Casos recorrentes envolvendo torcedores argentinos na Copa, como o ataque a IShowSpeed, expõem o racismo no futebol e suas raízes históricas
Vicklin Moraes
15/07/2026, 18:43 • Atualizado em 15/07/2026, 18:43
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Argentino faz gesto racista contra influencer em jogo | Reprodução/Youtube
O futebol tem sido palco frequente de cenas que contrariam o espírito esportivo. Ofensas racistas e gestos discriminatórios tornaram-se recorrentes em competições como a Copa do Mundo e a Copa Libertadores da América. Um dos episódios de repercussão global ocorreu durante o Mundial nos Estados Unidos, quando o influenciador norte-americano IShowSpeed foi alvo de ataques racistas por torcedores argentinos em dois jogos diferentes.
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Para especialistas ouvidos pelo SBT News, a repetição desses casos não é pontual nem fruto apenas do calor das partidas. Ela está ligada à própria formação da identidade nacional argentina, historicamente sustentada pelo mito de ser a “Europa da América Latina”.
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A ideia de uma Argentina branca e europeia não surgiu por acaso, foi construída. Entre o fim do século 19 e o início do século 20, elites políticas e intelectuais defenderam que o país só alcançaria a modernidade se seguisse padrões europeus. Nesse contexto, a população branca era associada ao progresso, enquanto indígenas e negros eram vistos como entraves ao desenvolvimento.
Para viabilizar esse projeto, o Estado incentivou a imigração europeia em massa. Milhões de espanhóis e italianos chegaram ao país, transformando profundamente a demografia. Em paralelo, ocorreu um processo sistemático de apagamento das populações originárias e negras.
Comunidades indígenas foram alvo de campanhas militares, com perda de territórios e extermínio. Já a população negra foi progressivamente invisibilizada nos registros oficiais e na narrativa histórica, consolidando o mito de que “não existem negros na Argentina”.
Embora o Brasil também tenha adotado políticas de branqueamento, os caminhos históricos e a percepção racial seguiram trajetórias diferentes nos dois países.
O futebol como ponta do iceberg
O jogador argentino Gianluca Prestianni chama Vini Jr. de “macaco” durante partida entre Benfica e Real Madrid | Foto: Jesús Álvarez Orihuela/AS
Para Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, os estádios refletem um problema estrutural.
“Na Argentina, ofensas racistas, como chamar alguém de macaco, muitas vezes são tratadas como algo cultural. Esse tipo de ataque não se limita a jogadores negros: brasileiros, de forma geral, também são alvo. O futebol expõe o problema, mas ele é apenas a ponta de um debate muito maior”, afirma.
Segundo ele, a ideia equivocada de ausência da população negra contribui para a permanência dessas práticas. “Essa população existe, mas historicamente teve pouca visibilidade, o que dificulta o reconhecimento do racismo.”
Apesar de avanços recentes, como o aumento das punições por parte da Conmebol, a tolerância ainda é elevada. Em 2023, a entidade ampliou a multa mínima para casos de racismo de 30 mil para 100 mil dólares e passou a prever o fechamento parcial de setores dos estádios. Medidas mais severas, como perda de pontos ou interdição total de arenas, seguem sem aplicação prática.
• A partir de 2023: multa de 100 mil dólares + fechamento parcial de setores + campanhas educativas
• Reincidência (prevista): perda de pontos ou jogos com portões fechados (ainda não aplicada)
Racismo não é “provocação”
Para a pedagoga e mestre em relações étnico-raciais Luiza Mandela, tratar o racismo como “provocação de torcida” impede o enfrentamento do problema.
“O letramento racial não é para educar racistas, mas para que a sociedade reconheça o crime. Quem comete o ato sabe o que está fazendo e precisa ser responsabilizado", explica.
Ela destaca diferenças entre Brasil e Argentina. No Brasil, a Lei nº 14.532/2023 equiparou a injúria racial ao crime de racismo, tornando-o inafiançável e imprescritível, com pena de 3 a 5 anos de prisão.
Esse contraste gera conflitos, especialmente com torcedores estrangeiros.
“Já houve casos de argentinos detidos no Brasil que disseram achar que era ‘brincadeira’. Aqui, apesar dos desafios, há maior consciência de que é crime. Na Argentina, a falta de leis específicas e de ensino da história afro-argentina contribui para a normalização”, afirma.
Na legislação argentina, ofensas individuais não resultam em prisão. As punições se concentram em organizações racistas ou propaganda de superioridade racial, com penas de um mês a três anos.
