Entenda por que modelo de transição energética pode ser injusto com países subdesenvolvidos
Pauta sobre transição é um dos pontos centrais da COP30 e prevê a substituição gradual do sistema energético de combustíveis fósseis para energia limpa
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Murillo Otavio
11/11/2025, 15:43 • Atualizado em 11/11/2025, 17:38
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Antonio Guterres e o presidente Lula - Reprodução governo
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🔍A transição energética é a mudança gradual do sistema energético de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão mineral, por fontes limpas e renováveis, como energia solar, eólica e hidrelétrica. O objetivo é reduzir as emissões de gases de efeito estufa, que aceleram o aquecimento da Terra.
Para Daniel Caiche, professor do MBA em ESG e Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que está na Conferência cumprindo agenda profissional, há otimismo em relação à efetividade das discussões sobre a transição energética. No formato atual, os países mais ricos financiam os mais pobres. Ainda assim, o professor explica que há pontos que podem travar o avanço da pauta.
Exemplo disso é o argumento de que o modelo debatido na COP30 não é justo. Para nações subdesenvolvidas, os Estados Unidos e a China, os maiores poluentes de gases, enriqueceram e puderam melhorar serviços públicos, como saúde, segurança e educação, diferente deles. “É difícil falar de transição energética quando falta acesso a serviços básicos”, disse Daniel Caiche.
A seguir, veja os principais pontos que o professor Daniel Caiche falou com o SBT News.
O atual modelo para transição energética é injusto?
"Essa é uma ótima pergunta, eu acho que a gente vai falar muito sobre isso nos próximos dias. É difícil contra-argumentar ou não achar justo o argumento desses países subdesenvolvidos.
Os países desenvolvidos do Norte Global se desenvolveram a partir da queima de combustíveis fósseis. E agora que está na vez dos países subdesenvolvidos de enriquecer, eles não vão poder usar? Então, faz sentido.
O problema é que a gente tá vivendo uma emergência climática e a gente não pode mais continuar emitindo os gases de efeito estufa.
É difícil falar em transição energética enquanto tem pessoas passando fome, pessoas sem os direitos mínimos de saúde, de educação e isso se consegue a partir da geração de riqueza. Agora, acredito que há outras possibilidades de riqueza ao invés de reforçar o discurso do uso de combustíveis fósseis.
Por exemplo, há modelos como o fundo árabe que faz um grande projeto para recuperar áreas e pastagens degradadas, inclusive no Brasil."
📋 O Mubadala é um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, com sede em Abu Dhabi, que investe globalmente em diversos setores como tecnologia, energia renovável, aeroespacial e infraestrutura. Ele busca gerar retornos financeiros sustentáveis para o governo de Abu Dhabi e apoiar a diversificação da economia do país.
"Com o tempo, essas terras perderam a capacidade de produção. O fundo está adquirindo essas áreas para plantar macaúba, por exemplo, uma espécie, uma palmeira nativa do Brasil típico do Cerrado, e que tem um alto potencial de gerar óleo para biodiesel."
"Tanto os Estados Unidos como a China investem em energias limpas e possuem empresas e setores da sociedade civil que são comprometidos com a agenda climática. O governador da Califórnia, por exemplo, está em Belém. Têm empresas multinacionais norte-americanas que vão apresentar resultados de descarbonização também.
Então, não é que os Estados Unidos está fora. Oficialmente, o país não se posiciona, não assume a meta e realmente, então, isso é um impacto. Não podemos negar. Por isso, acredito que esse é o momento para os países pressionarem as lideranças chinesas e norte-americanas.
A China, por exemplo, faz um grande esforço para liderar a transição, por exemplo, de componentes e equipamentos para geração de energia solar. Ao mesmo tempo, estão ampliando a prospecção e o uso de combustível.
Então, ela consegue baratear o custo de produção dos equipamentos de geração de energia a partir da via solar. Isso já é uma parte da transição. Mas o ideal seria que ela tivesse se afastado dos combustíveis fósseis, mas ela não está fazendo isso.
