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Alto custo de obras põe 125 mil moradias do MCMV em risco

Estudo entregue ao Ministério das Cidades aponta defasagem entre repasses do programa e gastos das construtoras no Norte e Nordeste

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Jessica Cardoso
02/06/2026, 19:51 • Atualizado em 02/06/2026, 19:51
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Unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida em Maceió (AL) | Ricardo Stuckert/PR

Unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida em Maceió (AL) | Ricardo Stuckert/PR

O aumento dos custos da construção civil tem colocado em risco a continuidade de mais de 125 mil unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) nas regiões Norte e Nordeste.

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O alerta consta em um estudo elaborado pelo Fórum Norte e Nordeste da Indústria da Construção (FNNIC) em parceria com a BCB Inteligência. O levantamento, encaminhado ao Ministério das Cidades, aponta uma crescente defasagem entre os valores pagos pelo governo federal às construtoras e o custo real para erguer os empreendimentos.

Segundo o levantamento, 125.763 moradias atualmente em execução nas duas regiões estão ameaçadas de atrasos ou paralisação. Juntas, essas obras representam R$ 14,53 bilhões em investimentos já contratados.

O problema, de acordo com o documento, é que os contratos foram firmados com valores que deixaram de refletir a realidade do mercado diante da alta dos insumos da construção civil.

Os estados mais impactados seriam Pará, Maranhão e Bahia, que concentram parte significativa das unidades em andamento. Dados da base da Caixa Econômica Federal mostram que o Maranhão possui cerca de 21,3 mil moradias em execução, o Pará reúne aproximadamente 27,3 mil e a Bahia, mais de 18,2 mil.

Inflação dos materiais pressiona obras

O estudo atribui a crise principalmente à escalada dos preços dos materiais básicos utilizados na construção de moradias populares.

Uma pesquisa realizada pela consultoria BCB Inteligência, a partir de notas fiscais de obras em andamento entre 2023 e 2026, identificou aumentos expressivos em diversos insumos.

Entre os principais reajustes registrados estão:

  • cabo de cobre (2,5 mm²): alta de 64%;
  • tela soldada Q-92: aumento de 54,1%;
  • tubos e conexões de PVC para esgoto: avanço de 33,2%;
  • eletroduto flexível: alta de 22,9%;
  • tijolo cerâmico: aumento de 21,2%;
  • aço CA-50: alta de 20,4%;
  • cimento Portland: aumento de 17%.

O cenário se agravou entre março e abril de 2026, quando fabricantes nacionais anunciaram novos reajustes em produtos como cimento, concreto, argamassas e materiais de PVC, provocando o que o documento classifica como um "choque sistêmico e estrutural" nos custos das construtoras.

Reajustes do governo x inflação do setor

Enquanto os custos de produção avançaram em ritmo acelerado, os valores máximos pagos pelo governo tiveram correções consideradas insuficientes pelo setor, segundo o estudo.

O documento afirma que Ministério das Cidades reajustou em 3,53% os tetos do programa para os grandes municípios do Nordeste. No mesmo período, porém, o Custo Unitário Básico (CUB), indicador que mede o custo real das obras, acumulou alta de 14,28% na região Nordeste e de 35,95% na região Norte.

O documento aponta que a situação é ainda mais delicada na Amazônia Legal, onde fatores como grandes distâncias, dependência de transporte hidroviário, fretes elevados e períodos prolongados de chuva aumentam significativamente o custo das construções.

Em alguns estados amazônicos, o frete pode representar entre 15% e 25% do valor dos materiais adquiridos.

Margens praticamente desapareceram

Segundo a análise, a disparidade entre os custos de construção e os valores repassados pelo programa tem reduzido o espaço financeiro das obras, dificultando o pagamento de despesas obrigatórias e comprometendo a continuidade dos empreendimentos.

No Nordeste, a margem residual para cobrir despesas caiu de R$ 41,1 mil por unidade habitacional em junho de 2023 para R$ 28,7 mil em fevereiro de 2026, uma redução de 30,2%.

Já na região Norte a situação é considerada mais grave: a margem chegou a ficar negativa entre dezembro de 2024 e abril de 2025 e, mesmo após reajustes promovidos pelo governo, permaneceu em apenas R$ 1,6 mil por moradia em fevereiro deste ano.

O estudo projeta que, sem novas correções nos contratos, a margem das obras do Norte se esgotaria completamente em maio de 2026, tornando inviável a continuidade dos empreendimentos.

O que pode acontecer sem reajuste

O levantamento alerta que a falta de reequilíbrio financeiro pode gerar uma série de impactos para o programa habitacional e para as famílias beneficiárias.

Entre os principais riscos apontados estão:

  • paralisação de aproximadamente 125,7 mil moradias em andamento;
  • atraso na entrega das casas para milhares de famílias;
  • perda de empregos diretos e indiretos na construção civil;
  • judicialização dos contratos;
  • redução da capacidade das construtoras de participar de novos projetos;
  • queda na arrecadação de municípios que dependem da atividade da construção civil;
  • ampliação do déficit habitacional nas regiões Norte e Nordeste.

Proposta prevê aporte de R$ 2,57 bilhões

Como solução, o FNNIC propõe a criação de um novo mecanismo de atualização dos contratos, denominado Índice de Reajuste MCMV FAR (IR-FAR).

A fórmula sugerida combina três indicadores:

  • 50% do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-DI);
  • 30% do Custo Unitário Básico (CUB) regional;
  • 20% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Com base nesse cálculo, o setor defende a atualização imediata dos valores máximos do programa. Nos municípios nordestinos com mais de 100 mil habitantes, o teto passaria dos atuais R$ 176 mil para R$ 196,6 mil por unidade. Já no Norte, subiria de R$ 193,6 mil para R$ 228,4 mil.

O custo estimado para recompor os contratos em andamento seria de aproximadamente R$ 2,57 bilhões. Segundo o estudo, esse valor permitiria preservar R$ 14,53 bilhões já investidos nas obras. A entidade argumenta que, na prática, cada R$ 1 aplicado no reequilíbrio financeiro evitaria a perda de cerca de R$ 5,67 em investimentos habitacionais e garantiria a entrega das mais de 125 mil moradias atualmente em execução.

O outro lado

O SBT News procurou o Ministério das Cidades para saber se o governo pretende adotar medidas diante do cenário apontado pelo estudo. Por meio de sua assessoria, o ministério disse que deve responder até quarta-feira (3). O texto será atualizado quando houver manifestação do órgão.

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