Economia

A geração "nem-nem" está mudando no Brasil?

Mais brasileiros conciliam trabalho e estudo e indicam nova dinâmica profissional em meio às transformações no mercado de trabalho

Avatar de João Kepler
João Kepler
Mais brasileiros conciliam trabalho e estudo para ampliar a qualificação e aumentar as oportunidades no mercado | Reprodução/Magnific

Mais brasileiros conciliam trabalho e estudo para ampliar a qualificação e aumentar as oportunidades no mercado | Reprodução/Magnific

O cenário educacional e profissional do Brasil passa por uma transformação significativa, que desafia antigos estereótipos sobre a juventude e o trabalho. Durante muitos anos, a expressão "nem-nem" foi utilizada para classificar jovens que não estudavam nem trabalhavam, frequentemente associada à ideia de desinteresse ou falta de perspectiva. Os dados mais recentes mostram uma realidade mais complexa e indicam que parte significativa da população brasileira está ampliando seus esforços para conciliar emprego, qualificação e adaptação às novas exigências da economia.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.

Siga no Google Discover

Levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) revela que a proporção de brasileiros ocupados que também frequentam instituições de ensino passou de 13,1% em 2019 para 15,1% em 2025. Na prática, isso representa um crescimento de aproximadamente 27% no número de pessoas que acumulam a dupla jornada de trabalho e estudo, alcançando um contingente de 15,5 milhões de brasileiros.

O avanço é significativamente superior ao crescimento de 8% observado entre aqueles que optaram exclusivamente pelo trabalho no mesmo período. O movimento sugere uma mudança cultural importante. Cada vez mais profissionais compreendem que a permanência no mercado depende da atualização constante de competências, especialmente diante da digitalização dos negócios, da automação e da incorporação acelerada da inteligência artificial em diversas atividades econômicas.

Mais do que uma busca por diplomas, o fenômeno revela uma corrida por empregabilidade. Em um ambiente econômico marcado por transformações rápidas, estudar deixou de representar apenas ascensão social e passou a funcionar como mecanismo de sobrevivência profissional, manutenção de renda e ampliação das oportunidades futuras.

Boa parte dessa mudança foi impulsionada pela expansão do Ensino a Distância (EaD). A modalidade ampliou o acesso ao ensino superior ao reduzir custos, eliminar deslocamentos e permitir maior flexibilidade de horários. Para milhões de trabalhadores, especialmente aqueles que conciliam emprego, família e outras responsabilidades, o modelo remoto tornou possível retomar projetos educacionais que antes eram inviáveis dentro da rotina tradicional.

Especialistas, contudo, alertam que o crescimento quantitativo das matrículas precisa ser acompanhado por avanços na qualidade da formação. Persistem debates sobre a efetividade de determinados cursos, os índices de evasão e a conexão entre o conteúdo acadêmico e as demandas reais do mercado. Atualmente, a média de escolaridade dos brasileiros com 25 anos ou mais é de 10,2 anos, ainda distante dos aproximadamente 13 anos observados em países desenvolvidos, o que evidencia os desafios estruturais para elevar a produtividade nacional.

Quando o recorte é direcionado à juventude entre 14 e 24 anos, o Diagnóstico da Juventude Brasileira, elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mostra um cenário igualmente desafiador. O levantamento aponta que 12,8 milhões de jovens dedicam-se exclusivamente aos estudos, enquanto 9,6 milhões trabalham sem frequentar instituições de ensino.

Ao mesmo tempo, 4,3 milhões conseguem conciliar emprego e qualificação, formando um grupo que cresce e representa uma nova geração mais pragmática e adaptada às exigências contemporâneas. Em contraste, 6,2 milhões ainda permanecem na condição de "nem-nem", número que continua elevado e reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à inclusão produtiva, à permanência escolar e à capacitação profissional.

A realidade dos chamados "nem-nem", porém, não é homogênea e exige uma análise mais cuidadosa. Embora a maior parte dessa população seja formada por jovens de baixa renda que enfrentam limitações estruturais, falta de oportunidades e dificuldades de inserção no mercado de trabalho, existe uma parcela situada nas camadas mais altas da renda cuja condição decorre de uma escolha temporária viabilizada pelo suporte financeiro familiar.

Nesse grupo, o afastamento dos estudos e do trabalho formal pode estar associado a períodos sabáticos, viagens internacionais, dedicação a projetos pessoais, empreendedorismo ainda não remunerado ou à espera por oportunidades profissionais alinhadas às suas expectativas de carreira e remuneração.

Enquanto na base da pirâmide o fenômeno representa vulnerabilidade e escassez de alternativas, no topo ele pode refletir uma condição de privilégio, planejamento e liberdade de escolha. Essa distinção ajuda a compreender que o termo "nem-nem" reúne realidades econômicas e sociais profundamente diferentes e, por isso, demanda políticas públicas e análises menos generalistas.

Parte desse contingente, entretanto, também não corresponde ao estereótipo tradicional frequentemente associado ao termo. Muitos jovens enfrentam responsabilidades familiares, dificuldades de mobilidade, problemas de saúde mental ou vivem em regiões onde as oportunidades de emprego e formação profissional são escassas. Em muitos casos, a condição de "nem-nem" não representa uma escolha individual, mas o resultado de fatores econômicos, sociais e territoriais que limitam o acesso a oportunidades concretas de desenvolvimento.

