Mercado europeu entra em modo "venda a América" com novas tarifas de Trump
Investidores avaliam saída gradual de dólares diante de instabilidade geoeconômica


Presidente dos EUA, Donald Trump, concede entrevista coletiva na Casa Branca | Reprodução/Casa Branca - 09.01.2026
As novas ameaças comerciais do presidente americano Donald Trump, agora com foco em aliados europeus, voltaram a agitar os mercados globais e abriram espaço para discussões sobre uma possível fuga gradual de capital estrangeiro dos ativos dos Estados Unidos.
A tensão aumentou após Trump condicionar a autorização para anexação da Groenlândia ao aumento de tarifas sobre produtos europeus. As novas taxas começariam em 10% a partir de 1º de fevereiro e subiriam para 25% em junho, reacendendo a política de "venda a América", termo cunhado por analistas em meio a episódios anteriores de protecionismo comercial.
A repercussão foi imediata: as bolsas europeias caíram mais de 1% na segunda-feira e os futuros das ações americanas indicaram fraqueza após o feriado nos EUA. O dólar também recuou diante de moedas como euro, libra e franco suíço — este último, um porto seguro tradicional, teve sua maior valorização diária frente à moeda americana em um mês.
Francesca Fornasari, chefe de soluções cambiais da Insight Investment, afirmou à Reuters que muitos investidores ficaram consternados com os acontecimentos do fim de semana e passaram a refletir sobre a forma como administram seus ativos.
Ela pondera que o dólar ainda é sustentado por uma economia americana robusta, mas os sinais de instabilidade política e comercial aumentam a pressão sobre investidores estrangeiros.
Leonard Kwan, gestor de renda fixa da T. Rowe Price, avaliou que a reação dos mercados foi relativamente contida, o que poderia indicar uma expectativa de que Trump recue, como já fez em ocasiões anteriores. Ele considerou que, até o momento, havia mais ruído do que sinal.
Ainda assim, há incerteza. Uma decisão da Suprema Corte sobre a legalidade das tarifas, somada à falta de clareza sobre a reação da União Europeia, cria um cenário volátil.
A UE pode retaliar com tarifas próprias ou usar um novo instrumento chamado anticoerção, que limita o acesso a licitações públicas, investimentos e serviços bancários para países considerados hostis.
Exposição da Europa
A exposição europeia ao mercado americano é relevante: investidores da região detêm cerca de US$ 8 trilhões em ações e títulos dos EUA, segundo o Deutsche Bank — quase o dobro do resto do mundo somado.
À Reuters, George Saravelos, chefe global de câmbio do Deutsche Bank, escreveu que, diante de um ambiente em que a estabilidade geoeconômica da aliança ocidental está sendo existencialmente abalada, não é claro por que os europeus continuariam dispostos a exercer esse papel.
Apesar disso, gestores veem limitações práticas para uma saída rápida. O ING Bank afirmou que a União Europeia teria dificuldades para forçar investidores privados a se desfazerem de ativos em dólar. A alternativa seria fomentar a alocação gradual em ativos denominados em euro.
A virada do dólar
Após recuar quase 10% em 2025, o dólar se estabilizou nos últimos meses. A posição líquida dos investidores hoje é moderadamente otimista — cerca de US$ 240 milhões, segundo dados citados pela Reuters — o que sugere que o sentimento pode mudar de direção com novos choques.
Kit Juckes, estrategista do Societe Generale, avaliou que a situação provavelmente ainda teria de se agravar antes que os investidores europeus estivessem dispostos a comprometer seus próprios retornos por razões políticas.
A performance dos EUA também perdeu fôlego. Impulsionadas pela onda da inteligência artificial, as bolsas americanas tiveram um bom desempenho em 2025, mas em 2026 já foram superadas por 93% dos países de um índice global da MSCI, segundo o Barclays.
O banco ponderou que não via sinais de uma rotação abrupta dos investidores, mas observava uma tendência crescente à diversificação em ações internacionais.
Os impactos das tarifas
As tarifas podem afetar diretamente a economia europeia. A Capital Economics estima que Reino Unido e Alemanha seriam os mais prejudicados, com impactos potenciais de até 0,3% no PIB em caso de tarifas de 25%.
A incerteza sobre retaliações também pode ampliar os efeitos negativos. Um dado reforça esse risco: os investimentos de empresas alemãs nos Estados Unidos caíram quase pela metade entre fevereiro e novembro de 2025, segundo a própria Reuters, reflexo direto da insegurança comercial.
Oliver Blackbourn, gestor da Janus Henderson, avaliou que a maior parte dos investidores segue confiante de que 2026 será um bom ano para a economia, mas alertou que esse otimismo excessivo pode estar alimentando uma fragilidade estrutural nos mercados.













