Ata do Copom: BC diz que cortes na Selic dependem de "clareza sobre profundidade e extensão" da guerra no Oriente Médio
Comitê de Política Monetária afirma que redução de apenas 0,25% na última reunião foi "adequada" em cenário de "aumento da incerteza"

Felipe Moraes
O Banco Central (BC) afirmou nesta terça-feira (24), na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) justificando redução da taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano, que o corte de apenas 0,25% na última reunião foi adequado em momento de "aumento de incerteza" por causa da guerra no Oriente Médio. O colegiado informou que "magnitude e duração" de ajustes nos juros dependem de novas informações sobre impactos do conflito na inflação.
"Após considerar que os eventos recentes não impediriam a materialização dessa sinalização, o Comitê analisou as opções para o ritmo de início do ciclo de calibração da taxa básica de juros, concluindo que nesse momento a redução de 0,25% é a mais adequada", explicou a autoridade monetária.
"Mantido o compromisso fundamental de garantia da convergência da inflação à meta dentro do horizonte relevante para a política monetária, o Comitê estabeleceu que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises", acrescentou.
O BC disse que a decisão é "compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras".
Novamente mencionando momento econômico "caracterizado por forte aumento da incerteza", o Copom falou em "serenidade e cautela na condução da política monetária". "De forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo."
O BC lembrou que expectativas de inflação "seguiam em trajetória de declínio" e "subiram após o início dos conflitos no Oriente Médio, permanecendo acima da meta em todos os horizontes". As projeções do mais recente boletim Focus apontam 4,1% e 3,8% para 2026 e 2026, respectivamente. A meta é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
"A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado", detalhou.
BC: "Ambiente externo mais incerto em função do acirramento de conflitos"
Na análise de cenário descrita na ata, o BC disse que o ambiente externo "tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais". Para a autarquia, isso "exige cautela por parte de países emergentes" por causa da volatilidade de preços de ativos e commodities.
O BC argumentou que a política fiscal "tem um impacto de curto prazo" e avaliou efeitos da Selic em 15%, mantida neste patamar de junho de 2025 a março de 2026: "Em relação ao cenário doméstico, o resultado do PIB no último trimestre de 2025 evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho segue resiliente".
"A desaceleração do PIB no final de 2025, mais acentuada em seus componentes cíclicos, tornou evidentes os efeitos defasados do período prolongado de política monetária restritiva. Para o primeiro trimestre de 2026, indicadores preliminares apontam na direção de uma retomada da atividade econômica em relação ao final de 2025. Este movimento é consistente com projeções e expectativas de uma variação positiva do PIB em 2026, ainda que menor que em 2025", completou.
A autarquia ponderou que segue atenta ao debate sobre "dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade do aprofundamento dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia". Nesse sentido, o Copom reforçou "a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas".
O BC analisou que "o agravamento das tensões geopolíticas", sobretudo após início do conflito entre Estados Unidos, e Israel e Irã no Oriente Médio, se somou a "novas incertezas com relação à política econômica dos EUA", tornando cenário atual "ainda mais incerto".
O Copom ainda avaliou que riscos para a inflação, "que se já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram" após início da guerra. "Após debater alterações no balanço de riscos, o Comitê julgou apropriado seguir com serenidade e reunir mais informações ao longo do tempo, em função da incerteza elevada em relação à evolução de seus elementos", concluiu.









