Brasil

Brasileiros apoiam diálogo com filhos mas admitem violência

91% defendem conversa na educação, mas 62% admitem já ter gritado com uma criança e 49% reconhecem já ter dado tapas, mostra pesquisa Quaest/Infinis

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Isabelle Saleme
14/07/2026, 16:00 • Atualizado em 14/07/2026, 16:00
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Felipe Nunes, CEO da Quaest, e Márcia Kalvon, diretora-executiva do Infinis

Felipe Nunes, CEO da Quaest, e Márcia Kalvon, diretora-executiva do Infinis

Embora a maioria dos brasileiros (91%) defenda o diálogo na educação dos filhos, 62% admitem já ter gritado com uma criança, metade (49%) reconhece já ter dado tapas e 27% afirmam já ter usado objetos para bater. É o que revela a segunda edição do levantamento "Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes", realizado pelo Infinis (Instituto Futuro é Infância Saudável) em parceria com a Quaest. Ou seja, o estudo indica que, apesar do discurso em favor do diálogo e da não violência como forma de educar, muitas vezes isso não ocorre na prática nos lares brasileiros.

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“No ideal a concepção é clara: a gente não deve xingar, ofender e bater. Mas na prática, no entanto, é aceitável agir assim. O que chama a atenção é a comparação do que a gente diz que deve fazer e o que a gente faz de fato. Isso reflete uma dificuldade de romper com práticas historicamente naturalizadas”, explica Felipe Nunes, CEO da Quaest.

A pesquisa, divulgada nesta terça-feira (14), também mostrou que, embora a grande maioria da população defenda a conversa com as crianças para explicar erros e educar, o castigo é considerado a forma ideal de correção por quase metade dos brasileiros, enquanto mais de um terço considera aceitável gritar ou ameaçar bater em crianças. Segundo os pesquisadores, isso indica a repetição de comportamentos de gerações anteriores. Entre os entrevistados, 65% sofreram agressões físicas durante a infância.

Os dados foram coletados entre 29 de maio e 7 de junho deste ano. O levantamento ouviu 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais em 128 municípios.

Os números mostram, ainda, que não houve avanços significativos nessa percepção desde 2023, quando a primeira edição do levantamento foi divulgada. Na pesquisa anterior, 93% da população também defendiam o diálogo, mas 66% admitiam já ter gritado com uma criança, 52% já haviam dado tapas e 38% reconheciam ter usado objetos para bater.

Os novos dados mostram, ainda, que 74% dos brasileiros acreditam que a violência contra crianças e adolescentes aumentou nos últimos anos.

Além disso, a pesquisa mostra que 62% dos brasileiros afirmam que não interfeririam caso presenciassem uma criança recebendo palmadas ou puxões de orelha em um espaço público, reforçando a naturalização da violência identificada na edição anterior do levantamento.

“Ainda que tenhamos avançado em legislação e na conscientização sobre os direitos das crianças, a pesquisa mostra que ainda existe uma lacuna significativa entre aquilo que os brasileiros consideram correto e aquilo que acontece na prática. Compreender essas percepções é fundamental para romper o ciclo intergeracional de violência e orientar políticas públicas de prevenção", afirma Márcia Kalvon, diretora-executiva do Infinis.

Trabalho infantil e direitos e proteção às crianças

A pesquisa investigou, também, como os brasileiros compreendem o direitos da infância e da adolescência. Ao mesmo tempo em que a educação é vista como prioridade por 93% dos entrevistados, 61% aceitam o trabalho infantil para evitar que crianças permaneçam nas ruas. Entre os adolescentes, o trabalho é considerado aceitável por 88% das pessoas ouvidas.

Por fim, a pesquisa revela que 71% dos brasileiros não conseguem citar nenhuma lei de proteção à infância.

“Cada criança protegida hoje representa menos violência amanhã”, finaliza Kalvon.

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