Reciprocidade contra EUA deve ficar para 2027, diz ministro
Pastas terão até 60 dias para reunir informações sobre efeitos das tarifas antes de eventual decisão sobre medidas de reciprocidade
Caio Barcellos
Ministro Márcio Elias Rosa durante coletiva | Foto: Júlio César Silva/MDIC
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou nesta quarta-feira (19) que o processo aberto pelo governo para avaliar medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos dificilmente será concluído antes do fim do ano, mas disse esperar que os dois países consigam negociar uma solução ou ao menos reduzir as tensões comerciais até dezembro.
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“Acho que não terá tempo para terminar antes de dezembro nenhum processo de reciprocidade. Mas a minha expectativa é que a gente consiga negociar e resolver, ou pelo menos aplacar minimamente as questões com os EUA antes do final do ano”, afirmou em entrevista coletiva no o Fórum Saúde, promovido pela Esfera Brasil e pela farmacêutica EMS, em Brasília.
O governo iniciou na quinta-feira (13) o procedimento previsto na Lei da Reciprocidade Econômicapara avaliar uma resposta às novas tarifas impostas pelos EUA. A abertura do processo não significa que o Brasil já tenha decidido aplicar contramedidas e ocorre paralelamente às consultas diplomáticas conduzidas pelo Itamaraty.
Segundo o ministro, a primeira etapa envolve a reunião de informações pelos ministérios sobre as medidas norte-americanas, os setores atingidos e os efeitos provocados sobre a economia brasileira. A expectativa é que esse levantamento resulte em um relatório dentro de até 60 dias.
“Agora começam todos os ministérios, com prazo de até 60 dias, a colecionar informações que podem ser levadas para a deliberação do Comitê-Executivo de Gestão da Camex (Gecex). Nós vamos elaborar um relatório, daqui a provavelmente 60 dias, discriminando, detalhando quais são os aspectos mais relevantes da participação, da medida que foi imposta e quais os efeitos que ela possa reproduzir”, explicou.
Pelas regras da Lei da Reciprocidade, a Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex) coordena a elaboração do relatório em conjunto com os órgãos envolvidos. O documento é encaminhado ao Gecex, que avalia se as medidas estrangeiras se enquadram nas hipóteses previstas pela legislação e se há possibilidade de adoção de contramedidas — o prazo inicial para o relatório é de 30 dias, prorrogável por mais 30.
Elias Rosa disse que diferentes áreas do governo poderão apresentar informações por serem afetadas pelas tarifas, citando os ministérios da Agricultura, da Pesca e de Minas e Energia como exemplos.
Quase metade das exportações atingida
Levantamento do próprio MDIC divulgado em julho aponta que 47,3% das exportações brasileiras aos EUA estão alcançadas por alguma das medidas tarifárias em vigor.
“Desses 47%, 16% está sujeito a 37,5%, o restante menos”, explicou. Um dos casos de taxas acumuladas é o setor de máquinas e equipamentos, que já se posicionou contra a reciprocidade mais de uma vez.
O governo brasileiro sustenta que as tarifas violam compromissos assumidos pelos EUA no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). O MDIC já havia adotado essa posição em relação às medidas tarifárias norte-americanas e também apresentou defesa formal em investigação conduzida pelo governo dos EUA sobre práticas comerciais brasileiras.
“Eu acho que nós temos que negociar com os EUA a superação dessa barreira, que é ilegal, é indevida, e, ao mesmo tempo, nos defender, porque ela é abusiva e causa dano para o país”, afirmou.
Presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca | REUTERS/Evelyn Hockstein
Eleições
Questionado sobre a possibilidade de as negociações comerciais ficarem condicionadas às eleições brasileiras, Elias Rosa afirmou que o governo não pretende atrelar as conversas com Washington ao calendário eleitoral.
