Mundo

Racismo na Copa e o mito da Argentina branca

Casos recorrentes envolvendo torcedores argentinos na Copa, como o ataque a IShowSpeed, expõem o racismo no futebol e suas raízes históricas

Avatar de Vicklin Moraes
Vicklin Moraes
15/07/2026, 18:43 • Atualizado em 15/07/2026, 18:43
compartilhar
Argentino faz gesto racista contra influencer em jogo | Reprodução/Youtube

Argentino faz gesto racista contra influencer em jogo | Reprodução/Youtube

O futebol tem sido palco frequente de cenas que contrariam o espírito esportivo. Ofensas racistas e gestos discriminatórios tornaram-se recorrentes em competições como a Copa do Mundo e a Copa Libertadores da América. Um dos episódios de repercussão global ocorreu durante o Mundial nos Estados Unidos, quando o influenciador norte-americano IShowSpeed foi alvo de ataques racistas por torcedores argentinos em dois jogos diferentes.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.

Siga no Google Discover

Para especialistas ouvidos pelo SBT News, a repetição desses casos não é pontual nem fruto apenas do calor das partidas. Ela está ligada à própria formação da identidade nacional argentina, historicamente sustentada pelo mito de ser a “Europa da América Latina”.

📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique aqui e siga o canal do SBT News.

O projeto político do embranquecimento

A ideia de uma Argentina branca e europeia não surgiu por acaso, foi construída. Entre o fim do século 19 e o início do século 20, elites políticas e intelectuais defenderam que o país só alcançaria a modernidade se seguisse padrões europeus. Nesse contexto, a população branca era associada ao progresso, enquanto indígenas e negros eram vistos como entraves ao desenvolvimento.

Para viabilizar esse projeto, o Estado incentivou a imigração europeia em massa. Milhões de espanhóis e italianos chegaram ao país, transformando profundamente a demografia. Em paralelo, ocorreu um processo sistemático de apagamento das populações originárias e negras.

Comunidades indígenas foram alvo de campanhas militares, com perda de territórios e extermínio. Já a população negra foi progressivamente invisibilizada nos registros oficiais e na narrativa histórica, consolidando o mito de que “não existem negros na Argentina”.

Embora o Brasil também tenha adotado políticas de branqueamento, os caminhos históricos e a percepção racial seguiram trajetórias diferentes nos dois países.

O futebol como ponta do iceberg

O jogador argentino Gianluca Prestianni chama Vini Jr. de “macaco” durante partida entre Benfica e Real Madrid | Foto: Jesús Álvarez Orihuela/AS
O jogador argentino Gianluca Prestianni chama Vini Jr. de “macaco” durante partida entre Benfica e Real Madrid | Foto: Jesús Álvarez Orihuela/AS

Para Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, os estádios refletem um problema estrutural.

“Na Argentina, ofensas racistas, como chamar alguém de macaco, muitas vezes são tratadas como algo cultural. Esse tipo de ataque não se limita a jogadores negros: brasileiros, de forma geral, também são alvo. O futebol expõe o problema, mas ele é apenas a ponta de um debate muito maior”, afirma.

Segundo ele, a ideia equivocada de ausência da população negra contribui para a permanência dessas práticas. “Essa população existe, mas historicamente teve pouca visibilidade, o que dificulta o reconhecimento do racismo.”

Apesar de avanços recentes, como o aumento das punições por parte da Conmebol, a tolerância ainda é elevada. Em 2023, a entidade ampliou a multa mínima para casos de racismo de 30 mil para 100 mil dólares e passou a prever o fechamento parcial de setores dos estádios. Medidas mais severas, como perda de pontos ou interdição total de arenas, seguem sem aplicação prática.

Punições da Conmebol para casos de racismo

• Até 2022: multa de 30 mil dólares

• A partir de 2023: multa de 100 mil dólares + fechamento parcial de setores + campanhas educativas

• Reincidência (prevista): perda de pontos ou jogos com portões fechados (ainda não aplicada)

Racismo não é “provocação”

Para a pedagoga e mestre em relações étnico-raciais Luiza Mandela, tratar o racismo como “provocação de torcida” impede o enfrentamento do problema.

“O letramento racial não é para educar racistas, mas para que a sociedade reconheça o crime. Quem comete o ato sabe o que está fazendo e precisa ser responsabilizado", explica.

Ela destaca diferenças entre Brasil e Argentina. No Brasil, a Lei nº 14.532/2023 equiparou a injúria racial ao crime de racismo, tornando-o inafiançável e imprescritível, com pena de 3 a 5 anos de prisão.

Esse contraste gera conflitos, especialmente com torcedores estrangeiros.

“Já houve casos de argentinos detidos no Brasil que disseram achar que era ‘brincadeira’. Aqui, apesar dos desafios, há maior consciência de que é crime. Na Argentina, a falta de leis específicas e de ensino da história afro-argentina contribui para a normalização”, afirma.

Na legislação argentina, ofensas individuais não resultam em prisão. As punições se concentram em organizações racistas ou propaganda de superioridade racial, com penas de um mês a três anos.

Leia mais

Ver tudo
Imagem da notícia: Governo quer tratar bets como cigarro, diz Durigan

Governo quer tratar bets como cigarro, diz Durigan

Imagem da notícia: Guardian diz que Trump trata autonomia do Brasil como ofensa

Guardian diz que Trump trata autonomia do Brasil como ofensa

Imagem da notícia: Portinho diz que disputa interna com Jordy foi ‘saudável’

Portinho diz que disputa interna com Jordy foi ‘saudável’

Imagem da notícia: Bolsonaro 'jamais soube’ que Flávio leria carta, diz defesa

Bolsonaro 'jamais soube’ que Flávio leria carta, diz defesa

Imagem da notícia: Governo quer tratar bets como cigarro, diz Durigan

Governo quer tratar bets como cigarro, diz Durigan

Imagem da notícia: Guardian diz que Trump trata autonomia do Brasil como ofensa

Guardian diz que Trump trata autonomia do Brasil como ofensa

Imagem da notícia: Portinho diz que disputa interna com Jordy foi ‘saudável’

Portinho diz que disputa interna com Jordy foi ‘saudável’

Imagem da notícia: Bolsonaro 'jamais soube’ que Flávio leria carta, diz defesa

Bolsonaro 'jamais soube’ que Flávio leria carta, diz defesa

Últimas notícias

TCU libera penduricalhos fora do teto

Decisão foi tomada por oito votos a um contrariou a área técnica; medida vale para servidores em cargos de direção e chefia do Congresso e da própria Corte

Fazenda mantém previsão de alta do PIB de 2026 em 2,3%

Estimativa para a inflação ficou acima do teto da meta; projeção da Selic subiu de 13% para 14% ao ano

Fazenda eleva previsão de inflação para 5,1%, acima do teto

Estimativa supera limite de 4,5%; alimentos, petróleo e risco de El Niño pesaram na revisão

Inglaterra abre placar contra Argentina; assista ao vivo

Rivais históricos se enfrentam nesta quarta-feira (15), às 16h, por uma vaga na final da Copa do Mundo de 2026

Governo e Congresso fecham acordo para MP das dívidas rurais

MP substitui ‘pauta-bomba’ do Congresso e deve renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas; impacto fiscal ainda será calculado

PF prende suspeito de tráfico de animais em Niterói (RJ)

Operação da PF, com apoio do INEA, resgatou animais silvestres e aves exóticas mantidos ilegalmente em cativeiro