Saúde

"Homem não chora": por que reprimir emoções está prejudicando a saúde mental masculina?

Culturalmente, espera-se que o homem seja uma pessoa bem resolvida e resolutiva nos problemas externos, e que não olhe para seu interior

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Brazil Health
06/01/2025, 16:19 • Atualizado em 06/01/2025, 16:45
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"Homem não chora": por que reprimir emoções está adoecendo a população masculina? | Freepik

"Homem não chora": por que reprimir emoções está adoecendo a população masculina? | Freepik

Nos últimos anos, a saúde mental vem sendo merecidamente reconhecida pela sociedade. O que antigamente era tabu, vergonhoso, coisa de gente "maluca", quase um tema nunca falado nas rodas de conversa (por exemplo, dizer que faz terapia para muitos era algo extremamente desconfortável e, muitas vezes, até omitido), hoje é um dos temas presentes nessas mesmas rodas, com reforço para a procura de quem ainda não o faz. Mas, mesmo com avanços, nota-se que existe, nessa busca, uma significativa resistência masculina.

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Vale lembrar que, por muitos anos, a masculinidade foi reforçada com falas como "homem não chora", "engole o choro", "seja forte", como se tudo isso fosse sinônimo de fraqueza. Muitos homens foram reprimidos de demonstrar ou entrar em contato com as emoções, o que dificulta ainda mais a busca por ajuda.

Ainda existem falas como: "Se é para me abrir, eu me abro na mesa de bar com amigos" ou "não vou falar de mim para um estranho e, ainda mais, pagar por isso". Tudo isso é uma forma de defesa para não ter que olhar para aquilo que é desconhecido. Se não se conhece, não é preciso lidar. E, assim, a dificuldade aumenta ainda mais.

Culturalmente, espera-se que o homem seja uma pessoa bem resolvida, batalhadora, voltada para fora e resolutiva nos problemas externos, e que não olhe para seu interior.

Claro, hoje é muito mais comum ver homens buscando ajuda psicológica, mas, comparado às mulheres, ainda é algo bem desproporcional. Homens sofrem sozinhos, adotando, muitas vezes, comportamentos destrutivos, como o uso de bebidas e drogas, que funcionam como anestésicos da alma. Afinal, nem dor o homem pode sentir (a famosa masculinidade tóxica, onde o homem supostamente tem poder sobre tudo: de si, das dores e da vida).

Falando em masculinidade tóxica, esta prejudica ainda mais o que já é difícil: a busca por ajuda. Afinal, buscar ajuda é visto como sinal de "fraqueza" ou de que "não estou dando conta". Uma pena, porque as coisas poderiam ser menos dolorosas para todos. Então, o primeiro passo é entender: nem tudo está sob controle; dor não é frescura, muito menos fraqueza. É, "apenas", um sinal de humanidade.

Costumo dizer que fazer terapia é como entrar em um quarto escuro onde você não tem ideia do que vai encontrar. Dá medo, afinal, pode haver muitas coisas perigosas ou que machucam. Mas, ao acender a luz e conhecer o que há naquele cômodo, é possível se proteger dos reais perigos, entender quais são fantasiosos, encontrar coisas valiosas que nem imaginava estarem guardadas, aprender a lidar com novas descobertas e deixar para trás o que não serve mais.

No entanto, isso não pode ser feito de fora do quarto; é preciso entrar. Muitas vezes, a proteção é generalizada, porque, já que não se sabe do que se está protegendo, protege-se de tudo. Porém, com isso, perde-se a oportunidade de conhecer vários outros aspectos, inclusive positivos.

Como reconhecer a masculinidade tóxica?

Passos práticos: Desde cedo, é imprescindível incentivar a demonstração de afetos, sejam eles "positivos ou negativos" (aspas porque afeto nunca é negativo, mas, para a sociedade, geralmente é assim que são percebidos sentimentos como medo, ansiedade e tristeza, ou seja, os mais desagradáveis). Para os adultos que não tiveram essa oportunidade, podemos pensar em algumas ações:

1. Reconhecer que sentir não é fracasso, e buscar ajuda é um sinal de maturidade. Perceber que não é possível ter controle de tudo já é uma grande evolução.

2. Procurar uma rede de apoio formada por amigos e familiares que não julguem nem reprimam os sentimentos, mas que acolham, compartilhem, troquem experiências e, inclusive, incentivem a busca por ajuda de um profissional especializado.

Lembre-se sempre: ser vulnerável é normal, humano e faz parte do processo. Lutar contra isso só traz sofrimento e desgaste. Encarar a vulnerabilidade é um ato de coragem, transformador não só para si, mas também para aqueles ao redor, que igualmente podem estar sofrendo

* Marina Dammous é psicóloga credenciada pelo CRP SP | 06.76237

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