Economia

A geração "nem-nem" está mudando no Brasil?

Mais brasileiros conciliam trabalho e estudo e indicam nova dinâmica profissional em meio às transformações no mercado de trabalho

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João Kepler
03/07/2026, 11:19 • Atualizado em 03/07/2026, 11:19
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Mais brasileiros conciliam trabalho e estudo para ampliar a qualificação e aumentar as oportunidades no mercado | Reprodução/Magnific

Mais brasileiros conciliam trabalho e estudo para ampliar a qualificação e aumentar as oportunidades no mercado | Reprodução/Magnific

O cenário educacional e profissional do Brasil passa por uma transformação significativa, que desafia antigos estereótipos sobre a juventude e o trabalho. Durante muitos anos, a expressão "nem-nem" foi utilizada para classificar jovens que não estudavam nem trabalhavam, frequentemente associada à ideia de desinteresse ou falta de perspectiva. Os dados mais recentes mostram uma realidade mais complexa e indicam que parte significativa da população brasileira está ampliando seus esforços para conciliar emprego, qualificação e adaptação às novas exigências da economia.

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Levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) revela que a proporção de brasileiros ocupados que também frequentam instituições de ensino passou de 13,1% em 2019 para 15,1% em 2025. Na prática, isso representa um crescimento de aproximadamente 27% no número de pessoas que acumulam a dupla jornada de trabalho e estudo, alcançando um contingente de 15,5 milhões de brasileiros.

O avanço é significativamente superior ao crescimento de 8% observado entre aqueles que optaram exclusivamente pelo trabalho no mesmo período. O movimento sugere uma mudança cultural importante. Cada vez mais profissionais compreendem que a permanência no mercado depende da atualização constante de competências, especialmente diante da digitalização dos negócios, da automação e da incorporação acelerada da inteligência artificial em diversas atividades econômicas.

Mais do que uma busca por diplomas, o fenômeno revela uma corrida por empregabilidade. Em um ambiente econômico marcado por transformações rápidas, estudar deixou de representar apenas ascensão social e passou a funcionar como mecanismo de sobrevivência profissional, manutenção de renda e ampliação das oportunidades futuras.

Boa parte dessa mudança foi impulsionada pela expansão do Ensino a Distância (EaD). A modalidade ampliou o acesso ao ensino superior ao reduzir custos, eliminar deslocamentos e permitir maior flexibilidade de horários. Para milhões de trabalhadores, especialmente aqueles que conciliam emprego, família e outras responsabilidades, o modelo remoto tornou possível retomar projetos educacionais que antes eram inviáveis dentro da rotina tradicional.

Especialistas, contudo, alertam que o crescimento quantitativo das matrículas precisa ser acompanhado por avanços na qualidade da formação. Persistem debates sobre a efetividade de determinados cursos, os índices de evasão e a conexão entre o conteúdo acadêmico e as demandas reais do mercado. Atualmente, a média de escolaridade dos brasileiros com 25 anos ou mais é de 10,2 anos, ainda distante dos aproximadamente 13 anos observados em países desenvolvidos, o que evidencia os desafios estruturais para elevar a produtividade nacional.

Quando o recorte é direcionado à juventude entre 14 e 24 anos, o Diagnóstico da Juventude Brasileira, elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mostra um cenário igualmente desafiador. O levantamento aponta que 12,8 milhões de jovens dedicam-se exclusivamente aos estudos, enquanto 9,6 milhões trabalham sem frequentar instituições de ensino.

Ao mesmo tempo, 4,3 milhões conseguem conciliar emprego e qualificação, formando um grupo que cresce e representa uma nova geração mais pragmática e adaptada às exigências contemporâneas. Em contraste, 6,2 milhões ainda permanecem na condição de "nem-nem", número que continua elevado e reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à inclusão produtiva, à permanência escolar e à capacitação profissional.

A realidade dos chamados "nem-nem", porém, não é homogênea e exige uma análise mais cuidadosa. Embora a maior parte dessa população seja formada por jovens de baixa renda que enfrentam limitações estruturais, falta de oportunidades e dificuldades de inserção no mercado de trabalho, existe uma parcela situada nas camadas mais altas da renda cuja condição decorre de uma escolha temporária viabilizada pelo suporte financeiro familiar.

Nesse grupo, o afastamento dos estudos e do trabalho formal pode estar associado a períodos sabáticos, viagens internacionais, dedicação a projetos pessoais, empreendedorismo ainda não remunerado ou à espera por oportunidades profissionais alinhadas às suas expectativas de carreira e remuneração.

Enquanto na base da pirâmide o fenômeno representa vulnerabilidade e escassez de alternativas, no topo ele pode refletir uma condição de privilégio, planejamento e liberdade de escolha. Essa distinção ajuda a compreender que o termo "nem-nem" reúne realidades econômicas e sociais profundamente diferentes e, por isso, demanda políticas públicas e análises menos generalistas.

Parte desse contingente, entretanto, também não corresponde ao estereótipo tradicional frequentemente associado ao termo. Muitos jovens enfrentam responsabilidades familiares, dificuldades de mobilidade, problemas de saúde mental ou vivem em regiões onde as oportunidades de emprego e formação profissional são escassas. Em muitos casos, a condição de "nem-nem" não representa uma escolha individual, mas o resultado de fatores econômicos, sociais e territoriais que limitam o acesso a oportunidades concretas de desenvolvimento.

Para micro e pequenas empresas, essa mudança também cria oportunidades estratégicas. Investir em programas de capacitação, horários flexíveis, bolsas educacionais e desenvolvimento contínuo pode ajudar a atrair e reter jovens mais protagonistas, que conciliam trabalho e estudo e demonstram maior disposição para o aprendizado permanente. Em uma economia baseada cada vez mais no conhecimento, empresas que estimulam a qualificação contínua fortalecem sua competitividade e reduzem os riscos associados à escassez de mão de obra especializada.

Os números mostram que o desafio da juventude brasileira permanece grande, mas também revelam uma mudança importante de comportamento. A imagem de uma geração desinteressada dá lugar a uma realidade mais diversa, dinâmica e orientada pela busca de oportunidades, na qual milhões de brasileiros trabalham, estudam e investem no próprio desenvolvimento como estratégia para construir um futuro profissional em um mercado cada vez mais exigente, tecnológico e em constante transformação.

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