribuído por três continentes. A abertura será realizada na América do Sul, enquanto Portugal, Espanha e Marrocos concentrarão a maior parte das partidas.

Para o historiador , esse arranjo geográfico e político indica que as tensões vistas em 2026 devem persistir, agora em um cenário ainda mais complexo. Ele aponta que Portugal e Espanha, apesar de democráticos, convivem com o avanço de movimentos de extrema direita contrários à imigração, especialmente de africanos, latino-americanos e asiáticos, fenômeno ligado à própria história colonial dos dois países.

Campos também destaca o papel de Marrocos, único país africano entre as sedes principais, como elemento central desse contexto. Segundo ele, trata-se de uma nação islâmica profundamente conectada à Europa, com forte presença migratória na Espanha e na França, reflexo de laços históricos e coloniais.

Para o historiador, essas camadas históricas e sociais devem emergir durante o torneio, assim como ocorreu em outras edições. “Essas contradições tendem a aparecer e devem estar presentes na Copa de 2030”, conclui.

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