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Voepass pressionava para não registrar falhas, diz PF

Investigação aponta pressão interna para omitir falhas e medo de demissão entre pilotos; Polícia Federal indiciou 16 pessoas por acidente que matou 62

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Vicklin Moraes
Foto: Divulgação/Voepass

Foto: Divulgação/Voepass

A Voepass pressionava para que falhas registradas durante os voos não fossem anotadas nos diários de bordo, para evitar a retirada das aeronaves de operação. Em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (6), o delegado André Almeida Azevedo Ribeiro afirmou que a empresa mantinha uma política interna para impedir esses registros. Segundo ele, pilotos deixavam de relatar problemas por medo de demissão.

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Ainda de acordo com o delegado, no dia anterior ao acidente, o comandante Edson Serra Martins identificou uma falha no sistema de degelo, mas não fez o registro no diário de bordo. A investigação também aponta que o diretor-presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho, recebia essas ocorrências de forma informal.

"A investigação demonstra claramente que ele [Edson] noticia, noticia, sim, só que verbalmente, aos técnicos de manutenção que recebem a aeronave. Ele notifica de forma verbal por conta da prática, da cultura. Inclusive, há elementos de prova de que havia pressão sobre os pilotos para que não reportassem no livro, a fim de não parar a aeronave. Então, ele reporta, cumpre ao menos o fato de passar essa informação. E os técnicos, que são apenas técnicos, levam isso ao mecânico, que, em razão de não estar no livro, se omite e não toma nenhuma providência", afirmou o delegado

A Polícia Federal indiciou 16 funcionários e ex-funcionários da Voepass pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, no caso da queda do avião ATR 72-500 em Vinhedo, no interior de São Paulo. O acidente, ocorrido em 9 de agosto de 2024, matou 62 pessoas.

O acidente

Voepass: acidente ocorreu no dia 9 de agosto de 2024 vitimando 62 pessoas | Reprodução
Voepass: acidente ocorreu no dia 9 de agosto de 2024 vitimando 62 pessoas | Reprodução

No dia 9 de agosto de 2024, o voo PTB-2283 decolou do Aeroporto Regional do Oeste, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Por volta das 13h22, a aeronave caiu sobre uma casa em Vinhedo, resultando na morte de todos a bordo.

Dois anos depois, na conclusão do laudo ao qual o SBT News teve acesso, a Polícia Federal afirmou que o avião entrou em uma área de formação intensa de gelo, enquanto o sistema de degelo apresentava falha. O acúmulo de gelo reduziu o desempenho da aeronave, provocando perda gradual de velocidade. Em seguida, o avião perdeu o controle, entrou em rotação e não conseguiu recuperar o voo antes de atingir o solo.

A análise também aponta que os procedimentos previstos nos manuais para essa situação não foram executados integralmente antes da perda de controle. O piloto Danilo Romano e o copiloto Humberto de Campos morreram na tragédia.

O laudo indica ainda que a falha no sistema de degelo da asa direita não começou no dia do acidente. Segundo os investigadores, o problema já havia sido registrado em voos anteriores, mas não foi anotado no diário de bordo pelas tripulações, o que impediu a retirada da aeronave de operação para manutenção.

A Polícia Federal afirma que isso representou “uma quebra direta das responsabilidades atribuídas às tripulações”.

O documento revela que, apenas no voo imediatamente anterior ao acidente, realizado pela mesma tripulação, o alerta de falha no sistema de degelo da asa direita foi acionado oito vezes.

Ao final desse voo, às 11h21, já em solo, o comandante comentou com o copiloto sobre o gelo acumulado na aeronave: “Ó lá o gelo, o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui. Foi o gelo que voou. (...) Chegamos vivos. (...) Ufa, chegamos vivos”. Mesmo assim, o avião voltou a decolar de Cascavel com destino a Guarulhos.

O que diz a Voepass

Em nota, a Voepass afirmou que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Segundo a companhia, os treinamentos de pilotos incluíam procedimentos para enfrentar condições de formação de gelo, como alterações de altitude e velocidade, conforme orientações do fabricante da aeronave e protocolos operacionais. As tripulações, de acordo com a empresa, eram orientadas a seguir rigorosamente essas diretrizes.

A empresa também afirmou que a tripulação do voo 2283 era formada por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, com mais de 5 mil horas de voo e com treinamentos, certificações e avaliações médicas em dia, sem registros que comprometessem sua aptidão.

A Voepass declarou ainda que colaborou integralmente com as autoridades desde o início das investigações, fornecendo documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Cenipa e à Polícia Federal. Ressaltou que o relatório da PF faz parte da fase investigatória e que aguardará os desdobramentos, podendo exercer seu direito de defesa.

Confira a nota na íntegra

A VOEPASS informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional.

Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional.

A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função.

Desde o início das investigações, a VOEPASS colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.

A VOEPASS reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários.

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