“Eu não vinculo negociação [...] ao calendário eleitoral. Nós estamos aqui na negociação comercial. Nós precisamos estabelecer com os EUA um diálogo para superar qualquer outra questão e tentar ficar na questão comercial, na questão econômica”, afirmou.
A declaração difere em tom da avaliação feita mais cedo no mesmo evento pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que afirmou já identificar interferência dos EUA no processo eleitoral e disse esperar que as tensões diminuam depois das eleições.
“A gente já está vendo alguma interferência, que não tem razão de ser [...] A gente fez um esforço grande de diplomacia, de conversa, de apresentar propostas, mas do outro lado o que a gente recebe é o seguinte: ou vocês se rendem e abrem mão de qualquer pleito brasileiro e cedem completamente, ou nós vamos impor penalidade”, disse Durigan poucas horas antes.
Exportações aos EUA perdem espaço
Elias Rosa também afirmou que as tarifas têm reduzido o peso dos EUA como destino das exportações brasileiras, ao mesmo tempo em que as vendas avançam para outros mercados.
“O impacto vai ser medido, obviamente, no final do ano, mas o que nós temos hoje é uma redução grande, infelizmente, da participação dos EUA na pauta exportadora”, disse.
Em julho, as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 3,64 bilhões, queda de 5% em relação ao mesmo mês de 2025. Já as importações de produtos norte-americanos cresceram 0,6%, para US$ 4,28 bilhões -um déficit de US$ 640 milhões no comércio bilateral para o Brasil.
No acumulado de janeiro a julho, as vendas ao mercado norte-americano recuaram 12,2%, enquanto as exportações brasileiras para o conjunto dos demais mercados apresentaram desempenho mais favorável.
O ministro disse que esse movimento tem sido acompanhado por aumento das vendas para outros destinos e citou Egito, Índia, Peru, Vietnã e China entre os mercados que apresentaram melhora.
Outro exemplo citado foi o da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), bloco econômico que reúne Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã e, desde 2025, Timor-Leste, que se tornou o 11º integrante da associação.
A Asean está com uma comitiva presente em Brasília para ampliar os laços com o Brasil. Conforme mostrado pelo SBT News, o próximo passo pretendido pelo Itamaraty é transformar a atual parceria setorial, limitada a algumas áreas de cooperação, na chamada Parceria de Diálogo Plena, que amplia os canais de interlocução e os temas tratados com o bloco.
Em 2025, o comércio do Brasil com os 11 integrantes da Asean alcançou US$ 38,4 bilhões o, o que colocou o bloco como o quinto maior parceiro comercial brasileiro, atrás apenas de China, União Europeia, EUA e Mercosul.
“Ao mesmo tempo em que cai a exportação para os EUA, ela vem aumentando para outros países. Nós colecionamos nesse período um aumento de 10,5% para pelo menos 50 países”, afirmou.
Lula discursando em ato de campanha à reeleição | Foto: Reprodução/PT
Mercosul
Elias Rosa também defendeu o fortalecimento do Mercosul e afirmou que uma maior integração entre Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia torna o bloco mais forte diante de um comércio internacional cada vez mais organizado em torno de grandes mercados regionais.
“Quanto mais próximos nós estivermos, mais integrados, melhor será. O comércio internacional é essencialmente intra-bloco. Então os países da União Europeia comercializam entre si. Antigamente, Canadá, México e Estados Unidos comercializavam entre si. A Asean comercializa entre si. O Mercosul precisa fazer o mesmo. Se nós nos fragmentarmos, ficaremos mais fracos”, explicou.
O ministro ainda separou a redução do comércio com a Argentina da disputa com os EUA. Segundo ele, os dados disponíveis não permitem relacionar eventuais atritos recentes com o governo de Jair Milei ao desempenho da balança comercial e a queda das vendas ao país vizinho está ligada principalmente à situação da economia argentina.
