Tecnologia

Eleições 2026: como identificar vídeos gerados por inteligência artificial?

Tecnologias cada vez mais avançadas vêm tornando cada vez mais difícil distinguir o que é verdadeiro do que foi fabricado digitalmente

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Foto: Pixabay
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Em ano eleitoral, todo cuidado com o compartilhamento de informações é pouco. No anseio de confirmar determinadas ideias já previamente estabelecidas, muitas pessoas tendem a acreditar e repassar conteúdos virais falsos, incluindo vídeos gerados ou manipulados por inteligência artificial (IA).

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A tecnologia vem avançando rapidamente nesse sentido, tornando-se cada vez mais difícil distinguir o que é verdadeiro do que foi fabricado digitalmente. Pensando nisso, o SBT News conversou com especialistas para obter dicas de como identificar vídeos gerados por IA e manter-se bem informado para votar com consciência nas próximas eleições.

Segundo o especialista em tecnologia Arthur Igreja, a principal dica para identificar um "deepfake" é observar inconsistências graves. As pessoas retratadas nos vídeos tendem a ter uma aparência "plastificada", como se estivessem com excesso de maquiagem. A luz também parece artificial, como se tudo no ambiente estivesse na mesma paleta de cores.

Outra dica é observar os movimentos, que não parecem tão naturais, por vezes meio robóticos. Eles podem parecer lentos ou apressados demais, ou ainda travar em determinados momentos. Micro expressões das pessoas ali retratadas também podem entregar que se trata de um "depfake".

Tirar o foco das pessoas e colocá-lo no ambiente ao redor também é uma maneira de identificar vídeos falsos. Com o olhar atento, é possível reparar inconsistências, como um objetos que mudam de forma, cor ou posição entre um corte e outro ou que surgem e somem repentinamente.

"Se você observar os objetos, vai reparar que eles não estão ordenados corretamente. Então, você vai ver alguns absurdos: um objeto que não poderia estar em cima de uma mesa, mas está; uma pessoa que está usando um shorts, mas começa do joelho para baixo o pedaço de uma calça", afirma Igreja.
"Há alguns elementos que, se a pessoa tiver um olhar mais apurado, ela consegue perceber. O duro é que, a maioria das pessoas, quando começa a assistir a um vídeo, tende a focar nos rostos das pessoas e esquece de se atentar a todos esses aspectos que estão à volta", acrescenta.

O secretário de comunicação social do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), Vitor Amaral, acrescenta outros elementos que podem ser observados em um vídeo para identificar se ele foi gerado por IA: a questão da sincronia labial e os detalhes das mãos. Geralmente, é possível notar dedos extras, articulações estranhas ou formas distorcidas.

Amaral orienta ainda que narrativas que trazem um apelo emocional e uma sensação de urgência devem servir como um sinal de alerta. Se uma informação não está replicada nos principais veículos de imprensa da grande mídia, este é um grande sinal de que ela pode ser, na verdade, uma desinformação.

De acordo com os especialistas, em uma escala de complexidade, vídeos configuram o formato mais fácil de identificar indícios de IA. Depois, aparecem as imagens estáticas — justamente porque as inconsistências se tornam mais perceptíveis com o movimento — e, por último, a voz.

Os elementos de reconhecimento da voz são poucos, limitando-se basicamente as gírias e a escolha do vocabulário, o que só pode ser observado se o ouvinte conhecer intimamente a voz da pessoa ali retratada. Apesar disso, ainda é possível detectar inconsistências ao observar um áudio no contexto geral.

Quando as pessoas falam, é normal que façam pausas para pensar e, ao fazerem isso, costumam olhar para cima, entre outros gestos. No caso de vídeos gerados por IA, é possível observar que o olhar parece muito fixo, artificial, como se não fosse um ser humano real ali. O áudio gerado por IA, muitas vezes, também contém pausas afobadas, meio bruscas e robóticas.