Então, é uma contradição. Não é o melhor, mas mesmo assim, isso tem um impacto positivo. Então, não é de se negar, é muito importante que ela esteja fazendo isso. Por isso, acredito que há espaço para resultados positivos nas discussões sobre transição energética. Vejo com otimismo."
📋 O Ibama autorizou a Petrobras a realizar uma pesquisa exploratória de petróleo na região da Margem Equatorial, na Foz do Amazonas. A licença é exclusiva para a fase de pesquisa e não autoriza a produção. Essa permissão, concedida em outubro de 2025, visa avaliar a existência de petróleo na área antes que um novo processo de licenciamento seja iniciado, caso a pesquisa seja positiva.
Por outro lado, eu não acho que seja correto também abandonar a pesquisa sobre novos campos de exploração. Primeiro, o petróleo é um recurso muito importante para nossa sociedade.
Hoje, ele é muito utilizado para produção, por exemplo, de medicamentos, de pneu de avião. Então, tem alguns materiais que ele ainda é importante ser utilizado.
Então, a gente sabe que tem petróleo no Brasil, enquanto humanidade, é bom para o desenvolvimento do país. Acredito que faz sentido a Petrobras continuar pesquisando.
Agora, essa questão do licenciamento forçado do Ibama, por exemplo, tem relação com a política. E isso pode, também, dificultar a análise técnica.
O presidente Lula está sofrendo pressões dos governadores, dos prefeitos. Eles têm interesse nos royalties que o petróleo vai gerar para a sua cidade, para os seus estados, pensando no desenvolvimento que esse dinheiro vai trazer para aquela população."
Entenda por que modelo de transição energética pode ser injusto com países subdesenvolvidosPauta sobre transição é um dos pontos centrais da COP30 e prevê a substituição gradual do sistema energético de combustíveis fósseis para energia limpa Brasil2025-11-11T15:43:28.421ZA , realizada em Belém, no Pará, entra nesta terça-feira (11) no segundo dia de negociações para adaptação climática, sobretudo o plano para transição energética. 🔍A transição energética é a mudança gradual do sistema energético de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão mineral, por fontes limpas e renováveis, como energia solar, eólica e hidrelétrica. O objetivo é reduzir as emissões de gases de efeito estufa, que aceleram o aquecimento da Terra. Para Daniel Caiche, professor do MBA em ESG e Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que está na Conferência cumprindo agenda profissional, há otimismo em relação à efetividade das discussões sobre a transição energética. No formato atual, os países mais ricos financiam os mais pobres. Ainda assim, o professor explica que há pontos que podem travar o avanço da pauta. Exemplo disso é o argumento de que o modelo debatido na COP30 não é justo. Para nações subdesenvolvidas, os Estados Unidos e a China, os maiores poluentes de gases, enriqueceram e puderam melhorar serviços públicos, como saúde, segurança e educação, diferente deles. “É difícil falar de transição energética quando falta acesso a serviços básicos”, disse Daniel Caiche. Outro desafio é o cenário geopolítico. Os Estados Unidos, um dos principais atores globais na agenda climática, não enviaram representantes à COP30. Representantes de ambos também não conseguiram cumprir metas do Acordo de Paris, que visa conter o aquecimento global. A seguir, veja os principais pontos que o professor Daniel Caiche falou com o SBT News. O atual modelo para transição energética é injusto? "Essa é uma ótima pergunta, eu acho que a gente vai falar muito sobre isso nos próximos dias. É difícil contra-argumentar ou não achar justo o argumento desses países subdesenvolvidos. Os países desenvolvidos do Norte Global se desenvolveram a partir da queima de combustíveis fósseis. E agora que está na vez dos países subdesenvolvidos de enriquecer, eles não vão poder usar? Então, faz sentido. O problema é que a gente tá vivendo uma emergência climática e a gente não pode mais continuar emitindo os gases de efeito estufa. É difícil falar em transição energética enquanto tem pessoas passando fome, pessoas sem os direitos mínimos de saúde, de educação e isso se consegue a partir da geração de riqueza. Agora, acredito que há outras possibilidades de riqueza ao invés de reforçar o discurso do uso de combustíveis fósseis. Por exemplo, há modelos como o fundo árabe que faz um grande projeto para recuperar áreas e pastagens degradadas, inclusive no Brasil." 