“Com os Estados Unidos a redução se dá em razão do comportamento que ele, infelizmente, passou a manter, que é indevido, injusto, é descabido. E com a Argentina, por conta da crise econômica que, infelizmente, aquele país ainda vive, afirmou.
Reciprocidade contra EUA deve ficar para 2027, diz ministroPastas terão até 60 dias para reunir informações sobre efeitos das tarifas antes de eventual decisão sobre medidas de reciprocidadePolítica2026-08-19T18:45:34.989ZO ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, , afirmou nesta quarta-feira (19) que o processo aberto pelo governo para avaliar dificilmente será concluído antes do fim do ano, mas disse esperar que os dois países consigam negociar uma solução ou ao menos reduzir as tensões comerciais até dezembro. “Acho que não terá tempo para terminar antes de dezembro nenhum processo de reciprocidade. Mas a minha expectativa é que a gente consiga negociar e resolver, ou pelo menos aplacar minimamente as questões com os EUA antes do final do ano”, afirmou em entrevista coletiva no o Fórum Saúde, promovido pela Esfera Brasil e pela farmacêutica EMS, em Brasília. O governo iniciou na quinta-feira (13) o procedimento previsto na para avaliar uma resposta às novas tarifas impostas pelos EUA. A abertura do processo não significa que o Brasil já tenha decidido aplicar contramedidas e ocorre paralelamente às consultas diplomáticas conduzidas pelo Itamaraty. Segundo o ministro, a primeira etapa envolve a reunião de informações pelos ministérios sobre as medidas norte-americanas, os setores atingidos e os efeitos provocados sobre a economia brasileira. A expectativa é que esse levantamento resulte em um relatório dentro de até 60 dias. “Agora começam todos os ministérios, com prazo de até 60 dias, a colecionar informações que podem ser levadas para a deliberação do Comitê-Executivo de Gestão da Camex (Gecex). Nós vamos elaborar um relatório, daqui a provavelmente 60 dias, discriminando, detalhando quais são os aspectos mais relevantes da participação, da medida que foi imposta e quais os efeitos que ela possa reproduzir”, explicou. Pelas regras da Lei da Reciprocidade, a Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex) coordena a elaboração do relatório em conjunto com os órgãos envolvidos. O documento é encaminhado ao Gecex, que avalia se as medidas estrangeiras se enquadram nas hipóteses previstas pela legislação e se há possibilidade de adoção de contramedidas — o prazo inicial para o relatório é de 30 dias, prorrogável por mais 30. Elias Rosa disse que diferentes áreas do governo poderão apresentar informações por serem afetadas pelas tarifas, citando os ministérios da Agricultura, da Pesca e de Minas e Energia como exemplos. Quase metade das exportações atingida Levantamento do próprio MDIC divulgado em julho aponta que 47,3% das exportações brasileiras aos EUA estão alcançadas por alguma das medidas tarifárias em vigor. “Desses 47%, 16% está sujeito a 37,5%, o restante menos”, explicou. Um dos casos de taxas acumuladas é o setor de máquinas e equipamentos, que já se posicionou contra a reciprocidade mais de uma vez. O governo brasileiro sustenta que as tarifas violam compromissos assumidos pelos EUA no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). O MDIC já havia adotado essa posição em relação às medidas tarifárias norte-americanas e também apresentou defesa formal em investigação conduzida pelo governo dos EUA sobre práticas comerciais brasileiras. “Eu acho que nós temos que negociar com os EUA a superação dessa barreira, que é ilegal, é indevida, e, ao mesmo tempo, nos defender, porque ela é abusiva e causa dano para o país”, afirmou. Eleições Questionado sobre a possibilidade de as negociações comerciais ficarem condicionadas às eleições brasileiras, Elias Rosa afirmou que o governo não pretende atrelar as conversas com Washington ao calendário eleitoral. “Eu não vinculo negociação [...] ao calendário eleitoral. Nós estamos aqui na negociação comercial. Nós precisamos estabelecer com os EUA um diálogo para superar qualquer outra questão e tentar ficar na