Ferramentas de detecção

Os vídeos gerados por IA estão se tornando cada vez mais sofisticados. Uma pesquisa divulgada em fevereiro de 2025, realizada no Reino Unido pela empresa de tecnologia iProov, mostrou que apenas 0,1% dos participantes conseguiram distinguir com precisão entre conteúdo real e falso em todos os estímulos, incluindo imagens e vídeos.

Nesse sentido, ferramentas de detecção têm ganhado cada vez mais destaque. Basta fazer uma busca na internet para se deparar com uma série delas: Sensity AI, Reality Defender, Deepware Scanner, entre outras. Segundo Igreja, esses sistemas têm contribuído para que conteúdos gerados por IA se tornem cada vez mais indetectáveis aos olhos das pessoas.

Isso ocorre porque as ferramentas de detecção de IA usam o próprio feedback humano para serem aprimoradas. Ao enviar um comando para o sistema (termo conhecido como "prompt"), a plataforma normalmente gera várias versões daquele conteúdo. Então, pede que o usuário escolha aquela que mais lhe agrada, o que a ajuda a otimizar seus recursos.

Paradoxalmente, essas ferramentas, apesar de terem uma alta precisão, também ficam datadas com alguma velocidade, de acordo com Igreja. Isso porque, ao mesmo tempo em que o sistema se torna mais avançado a cada feedback, criadores também buscam constantemente aprimorar seus conteúdos para burlar os detectores.

"É mais ou menos como o detector de plástico. Ele vai ficando desatualizado. Então, é uma corrida de gato e rato", diz Igreja. "Ao usar uma ferramenta de detecção de IA, ela pode conseguir identificar X% de elementos que podem indicar que é IA, mas nunca é algo 100%, que você pode tomar como verdade."

Educação midiática

Para se ter uma dimensão de como vídeos gerados por IA podem interferir nas eleições, na Indonésia, em 2024, um vídeo que "ressuscitou" o ex-general Hadji Suharto, morto em 2008, atingiu cerca de 5 milhões de visualizações. O impacto direto do vídeo no resultado do pleito é difícil de medir, mas Prabowo Subianto, apoiado pelo partido de Suharto, foi eleito no primeiro turno, com cerca de 58% dos votos.

No Brasil, a Justiça Eleitoral vem se preparando para lidar com esse desafio. Segundo o secretário de comunicação social do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), Vitor Amaral, o órgão realiza um trabalho importante no sentido de combater a desinformação e fortalecer a democracia. Recentemente, o Tribunal promoveu audiências públicas para atualizar as resoluções que vão orientar as eleições de 2026.

Para essas audiências, o TRE-SP convidou civis, partidos políticos, o Ministério Público e instituições em geral. O objetivo era que eles pudessem contribuir com a atualização das normas, publicadas recentemente no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Uma dessas normas atualizadas, inclusive, diz respeito à IA.

Segundo Amaral, a Justiça Eleitoral também tem atuado fortemente na parte preventiva do combate à desinformação, ou educação midiática. Além do trabalho que é feito nas redes sociais e nos canais institucionais, existem hoje as chamadas Escolas Judiciárias Eleitorais (EJEs), que promovem a educação, capacitação e promoção da cidadania eleitoral.

Grande parte das atividades é aberta à sociedade. As EJEs costumam oferecer cursos e seminários gratuitos, muitas vezes online, com inscrição aberta ao público; eventos acadêmicos, pesquisadores e profissionais interessados em Direito Eleitoral e Democracia; e projetos educativos, como programas para escolas e universidades.

"Temos trabalhado tanto com jovens quanto com idosos, mostrando como identificar desinformação e utilizar a internet. [Esse projeto] tem tido um impacto interessante. Nas redes sociais, também explicamos sobre a segurança da urna eletrônica, do processo eleitoral como um todo e de formas de auditoria, usando linguagem simples", afirma Amaral.
Questionado sobre os desafios de realizar uma eleição num país onde a democracia está tão fragilizada, o secretário respondeu: “Esse é um cenário que não é rea lidade só no Brasil, é um cenário mais amplo. Mas o que tenho a dizer é que a Justiça Eleitoral está preparada. A cada eleição, surgem novos desafios, mas sempre damos um jeito de superá-los", acrescenta.

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