Política

"O povo disse não ao golpe", afirma ex-comandante da FAB

Ao Sala de Imprensa, militar conta quando se deu conta do plano golpista e que decidiu lançar livro para registrar história que não quer ver repetida

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Basília Rodrigues

O ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Carlos Baptista Jr., afirmou ao SBT News que decidiu lançar o livro “Eu disse não”, sobre a tentativa de golpe no país no 8 de janeiro de 2023, para não deixar dúvidas do que aconteceu e evitar que o risco de ruptura democrática se repita.

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“Muitas pessoas disseram ‘não’ a uma quebra institucional no Brasil, ‘não’ à busca de atalhos na democracia. As instituições, o judiciário, legislativo, a imprensa, a igreja, antes de mais nada o povo não queria. Quem mais disse não (ao golpe) foi o povo”, afirmou ao programa Sala de Imprensa.

Baptista prestou depoimento de 12 horas à Polícia Federal que fundamentou a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, ex-ministros de governo e do ex-comandante da Marinha, Almir Garnier. Por causa dessa postura, entrou na mira de críticas de aliados do antigo governo, como do presidenciável Flávio Bolsonaro.

“O livro não é uma ferramenta de campanha eleitoral. Escrevo em primeira pessoa não por arrogância, mas para assumir a responsabilidade do que foi dito”, pontua.

O ex-comandante observa que a tentativa de golpe foi construída a partir de um processo que levou muitos anos. Ele cita como exemplo de fatos que contribuíram: a troca de todos comandantes quando Bolsonaro demitiu o ministro da Defesa Fernando e Silva, em março de 2021; desfile de blindados da Marinha em dia de votação do projeto do voto impresso; participação de Bolsonaro em manifestações contra STF e Congresso. O auge foi quando o ex-presidente perde o segundo turno e dá início a um processo de não aceitação do resultado.

“O processo, acho que foi (de golpe), não tenho dúvidas. Essa é a trincheira anti-golpista que eu registro no livro. Todo processo desde 2021”, explica.

O ex-comandante revela que durante todo ano eleitoral de 2022, os militares se reuniram para avaliar cenário eleitoral, incluindo risco de atentados contra candidatos e até de morte.

“Tínhamos uma visão de tudo o que poderia ocorrer. Estávamos acompanhando, mas não estávamos ali como xerife ou Poder Moderador do Brasil”, disse.

Baptista afirma que, após a derrota do governo Bolsonaro no segundo turno, “as coisas foram ficando mais silenciosas e mais graves”. E, algo que ele só se deu conta depois, “em 2022, ia ser decretado um estado de exceção para garantir a permanência do derrotado (Jair Bolsonaro)”, relembra.

“Essas reuniões iniciais, todas no Planalto, e no livro eu localizo quando foi na biblioteca, nos sofás, ou sala de ministro, para tentar trazer uma ambientação para o eleitor. Nos primeiros dias de novembro, até dia 10 ou 11, nós estávamos tentando controlar as manifestações dos caminhoneiros que pararam diversas estradas, manifestações em frente aos quartéis, eu achava que estávamos conversando sobre como manter lei e ordem (GLO). A partir do momento que começa a falar de estado de exceção, fica muito claro que não havia pressupostos para decretar isso. Foi quando nós levamos para o presidente ‘isso não pode ser discutido entre nós cinco’. Faltava chamar o vice-presidente da República, o Congresso, o Conselho da República.”

No dia 14 de dezembro, os três comandantes foram chamados para reunião no Ministério da Defesa. Baptista entrou ao lado do ministro Paulo Sérgio Nogueira, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier já estava na sala e o ex-comandante do Exército Freire Gomes chegou depois. Esse momento é descrito com riqueza de detalhes, no livro.

Segundo Baptista, o então ministro abriu uma pasta transparente com um papel dentro. O ex-comandante reagiu dizendo. “Eu pergunto para ele “isso prevê a não assunção do presidente eleito?” Aí, eu levantei e falei “não aceito sequer pegar esse documento e eu vou me retirar”. Me levantei e fui embora”, disse.

Em outra ocasião, com a presença do ex-presidente, “eu disse ao Bolsonaro que ele não seria mais presidente a partir do 1* de janeiro. Não dava para ser mais direto do que isso”, disse. O ex-comandante do Exército Freire Gomes, que também depôs no inquérito do golpe, disse “se o senhor fizer isso, eu vou ter que lhe prender”.

Baptista entregou o comando da Aeronáutica para o governo Lula em 2 de janeiro de 2023. Ao longo de 2022, ele se aconselhou com outros militares experientes, como o pai Carlos Almeida Baptista, também ex-comandante da Aeronáutica e o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen.

“A democracia não aceita atalhos. Nós vamos ter que aprender a convivência democrática dos nossos 213 milhões de habitantes sem atalhos. Não é para imaginar que consegue impor ordem acima da vontade do povo”, reflete. Baptista defende uma discussão “fora das bolhas” e disse ficar perplexo quando pesquisas de opinião mostram um percentual de pessoas dizendo que preferia o retorno da ditadura.

Baptista votou em Jair Bolsonaro, em 2018 e 2022, e em Lula em 2002. O ex-comandante se considera uma pessoa de centro direita. “Estamos em uma sociedade doente, precisamos retomar características do nosso povo. Não precisa concordar comigo, nem eu com você. Mas precisamos discutir o futuro”, disse.

“Terei muita dificuldade de escolher um populista para colocar meu voto, nos dois turnos”, pontuou. Ele também explicou não ter aspirações políticas, não irá se candidatar a nada.

“Não aceitar um golpe, não significa dizer que estou confortável com todas mazelas do país”. Ele cita como exemplo a compra de voto e valor estratosférico de emendas parlamentares.

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