95% dos brasileiros vivem sob estresse financeiro
Pesquisa mostra que dinheiro afeta sono, saúde mental e relacionamentos; especialistas defendem educação financeira e prevenção ao superendividamento


Pesquisa mostra que o estresse financeiro afeta o sono, a saúde mental e os relacionamentos dos brasileiros | Reprodução/Magnific
O dinheiro deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a ocupar um espaço central na saúde mental e na qualidade de vida dos brasileiros. Uma recente pesquisa da Anbima, em parceria com o Datafolha, revela que 47% da população convive com alto estresse financeiro e outros 48% apresentam nível médio de preocupação com as finanças. Apenas 5% afirmam não sofrer impactos emocionais relacionados ao dinheiro, indicando que o problema atinge praticamente toda a sociedade.
Os reflexos aparecem diretamente na rotina das famílias. O levantamento, que integra o Raio-X do Investidor Brasileiro de 2025, mostra que 37% dos entrevistados perdem o sono por questões financeiras, 49% trabalham além do necessário apenas para pagar as contas e 29% relatam conflitos familiares motivados pelo dinheiro. O cenário ajuda a explicar por que o Brasil permanece entre os países com maiores índices de ansiedade do mundo.
Especialistas alertam que o endividamento prolongado compromete não apenas o orçamento, mas também a capacidade cognitiva das pessoas. Estudos de economia comportamental, conduzidos por pesquisadores como os Nobel Abhijit Banerjee e Esther Duflo e pelo economista Sendhil Mullainathan, demonstram que a escassez financeira consome atenção e energia mental, reduzindo a capacidade de planejamento, concentração e tomada de decisões de longo prazo.
Os grupos mais afetados também chamam atenção. Entre aqueles que apresentam alto estresse financeiro, 53% são mulheres, enquanto 37% têm entre 45 e 64 anos. Especialistas associam esse quadro ao acúmulo de responsabilidades típicas dessa fase da vida, que incluem filhos, pais idosos, aposentadoria, saúde e manutenção da renda familiar.
A pesquisa reforça ainda que o problema não pode ser explicado apenas pela falta de dinheiro ou exclusivamente pela ausência de educação financeira. Separações, doenças, desemprego e mudanças profissionais podem comprometer o equilíbrio financeiro até mesmo de pessoas com boa renda e escolaridade. Ao mesmo tempo, a baixa alfabetização financeira continua sendo um fator relevante, já que muitos brasileiros ainda encontram dificuldades para fazer orçamento, formar reservas de emergência e compreender os efeitos dos juros no longo prazo.
Nas redes sociais, é comum atribuir esse fenômeno apenas aos governos de plantão, mas a realidade é mais complexa. O estresse financeiro resulta da combinação de fatores como inflação, juros elevados, mercado de trabalho, endividamento das famílias, insegurança pública, instabilidade política e questões familiares e de saúde. Governos influenciam parte dessas variáveis, mas não explicam sozinhos um problema estrutural que atravessa diferentes períodos da história econômica do país.
Programas de renegociação, como o Desenrola Brasil, podem aliviar situações emergenciais, mas especialistas defendem que soluções permanentes exigem políticas contínuas de educação financeira e prevenção ao superendividamento. A crescente financeirização da vida cotidiana, impulsionada pelas Plataformas de acesso facilitado ao crédito, de apostas online, pela pressão por consumo e também geração de renda, tornou o planejamento financeiro uma competência cada vez mais essencial para a população.
Os dados da Anbima deixam uma mensagem clara que o dinheiro já não afeta apenas o orçamento doméstico. Ele influencia o sono, os relacionamentos, a produtividade, a saúde mental e a percepção de bem-estar de milhões de brasileiros.
Como já discutimos outras vezes nesta coluna do SBT News, enfrentar esse problema exige uma abordagem integrada, que combine educação financeira, fortalecimento da renda, estímulo à formação de reservas de emergência e políticas públicas voltadas à prevenção do superendividamento. O objetivo não deve ser apenas ensinar as pessoas a resolver problemas financeiros, mas criar condições para que elas não precisem enfrentá-los continuamente.
Pense Nisso!
























