Banco Central apanha tanto ao subir quanto ao cortar juros, diz Galípolo
Presidente do BC brincou sobre críticas à autoridade monetária e avaliou como positivo o monitoramento social sobre a inflação


SBT News
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, brincou nesta segunda-feira (6) sobre as críticas que a autoridade monetária recebe ao intervir na economia para controlar a inflação e amortecer choques externos, como é o caso da guerra no Irã. A declaração foi feita durante seminário do Instituto de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro.
Citando o economista norte-americano Alan Blinder, Galípolo disse que os banqueiros centrais dos EUA se dividiram nos últimos 60 anos entre os que cederam à pressão política de determinado presidente e os que resistiram a intervenções — e, por adotarem medidas impopulares, acabaram custando a reeleição dos mandatários.
Segundo o presidente do BC, porém, há uma nova crítica nos últimos anos: a de que cortes de juros também podem atrapalhar a conter a pressão inflacionária.
"Notícia boa para banqueiro central sempre é muito difícil. Se saiu um dado econômico em que a economia está mais aquecida do que se imaginava, é porque você fez menos do que devia. Se a economia está caindo mais, é porque você está atrasado na curva e devia ter começado a cortar [os juros] antes. A gente sabe, é uma escolha só sobre o que a gente vai apanhar. E se tiver fazendo bem o trabalho, você vai apanhar dos dois lados de maneira equânime com os mesmos argumentos", brincou.
Apesar das críticas, Galípolo disse ver como positivo o monitoramento constante da sociedade sobre a inflação. Contudo, considerou que houve uma perda da correlação entre o patamar da inflação e o nível de preços aos olhos da população por não haver um aumento proporcional da renda pós-pandemia de covid-19.
"As pesquisas e todos os tipos de informação que a gente tem mostram que esta é uma sociedade que não tolera mais inflação [...] Não tem nada melhor do que poderia acontecer pra autoridade monetária do que essa incorporação de uma vigilância contra a inflação dentro da sociedade", avaliou.
Galípolo também avaliou que o choque de oferta criado pela guerra da Ucrânia, a partir de fevereiro de 2022, criou nos Bancos Centrais ao redor do globo uma pressão para intervir na economia e evitar o chamado "look through" — quando o BC decide ignorar choques temporários que afetam a inflação para não reagir de forma exagerada.
"Me parece que essa crítica é o que tem causado um custo mais alto para que BCs ao redor do globo voltem a usar essa lógica de adotar no seu discurso a ideia do 'look through'. Ou seja, um custo de credibilidade e dizer que é um choque de oferta temporário pela quarta vez para a população e correr o risco dessa inflação ficar mais duradoura, especialmente olhando para a questão das expectativas", afirmou.
Cautela na alta dos juros
O presidente do BC também frisou que manterá a "cautela" adotada no corte da Selic, a taxa básica de juros. Em março, a autarquia afirmou na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) que a redução de 15% para 14,75% foi adequada em momento de "aumento de incerteza" por causa da guerra no Oriente Médio.
A magnitude e duração de ajustes nos juros, segundo o Copom, dependerão dos desdobramentos do conflito sobre a inflação.