Para micro e pequenas empresas, essa mudança também cria oportunidades estratégicas. Investir em programas de capacitação, horários flexíveis, bolsas educacionais e desenvolvimento contínuo pode ajudar a atrair e reter jovens mais protagonistas, que conciliam trabalho e estudo e demonstram maior disposição para o aprendizado permanente. Em uma economia baseada cada vez mais no conhecimento, empresas que estimulam a qualificação contínua fortalecem sua competitividade e reduzem os riscos associados à escassez de mão de obra especializada.

Os números mostram que o desafio da juventude brasileira permanece grande, mas também revelam uma mudança importante de comportamento. A imagem de uma geração desinteressada dá lugar a uma realidade mais diversa, dinâmica e orientada pela busca de oportunidades, na qual milhões de brasileiros trabalham, estudam e investem no próprio desenvolvimento como estratégia para construir um futuro profissional em um mercado cada vez mais exigente, tecnológico e em constante transformação.

Pense nisso!

Mais da Nova Economia

Economia
há 1 dia

O estresse simultâneo que pressiona o varejo brasileiro

Juros altos, famílias endividadas e crédito mais difícil ajudam a explicar por que tantas empresas do setor estão enfrentando problemas

Economia
há 2 dias

O bolso pode decidir a eleição de 2026

Pesquisas mostram perda de poder de compra e ajudam a explicar por que a disputa presidencial continua aberta

Economia
há 3 dias

Varejo acumula meses de queda no consumo

Indicadores mostram retração real em importantes segmentos e revelam uma mudança no destino do dinheiro dos brasileiros

Economia
há 6 dias

Eleições 2026: o que candidatos propõem às pequenas empresas

Crédito, impostos, inteligência artificial e privatizações: veja o que os presidenciáveis estão propondo para quem empreende e mantém empresa no Brasil

Economia
há 9 dias

Tecnologia vira requisito para pequenas empresas

Pesquisa mostra que digitalização básica já está consolidada entre os pequenos negócios. Desafio é transformar tecnologia em produtividade e competitividade

Economia
há 10 dias

Endividamento das famílias bate novo recorde

Comprometimento da renda continua avançando e pressiona o consumo

Economia
há 15 dias

Pequenos negócios criam quase 6 em cada 10 empregos no país

Segmento responde por quase 60% das vagas formais criadas no semestre, mas custo do crédito, burocracia e baixa produtividade seguem como obstáculos

Economia
há 17 dias

Tigrinho e bets entram nas empresas e afetam produtividade

Levantamento aponta que apostas online já prejudicam o desempenho durante o trabalho, enquanto cresce o número de afastamentos relacionados ao vício

Economia
há 21 dias

Brasileiro não deixou de consumir, mudou a forma de gastar

Pesquisa mostra queda no volume de vendas em 70% das categorias de bens de consumo e revela como inflação e endividamento mudaram as escolhas das famílias

Economia
há 21 dias

Cesta básica já consome mais da metade do salário

Alta dos alimentos mantém pressão sobre o orçamento das famílias; valor médio da cesta chega a R$ 779,95 nas capitais brasileiras

Economia
há 22 dias

Sucessão em empresas familiares desafia os negócios

Diferenças de visão entre fundadores e sucessores dificultam transição de comando; especialistas sugerem governança e planejamento para preservar o legado

Economia
há 22 dias

Intenção de consumo das famílias tem maior nível desde 2015

Pesquisa mostra recuperação da disposição para consumir, enquanto consumidores seguem preocupados com emprego, renda e juros elevados

Economia
há 24 dias

Brasileiros empreendem mais, mas informalidade é desafio

Tecnologia e autonomia impulsionam o empreendedorismo, enquanto milhões de brasileiros ainda atuam sem CNPJ e proteção previdenciária

Economia
há 28 dias

IA está pronta para trabalhar nas pequenas e médias empresas

Empresas já estão utilizando uma plataforma de produtividade capaz de executar tarefas, acessar documentos e aumentar a eficiência

Economia
14/07/2026

Split Payment exigirá nova gestão financeira das PMEs

A Reforma Tributária promete simplificar o recolhimento dos impostos e reduzir burocracias, mas também elimina importante fôlego de caixa de empresas

Últimas notícias de Economia

Economiahá 2 horas

Empresários estão menos interessados em investir, aponta CNI

Segundo a confederação, o índice que mede o interesse em investimentos por parte do setor industrial atingiu 52,6 pontos, o pior patamar de 2026

Economiahá 2 horas

Enel SP entrega alegações finais em processo de caducidade

Distribuidora da Grande SP pede arquivamento do processo, volta a insistir em perícia independente e contesta critérios usados pela Aneel

Economiahá 3 horas

Governo negocia, mas evita reciprocidade, diz ministro

Márcio Elias afirma ao SBT News que Brasil busca ampliar lista de exceções e só adotará medidas de retaliação se forem imprescindíveis

Economiahá 6 horas

Casas Bahia faz leilão de eletrônicos e eletrodomésticos

Evento ocorre pela internet, enquanto varejista busca reorganizar dívida estimada em R$ 17,3 bilhões

Economiahá 6 horas

Durigan promete esforço fiscal em eventual novo governo Lula

Ministro da Fazenda defendeu a continuidade do arcabouço fiscal e o controle dos gastos obrigatórios