Racismo na Copa e o mito da Argentina brancaCasos recorrentes envolvendo torcedores argentinos na Copa, como o ataque a IShowSpeed, expõem o racismo no futebol e suas raízes históricasMundo2026-07-15T18:43:29.754ZO futebol tem sido palco frequente de cenas que contrariam o espírito esportivo. Ofensas racistas e gestos discriminatórios tornaram-se recorrentes em competições como a Copa do Mundo e a Copa Libertadores da América. Um dos episódios de repercussão global ocorreu durante o Mundial nos Estados Unidos, quando o influenciador norte-americano Para especialistas ouvidos pelo SBT News, a repetição desses casos não é pontual nem fruto apenas do calor das partidas. Ela está ligada à própria formação da identidade nacional argentina, historicamente sustentada pelo mito de ser a “Europa da América Latina”. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique e siga o canal do SBT News. O projeto político do embranquecimento A ideia de uma Argentina branca e europeia não surgiu por acaso, foi construída. Entre o fim do século 19 e o início do século 20, elites políticas e intelectuais defenderam que o país só alcançaria a modernidade se seguisse padrões europeus. Nesse contexto, a população branca era associada ao progresso, enquanto indígenas e negros eram vistos como entraves ao desenvolvimento. Para viabilizar esse projeto, o Estado incentivou a imigração europeia em massa. Milhões de espanhóis e italianos chegaram ao país, transformando profundamente a demografia. Em paralelo, ocorreu um processo sistemático de apagamento das populações originárias e negras. Comunidades indígenas foram alvo de campanhas militares, com perda de territórios e extermínio. Já a população negra foi progressivamente invisibilizada nos registros oficiais e na narrativa histórica, consolidando o mito de que “não existem negros na Argentina”. Embora o Brasil também tenha adotado políticas de branqueamento, os caminhos históricos e a percepção racial seguiram trajetórias diferentes nos dois países. O futebol como ponta do iceberg Para Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, os estádios refletem um problema estrutural. “Na Argentina, ofensas racistas, como chamar alguém de macaco, muitas vezes são tratadas como algo cultural. Esse tipo de ataque não se limita a jogadores negros: brasileiros, de forma geral, também são alvo. O futebol expõe o problema, mas ele é apenas a ponta de um debate muito maior”, afirma. Segundo ele, a ideia equivocada de ausência da população negra contribui para a permanência dessas práticas. “Essa população existe, mas historicamente teve pouca visibilidade, o que dificulta o reconhecimento do racismo.” Apesar de avanços recentes, como o aumento das punições por parte da Conmebol, a tolerância ainda é elevada. Em 2023, a entidade ampliou a multa mínima para casos de racismo de 30 mil para 100 mil dólares e passou a prever o fechamento parcial de setores dos estádios. Medidas mais severas, como perda de pontos ou interdição total de arenas, seguem sem aplicação prática. Punições da Conmebol para casos de racismo • Até 2022: multa de 30 mil dólares • A partir de 2023: multa de 100 mil dólares + fechamento parcial de setores + campanhas educativas • Reincidência (prevista): perda de pontos ou jogos com portões fechados (ainda não aplicada) Racismo não é “provocação” Para a pedagoga e mestre em relações étnico-raciais Luiza Mandela, tratar o racismo como “provocação de torcida” impede o enfrentamento do problema. “O letramento racial não é para educar racistas, mas para que a sociedade reconheça o crime. Quem comete o ato sabe o que está fazendo e precisa ser responsabilizado", explica. Ela destaca diferenças entre Brasil e Argentina. No Brasil, a Lei nº 14.532/2023 equiparou a injúria racial ao crime de racismo, tornando-o inafiançável e imprescritível, com pena de 3 a 5 anos de prisão. Esse contraste gera conflitos, especialmente com torcedores estrangeiros. “Já houve casos de argentinos detidos no Brasil que disseram achar que era ‘brincadeira’. Aqui, apesar dos desafios, há maior consciência de que é crime. Na Argentina, a falta de leis específicas e de ensino da história afro-argentina contribui para a normalização”, afirma. Na legislação argentina, ofensas individuais não resultam em prisão. As punições se concentram em organizações racistas ou propaganda de superioridade racial, com penas de um mês a três anos. São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/mundo/racismo-na-copa-e-o-mito-da-argentina-branca
Decisão foi tomada por oito votos a um contrariou a área técnica; medida vale para servidores em cargos de direção e chefia do Congresso e da própria Corte