Política

Após críticas de Milei ao Mercosul, Lula diz que pertencer ao bloco "protege" países integrantes

Presidente argentino fala em "caminho da liberdade acompanhados ou sozinhos"; brasileiro afirma que Tarifa Externa Comum "nos blinda contra guerras comerciais"

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Felipe Moraes
03/07/2025, 15:28 • Atualizado em 04/07/2025, 00:51
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu importância do Mercosul para países integrantes em discurso nesta quinta-feira (3), durante a 66ª cúpula do bloco, realizada em Buenos Aires. A fala contrastou com pronunciamento do presidente da Argentina, Javier Milei, que fez críticas e falou em buscar "caminho da liberdade acompanhados ou sozinhos".

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O Brasil recebeu da Argentina a presidência temporária do Mercosul, que deve durar seis meses. É a primeira visita de Lula ao país vizinho desde a posse de Milei, no fim de 2023. Ainda não há encontro bilateral previsto entre eles, que costumam externar visões políticas e econômicas antagônicas.

Lula afirmou que "quando o mundo se mostra instável e ameaçador, é natural buscar refúgio onde nos sentimos seguros". "Para o Brasil, o Mercosul é esse lugar", disse.

"Ao longo de mais de três décadas, erguemos uma casa com bases sólidas, capaz de resistir à força das intempéries. Conseguimos criar uma rede de acordos que se estendeu aos Estados associados. Toda a América do Sul se tornou uma área de livre comércio, baseada em regras claras e equilibradas. Estar no Mercosul nos protege", continuou.
Presidentes de países do Mercosul em encontro do bloco na Argentina | Divulgação/Ricardo Stuckert/PR
Presidentes de países do Mercosul em encontro do bloco na Argentina | Divulgação/Ricardo Stuckert/PR

O presidente brasileiro citou como exemplo a Tarifa Externa Comum (TEC), que "nos blinda contra guerras comerciais alheias". "Nossa robustez institucional nos credencia perante o mundo como parceiros confiáveis. Não é à toa que um número cada vez maior de países e blocos estejam interessados em se aproximar de nós", declarou.

Milei, que discursou antes, foi em sentido contrário ao de Lula. Pediu "liberdade comercial" e criticou barreiras de proteção e limitação criadas pelo Mercosul que acabaram excluindo países do bloco "do comércio e da competição globais".

O argentino ainda afirmou que países do Mercosul precisam parar de ver o bloco "como escudo que nos protege do mundo" e tratá-lo como "uma lança" para entrar em outros mercados. "Vamos embarcar no caminho da liberdade acompanhados ou sozinhos", avisou.

Lula divergiu e citou desafio de "resguardar nosso espaço de autonomia em um contexto cada vez mais polarizado". Disse considerar necessária a reativação do Fórum Empresarial do Mercosul para "oferecer maior apoio a pequenas e médias empresas" porque "não se constrói prosperidade apenas com grandes negócios".

Acordos comerciais, combate ao crime organizado e à mudança do clima: pontos do discurso de Lula

Lula afirmou estar confiante que o Mercosul, sob presidência do Brasil, conseguirá assinar acordos com a União Europeia e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), "criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo". Entre diversas regiões citadas, destacou que "é hora" de o bloco "olhar para a Ásia, centro dinâmico da economia mundial".

Lula pediu que países de bloco deem atenção ao enfrentamento da mudança do clima e à transição energética. "As consequências do aquecimento global já se fazem sentir no Cone Sul. A região sofre com estiagens e enchentes que causam perdas humanas, destruição de infraestrutura e quebras de safra. A realidade está se movendo mais rápido que o Acordo de Paris, expondo a falácia do negacionismo climático", apontou.

O presidente brasileiro disse que o Brasil reduzirá emissões entre 59% e 67% até 2035 "em todos os setores econômicos". A COP30 em Belém, no mês de novembro, segundo o petista, dará "chance de mostrar ao mundo as soluções que vêm da América do Sul".

Para Lula, a ampliação do Mercosul "é nossa melhor plataforma para aproximar e coordenar políticas nacionais". O mandatário criticou concentração de tecnologia "nas mãos de um pequeno número de pessoas e de empresas, sediadas em um número ainda menor de países". E pediu mais desenvolvimento local para que a região alcance "soberania digital".

O petista ainda citou desafios como saúde e combate ao crime organizado, declarando que "não venceremos essas verdadeiras multinacionais do crime sem atuar de forma coordenada". Ao citar um tema caro a ele, a luta contra desigualdades sociais, Lula pediu fortalecimento do Instituto de Políticas Públicas de Direitos Humanos e do Instituto Social do Mercosul.

Nesse sentido, disse que "a força das nossas democracias depende do diálogo e do respeito à pluralidade" e lamentou perda de "duas grandes referências do Cone Sul" desde a última cúpula, em Montevidéu: Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, e papa Francisco.

Em novo e breve discurso, no encerramento da cúpula, Lula afirmou que o Brasil, no comando do bloco, se compromete a "retomar e aprofundar" temas discutidos durante gestão argentina do Mercosul. "Estudaremos com afinco a possibilidade de criar uma agência contra a criminalidade organizada transnacional, como proposto pela Argentina", falou.

"A exploração unilateral de recursos naturais nas Malvinas, que condenamos hoje, sinaliza que a América do Sul não permanecerá à parte na corrida global por fontes de energia. Precisamos enfrentá-la unidos. Como disse na reunião do Foro Celac-China, em Pequim, cabe somente a nós mesmos decidir se seremos grandes ou pequenos. Temos tudo para desempenhar um grande papel na construção de um mundo mais justo e sustentável", concluiu.

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