📋 O Mubadala é um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, com sede em Abu Dhabi, que investe globalmente em diversos setores como tecnologia, energia renovável, aeroespacial e infraestrutura. Ele busca gerar retornos financeiros sustentáveis para o governo de Abu Dhabi e apoiar a diversificação da economia do país. "Com o tempo, essas terras perderam a capacidade de produção. O fundo está adquirindo essas áreas para plantar macaúba, por exemplo, uma espécie, uma palmeira nativa do Brasil típico do Cerrado, e que tem um alto potencial de gerar óleo para biodiesel." Leia mais sobre a COP30: Qual o impacto da ausência dos EUA na COP30? "Tanto os Estados Unidos como a China investem em energias limpas e possuem empresas e setores da sociedade civil que são comprometidos com a agenda climática. O governador da Califórnia, por exemplo, está em Belém. Têm empresas multinacionais norte-americanas que vão apresentar resultados de descarbonização também. Então, não é que os Estados Unidos está fora. Oficialmente, o país não se posiciona, não assume a meta e realmente, então, isso é um impacto. Não podemos negar. Por isso, acredito que esse é o momento para os países pressionarem as lideranças chinesas e norte-americanas. A China, por exemplo, faz um grande esforço para liderar a transição, por exemplo, de componentes e equipamentos para geração de energia solar. Ao mesmo tempo, estão ampliando a prospecção e o uso de combustível. Então, ela consegue baratear o custo de produção dos equipamentos de geração de energia a partir da via solar. Isso já é uma parte da transição. Mas o ideal seria que ela tivesse se afastado dos combustíveis fósseis, mas ela não está fazendo isso. Então, é uma contradição. Não é o melhor, mas mesmo assim, isso tem um impacto positivo. Então, não é de se negar, é muito importante que ela esteja fazendo isso. Por isso, acredito que há espaço para resultados positivos nas discussões sobre transição energética. Vejo com otimismo." Leia mais sobre a COP30: Há alguma contradição do governo em relação a transição e a pesquisa na Foz do Amazonas? " Ao mesmo tempo que o país tem feito esforços para reduzir suas emissões de gás de efeito estufa, tem apresentado bons resultados, ele continua mapeando o mercado de petróleo." 📋 O Ibama autorizou a Petrobras a realizar uma pesquisa exploratória de petróleo na região da Margem Equatorial, na Foz do Amazonas. A licença é exclusiva para a fase de pesquisa e não autoriza a produção. Essa permissão, concedida em outubro de 2025, visa avaliar a existência de petróleo na área antes que um novo processo de licenciamento seja iniciado, caso a pesquisa seja positiva. Por outro lado, eu não acho que seja correto também abandonar a pesquisa sobre novos campos de exploração. Primeiro, o petróleo é um recurso muito importante para nossa sociedade. Hoje, ele é muito utilizado para produção, por exemplo, de medicamentos, de pneu de avião. Então, tem alguns materiais que ele ainda é importante ser utilizado. Então, a gente sabe que tem petróleo no Brasil, enquanto humanidade, é bom para o desenvolvimento do país. Acredito que faz sentido a Petrobras continuar pesquisando. Agora, essa questão do licenciamento forçado do Ibama, por exemplo, tem relação com a política. E isso pode, também, dificultar a análise técnica. O presidente Lula está sofrendo pressões dos governadores, dos prefeitos. Eles têm interesse nos royalties que o petróleo vai gerar para a sua cidade, para os seus estados, pensando no desenvolvimento que esse dinheiro vai trazer para aquela população."São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/brasil/entenda-por-que-modelo-de-transicao-energetica-pode-ser-injusto-com-paises-subdesenvolvidos
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