questão comercial, na questão econômica”, afirmou. A declaração difere em tom da avaliação feita mais cedo no mesmo evento pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que afirmou já identificar interferência dos EUA no processo eleitoral e disse esperar que as tensões diminuam depois das eleições. “A gente já está vendo alguma interferência, que não tem razão de ser [...] A gente fez um esforço grande de diplomacia, de conversa, de apresentar propostas, mas do outro lado o que a gente recebe é o seguinte: ou vocês se rendem e abrem mão de qualquer pleito brasileiro e cedem completamente, ou nós vamos impor penalidade”, disse Durigan poucas horas antes. Exportações aos EUA perdem espaço Elias Rosa também afirmou que as tarifas têm reduzido o peso dos EUA como destino das exportações brasileiras, ao mesmo tempo em que as vendas avançam para outros mercados. “O impacto vai ser medido, obviamente, no final do ano, mas o que nós temos hoje é uma redução grande, infelizmente, da participação dos EUA na pauta exportadora”, disse. Em julho, as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 3,64 bilhões, queda de 5% em relação ao mesmo mês de 2025. Já as importações de produtos norte-americanos cresceram 0,6%, para US$ 4,28 bilhões -um déficit de US$ 640 milhões no comércio bilateral para o Brasil. No acumulado de janeiro a julho, as vendas ao mercado norte-americano recuaram 12,2%, enquanto as exportações brasileiras para o conjunto dos demais mercados apresentaram desempenho mais favorável. O ministro disse que esse movimento tem sido acompanhado por aumento das vendas para outros destinos e citou Egito, Índia, Peru, Vietnã e China entre os mercados que apresentaram melhora. Outro exemplo citado foi o da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), bloco econômico que reúne Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã e, desde 2025, Timor-Leste, que se tornou o 11º integrante da associação. A Asean está com uma comitiva presente em Brasília para ampliar os laços com o Brasil. Conforme mostrado pelo SBT News, o próximo passo pretendido pelo Itamaraty é transformar a atual parceria setorial, limitada a algumas áreas de cooperação, na chamada Parceria de Diálogo Plena, que amplia os canais de interlocução e os temas tratados com o bloco. Em 2025, o comércio do Brasil com os 11 integrantes da Asean alcançou US$ 38,4 bilhões o, o que colocou o bloco como o quinto maior parceiro comercial brasileiro, atrás apenas de China, União Europeia, EUA e Mercosul. “Ao mesmo tempo em que cai a exportação para os EUA, ela vem aumentando para outros países. Nós colecionamos nesse período um aumento de 10,5% para pelo menos 50 países”, afirmou. Mercosul Elias Rosa também defendeu o fortalecimento do Mercosul e afirmou que uma maior integração entre Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia torna o bloco mais forte diante de um comércio internacional cada vez mais organizado em torno de grandes mercados regionais. “Quanto mais próximos nós estivermos, mais integrados, melhor será. O comércio internacional é essencialmente intra-bloco. Então os países da União Europeia comercializam entre si. Antigamente, Canadá, México e Estados Unidos comercializavam entre si. A Asean comercializa entre si. O Mercosul precisa fazer o mesmo. Se nós nos fragmentarmos, ficaremos mais fracos”, explicou. O ministro ainda separou a redução do comércio com a Argentina da disputa com os EUA. Segundo ele, os dados disponíveis não permitem relacionar eventuais atritos recentes com o governo de Jair Milei ao desempenho da balança comercial e a queda das vendas ao país vizinho está ligada principalmente à situação da economia argentina. “Com os Estados Unidos a redução se dá em razão do comportamento que ele, infelizmente, passou a manter, que é indevido, injusto, é descabido. E com a Argentina, por conta da crise econômica que, infelizmente, aquele país ainda vive, afirmou.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/reciprocidade-contra-eua-deve-ficar-para-2027-diz-ministro
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