Tarifa dos EUA é “ingerência”, diz governo em nota
Em comunicado oficial, Planalto reage à investigação comercial dos EUA, classifica a medida como injustificada e politicamente motivada


Palácio do Planalto | Roberto Stuckert Filho/PR
O governo brasileiro divulgou nesta terça-feira (2) uma nota oficial em que critica a proposta do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. O Planalto classificou a iniciativa como injustificada e politicamente motivada.
No documento, o governo manifesta indignação com a conclusão preliminar da investigação aberta com base na Seção 301 da legislação comercial americana, que apura supostas práticas desleais do Brasil.
Segundo a nota, o processo foi iniciado em julho de 2025 “por provocação da família Bolsonaro” e estaria associado a tentativas de interferência em assuntos internos do país. O texto também cita a viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Washington e afirma que essas ações contam com o apoio de “falsos patriotas” que atuariam contra interesses nacionais.
O governo ainda afirma que o diálogo bilateral vinha sendo conduzido com participação direta dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, mas teria sido prejudicado por “interesses meramente eleitorais e familiares”.
Na avaliação do Planalto, não há justificativa para a adoção de medidas unilaterais contra o Brasil nem contra ativos estratégicos nacionais, como o sistema de pagamentos instantâneos Pix, citado nas recomendações preliminares do USTR.
A nota também destaca o histórico comercial entre os dois países. De acordo com dados do Bureau of Economic Analysis, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços nas relações com o Brasil entre 2011 e 2025. Apenas em 2025, o saldo positivo americano em bens foi de US$ 14,46 bilhões, chegando a US$ 40,52 bilhões quando considerados bens e serviços.
O governo ressalta ainda que 76% das importações provenientes dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagamento de imposto em 2025. A tarifa média efetiva aplicada a produtos americanos foi de 3,1%.
Apesar disso, o Planalto afirma que as medidas propostas tendem a prejudicar a economia brasileira, com impactos sobre emprego e renda, além de reduzir a relevância dos Estados Unidos como parceiro comercial. No primeiro trimestre de 2026, a participação americana nas exportações brasileiras caiu para 9,4%, o menor nível da série histórica.
O governo informa que negociações seguem em curso para tentar encerrar a investigação até 15 de julho, sem a adoção de sanções. Ao mesmo tempo, não descarta recorrer à Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso Nacional, em caso de medidas consideradas injustas.
"É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro", concluiu o governo em nota.
Reação de autoridades
Após reunião de emergência em Brasília, o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a recomendação dos Estados Unidos como “extremamente injusta”. Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo atuará para preservar o Pix diante das críticas feitas no âmbito da investigação americana.
Durigan também associou a apuração conduzida pelo governo dos EUA a articulações políticas da família Bolsonaro no exterior.
“Mais uma vez há um movimento contrário ao Pix. O sistema está fora de qualquer negociação. É um dos principais símbolos da nossa soberania financeira e motivo de orgulho nacional”, declarou o ministro.
Mais cedo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas públicas à família do ex-presidente Jair Bolsonaro. Lula mencionou episódios anteriores envolvendo tarifas comerciais e afirmou que aliados do ex-presidente atuaram junto a autoridades americanas em temas relacionados à relação bilateral.















