Eleições

Cancelamento de debate favoreceu Lula, dizem campanhas

Aliados de Caiado, Zema e Cury avaliam que retirada do púlpito de Lula e entrada de Renan mudaram as regras acertadas com os partidos

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Túlio Amâncio
Lula (PT) durante evento de campanha em Belém (PA) | Divulgação/Ricardo Stuckert

Lula (PT) durante evento de campanha em Belém (PA) | Divulgação/Ricardo Stuckert

Integrantes das campanhas de Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) avaliam que as decisões tomadas nesta quinta-feira (1º) pela ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), acabaram produzindo um resultado favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT): o cancelamento do debate presidencial da TV Globo.

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A avaliação nos bastidores das três campanhas é que as duas decisões alteraram, poucas horas antes do programa, regras que haviam sido previamente discutidas e acertadas entre a emissora e os partidos. A mudança provocou a desistência de Flávio Bolsonaro (PL) e, na sequência, levou a própria Globo a cancelar o debate.

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Lula, porém, já havia comunicado que não participaria do debate. A ausência do presidente não era, portanto, uma novidade capaz de inviabilizar o programa. A Globo mantinha o encontro com os demais candidatos mesmo depois de Lula informar que não compareceria.

O cenário mudou depois da decisão de Estela Aranha de proibir a emissora de exibir o púlpito vazio reservado ao presidente petista e de impedir perguntas diretamente dirigidas ao candidato ausente. A medida foi tomada após provocação da coligação que representa Lula.

Púlpito fazia parte das regras

O ponto que mais incomodou as campanhas de Caiado, Zema e Cury foi a retirada do púlpito destinado a Lula.

A estrutura vazia não havia sido criada pela Globo de última hora. A possibilidade de manter no palco o espaço identificado com o nome do candidato ausente fazia parte das regras previamente acertadas para o debate, segundo as informações divulgadas pela emissora e pela imprensa.

A decisão de Estela Aranha suspendeu justamente esse trecho das regras. A ministra considerou que a exposição do púlpito vazio poderia representar uma forma de pressão sobre o candidato ausente. Também proibiu que os demais concorrentes direcionassem perguntas a Lula durante o programa.

Para integrantes das campanhas ouvidas pelo SBT News, a alteração teve um efeito político evidente: Lula deixou de estar ausente de uma maneira visualmente explorável pelos adversários.

Na avaliação desses integrantes, o púlpito vazio permitiria que os candidatos presentes lembrassem ao eleitor que o presidente havia optado por não participar do último debate antes da votação. Sem o púlpito e sem a possibilidade de perguntas diretamente dirigidas a Lula, esse recurso desapareceu.

Decisão foi provocada pelo PT

A decisão de Estela Aranha ocorreu após a campanha de Lula questionar no TSE as regras definidas pela Globo.

A coligação pediu a suspensão do dispositivo que previa a manutenção do espaço reservado ao candidato faltoso e a possibilidade de os demais participantes fazerem questionamentos dirigidos ao ausente. A ministra acolheu o pedido em caráter liminar.

A decisão não afirma que Lula deveria participar do debate. Ao contrário, a fundamentação considera que a participação é facultativa. O argumento foi de que as regras não poderiam criar uma espécie de punição ao candidato que optasse por não comparecer.

Nos bastidores, porém, integrantes das campanhas adversárias interpretaram a mudança de outra maneira. Para eles, a consequência prática foi retirar dos candidatos presentes uma ferramenta para explorar politicamente a ausência de Lula.

Gilmar inclui Renan Santos

Na sequência, outra decisão judicial alterou o formato do debate.

O ministro Gilmar Mendes determinou que Renan Santos (Missão) fosse incluído no programa na vaga que havia ficado aberta com a ausência de Lula. A decisão garantiu ao candidato as mesmas condições de tempo e participação dos demais concorrentes.

A entrada de Renan provocou reação de Flávio Bolsonaro. O senador anunciou que não participaria mais do debate, citando a decisão do TSE sobre o púlpito de Lula como motivo para a desistência.

Até então, Flávio havia confirmado presença e o debate estava mantido mesmo sem Lula.

Com a desistência do candidato do PL, a Globo ficou diante de uma nova configuração do programa, poucas horas antes da transmissão.

Globo cancela debate

A emissora acabou cancelando o debate e atribuiu a decisão às mudanças provocadas pelas decisões judiciais. A Globo argumentou que as determinações alteraram regras previamente estabelecidas e criaram insegurança jurídica para a realização do programa.

Para integrantes das campanhas de Caiado, Zema e Cury, o efeito político da sequência de decisões foi particularmente relevante para Lula.

O presidente já havia escolhido não participar do confronto e, no mesmo horário, faria uma entrevista ao podcast Flow. Com o cancelamento, deixou de existir também o debate no qual os demais candidatos poderiam explorar sua ausência.

A avaliação desses integrantes é que Lula, portanto, manteve a decisão de não comparecer, não teve o púlpito vazio exposto e, ao final, viu o próprio debate ser cancelado.

Eles fazem, no entanto, uma distinção entre o efeito das decisões e a intenção dos magistrados. Não há, nas decisões de Estela Aranha e Gilmar Mendes, indicação de que os ministros tenham tomado as medidas com o objetivo declarado de beneficiar Lula.

O efeito político apontado pelas campanhas é uma interpretação sobre as consequências das decisões.

O que estava previsto

Antes das decisões desta quinta-feira, a Globo havia organizado o debate com regras definidas em conjunto com as campanhas. Lula comunicou que não participaria, mas a emissora decidiu manter o programa.

A previsão era que o espaço destinado ao presidente permanecesse identificado durante o debate e que os demais candidatos pudessem fazer referência à sua ausência dentro das regras estabelecidas.

A decisão de Estela suspendeu esses mecanismos. Horas depois, a determinação de Gilmar Mendes acrescentou Renan Santos ao programa.

A combinação das duas decisões alterou o desenho do debate e levou Flávio Bolsonaro a desistir. Sem os dois nomes que polarizavam a disputa — Lula, que já havia anunciado sua ausência, e Flávio, que desistiu posteriormente —, a Globo decidiu cancelar o encontro.

Para as campanhas de Caiado, Zema e Cury, o episódio termina com uma situação politicamente relevante: o candidato que decidiu não participar do debate não precisou enfrentar o desgaste visual de ter seu púlpito vazio no palco e também não ficou sujeito ao confronto com os demais concorrentes no último debate antes do primeiro turno.

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