Política

Planalto vê risco de encontro com Trump perder peso em meio à guerra e teme crise no Brics

Governo aguarda "melhor momento" para reunião na Casa Branca; além disso, monitora eventuais tensões entre integrantes do grupo de cooperação do Sul Global

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Hariane Bittencourt
03/03/2026, 16:37 • Atualizado em 03/03/2026, 16:44
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Encontro entre Trump e Lula na Malásia | Divulgação/Ricardo Stuckert/PR

Encontro entre Trump e Lula na Malásia | Divulgação/Ricardo Stuckert/PR

O governo brasileiro ainda espera que a reunião entre os presidente Lula (PT) e Donald Trump, em Washington, aconteça na segunda quinzena de março. Apesar disso, fontes avaliam que eventuais atrasos no calendário inicialmente previsto podem não necessariamente significar um problema. Isso porque, para o Brasil, não interessa que o encontro "perca importância" diante da escalada militar no Oriente Médio.

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Assessores do presidente consideram que ir aos Estados Unidos em um contexto de agravamento das tensões, quando Trump se debruça sobre outras questões externas, pode atrapalhar as negociações e dificultar conversas sobre as prioridades brasileiras: reversão do tarifaço, cooperação no combate ao crime organizado e temas que envolvem diretamente a relação Brasil-EUA.

Também está descartada, em definitivo, a participação do Brasil no Conselho da Paz de Donald Trump. Isso deve ser comunicado ao republicano quando a reunião na Casa Branca acontecer.

Neste momento, diplomatas consideram haver mais argumentos para que o governo brasileiro dê um "não diplomático" a Trump, diante da contradição do governo americano que, ao mesmo tempo em que propõe uma mobilização global pela paz em Gaza, inicia um novo conflito no Irã com amplo potencial de espalhamento.

O governo brasileiro monitora, ainda, a possibilidade de haver um conflito, no contexto das tensões no Oriente Médio, entre membros do Brics. O mecanismo de cooperação entre países do Sul Global — que não chega a ser um bloco, como o Mercosul — é composto por onze membros plenos: África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Índia, Irã e Rússia.

O que pode estar na iminência de acontecer é um eventual revide dos Emirados Árabes Unidos aos ataques do Irã, que nos últimos dias mirou bases militares americanas mas acabou atingindo centros urbanos e até mesmo o Aeroporto Internacional de Zayed, em Abu Dhabi, deixando vítimas.

Em outra frente, o Palácio do Planalto avalia que Lula não tem a intenção de se colocar como mediador do conflito que começou envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Ocorre que, ao contrário do que houve na Venezuela — quando Nicolás Maduro foi capturado e a Casa Branca manteve interlocução com a presidente interina, Delcy Rodriguez — o cenário no Irã é outro.

Para além da distância geográfica entre o Brasil e o Oriente Médio, o atual afastamento entre o país sul-americano e Israel, onde Lula é considerado persona non grata desde 2024, contribuem para uma "ausência de ambiente" para qualquer oferta de mediação. Isso não quer dizer, no entanto, que o governo brasileiro vai recuar na condenação aos ataques ou deixar de conclamar as partes em favor do diálogo e da paz.

Conflito entre membros do Brics

Caso um ataque dos Emirados Árabes Unidos contra o Irã se concretize, acreditam fontes, não haveria risco imediato à existência do Brics. No entanto, poderia ser aberto um espaço maior de divergência interna, o que demandaria cautela para que as articulações entre os países-membros não fossem prejudicadas.

Uma reunião de emergência do Brics, neste momento, está descartada. Mas, internamente, a ideia é adotar cautela para evitar que haja um enfraquecimento do sistema de cooperação do grupo, que tem como objetivos principais a reforma da governança global e o aumento da influência de países emergentes.

Na semana passada, em visita de trabalho a Abu Dhabi, Lula e o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed Al Nahyan, "trocaram opiniões sobre os desenvolvimentos regionais e internacionais de interesse mútuo, bem como sobre seus esforços conjuntos para apoiar a paz e a estabilidade no Oriente Médio e globalmente", conforme nota divulgada pelo Palácio do Planalto.

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