Alto custo de obras põe 125 mil moradias do MCMV em risco
Estudo entregue ao Ministério das Cidades aponta defasagem entre repasses do programa e gastos das construtoras no Norte e Nordeste


Unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida em Maceió (AL) | Ricardo Stuckert/PR
O aumento dos custos da construção civil tem colocado em risco a continuidade de mais de 125 mil unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) nas regiões Norte e Nordeste.
O alerta consta em um estudo elaborado pelo Fórum Norte e Nordeste da Indústria da Construção (FNNIC) em parceria com a BCB Inteligência. O levantamento, encaminhado ao Ministério das Cidades, aponta uma crescente defasagem entre os valores pagos pelo governo federal às construtoras e o custo real para erguer os empreendimentos.
Segundo o levantamento, 125.763 moradias atualmente em execução nas duas regiões estão ameaçadas de atrasos ou paralisação. Juntas, essas obras representam R$ 14,53 bilhões em investimentos já contratados.
O problema, de acordo com o documento, é que os contratos foram firmados com valores que deixaram de refletir a realidade do mercado diante da alta dos insumos da construção civil.
Os estados mais impactados seriam Pará, Maranhão e Bahia, que concentram parte significativa das unidades em andamento. Dados da base da Caixa Econômica Federal mostram que o Maranhão possui cerca de 21,3 mil moradias em execução, o Pará reúne aproximadamente 27,3 mil e a Bahia, mais de 18,2 mil.
Inflação dos materiais pressiona obras
O estudo atribui a crise principalmente à escalada dos preços dos materiais básicos utilizados na construção de moradias populares.
Uma pesquisa realizada pela consultoria BCB Inteligência, a partir de notas fiscais de obras em andamento entre 2023 e 2026, identificou aumentos expressivos em diversos insumos.
Entre os principais reajustes registrados estão:
- cabo de cobre (2,5 mm²): alta de 64%;
- tela soldada Q-92: aumento de 54,1%;
- tubos e conexões de PVC para esgoto: avanço de 33,2%;
- eletroduto flexível: alta de 22,9%;
- tijolo cerâmico: aumento de 21,2%;
- aço CA-50: alta de 20,4%;
- cimento Portland: aumento de 17%.
O cenário se agravou entre março e abril de 2026, quando fabricantes nacionais anunciaram novos reajustes em produtos como cimento, concreto, argamassas e materiais de PVC, provocando o que o documento classifica como um "choque sistêmico e estrutural" nos custos das construtoras.
Reajustes do governo x inflação do setor
Enquanto os custos de produção avançaram em ritmo acelerado, os valores máximos pagos pelo governo tiveram correções consideradas insuficientes pelo setor, segundo o estudo.
O documento afirma que Ministério das Cidades reajustou em 3,53% os tetos do programa para os grandes municípios do Nordeste. No mesmo período, porém, o Custo Unitário Básico (CUB), indicador que mede o custo real das obras, acumulou alta de 14,28% na região Nordeste e de 35,95% na região Norte.
O documento aponta que a situação é ainda mais delicada na Amazônia Legal, onde fatores como grandes distâncias, dependência de transporte hidroviário, fretes elevados e períodos prolongados de chuva aumentam significativamente o custo das construções.
Em alguns estados amazônicos, o frete pode representar entre 15% e 25% do valor dos materiais adquiridos.
Margens praticamente desapareceram
Segundo a análise, a disparidade entre os custos de construção e os valores repassados pelo programa tem reduzido o espaço financeiro das obras, dificultando o pagamento de despesas obrigatórias e comprometendo a continuidade dos empreendimentos.
No Nordeste, a margem residual para cobrir despesas caiu de R$ 41,1 mil por unidade habitacional em junho de 2023 para R$ 28,7 mil em fevereiro de 2026, uma redução de 30,2%.
Já na região Norte a situação é considerada mais grave: a margem chegou a ficar negativa entre dezembro de 2024 e abril de 2025 e, mesmo após reajustes promovidos pelo governo, permaneceu em apenas R$ 1,6 mil por moradia em fevereiro deste ano.
O estudo projeta que, sem novas correções nos contratos, a margem das obras do Norte se esgotaria completamente em maio de 2026, tornando inviável a continuidade dos empreendimentos.
O que pode acontecer sem reajuste
O levantamento alerta que a falta de reequilíbrio financeiro pode gerar uma série de impactos para o programa habitacional e para as famílias beneficiárias.
Entre os principais riscos apontados estão:
- paralisação de aproximadamente 125,7 mil moradias em andamento;
- atraso na entrega das casas para milhares de famílias;
- perda de empregos diretos e indiretos na construção civil;
- judicialização dos contratos;
- redução da capacidade das construtoras de participar de novos projetos;
- queda na arrecadação de municípios que dependem da atividade da construção civil;
- ampliação do déficit habitacional nas regiões Norte e Nordeste.
Proposta prevê aporte de R$ 2,57 bilhões
Como solução, o FNNIC propõe a criação de um novo mecanismo de atualização dos contratos, denominado Índice de Reajuste MCMV FAR (IR-FAR).
A fórmula sugerida combina três indicadores:
- 50% do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-DI);
- 30% do Custo Unitário Básico (CUB) regional;
- 20% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Com base nesse cálculo, o setor defende a atualização imediata dos valores máximos do programa. Nos municípios nordestinos com mais de 100 mil habitantes, o teto passaria dos atuais R$ 176 mil para R$ 196,6 mil por unidade. Já no Norte, subiria de R$ 193,6 mil para R$ 228,4 mil.
O custo estimado para recompor os contratos em andamento seria de aproximadamente R$ 2,57 bilhões. Segundo o estudo, esse valor permitiria preservar R$ 14,53 bilhões já investidos nas obras. A entidade argumenta que, na prática, cada R$ 1 aplicado no reequilíbrio financeiro evitaria a perda de cerca de R$ 5,67 em investimentos habitacionais e garantiria a entrega das mais de 125 mil moradias atualmente em execução.
O outro lado
O SBT News procurou o Ministério das Cidades para saber se o governo pretende adotar medidas diante do cenário apontado pelo estudo. Por meio de sua assessoria, o ministério disse que deve responder até quarta-feira (3). O texto será atualizado quando houver manifestação do órgão.















