Seleção Brasileira desperta paixão em Bangladesh; entenda
Vídeos virais mostram torcida a favor do Brasil na Ásia e em diferentes países; especialistas apontam fatores para explicar paixão
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Murillo Otavio, Caroline Vale
05/07/2026, 12:00 • Atualizado em 05/07/2026, 12:00
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Torcida da Seleção Brasileira em Bangladesh. | Reprodução/Instagram/Atique Enam
À medida que a Seleção Brasileira avança na Copa do Mundo de 2026, a timeline dos brasileiros é inundada por vídeos virais de torcedores da amarelinha em diferentes partes do mundo. Bangladesh, Jamaica, Índia, Indonésia e Angola são alguns dos países que vivem na expectativa pelo hexa.
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Os registros com milhões de visualizações mostram verde e amarelo por toda parte: na decoração das ruas e vestindo uma legião de pessoas que aparecem reunidas para assistir às partidas. Parte desses vídeos foram gravados em Bangladesh, país no Sul da Ásia, e publicados por Atique Enam, de 26 anos, criador de conteúdo bengalês.
Ao SBT News, o bangalês diz que nunca esteve no Brasil, mas que o amor pela Seleção passou de geração em geração em sua família. “Durante a Copa do Mundo, nós vivemos como se fosse um festival. Nos reunimos para assistir aos jogos em ruas, restaurantes, terraços, campos abertos e diante de grandes telões públicos. Os jogos aqui são transmitidos às 3h e às 4h da manhã. E, mesmo assim, assistimos às partidas. Imagine um jogo às 4h da manhã e milhares de pessoas reunidas”, destaca o jovem, morador da capital Daca.
Por muito tempo, o Brasil foi considerado a maior potência das Copas do Mundo. Afinal, nenhuma outra seleção é pentacampeã. No entanto, os anos sem títulos e o desempenho abaixo da média reduziram esse protagonismo. Ainda assim, milhares de pessoas continuam apaixonadas pela amarelinha.
Para especialistas ouvidos pelo SBT News, esse fenômeno vai muito além do sucesso dentro das quatro linhas e envolve fatores históricos, culturais e socioeconômicos.
O ponto de partida para entender esse carinho passa pelo maior jogador de todos os tempos: Edson Arantes do Nascimento, o Pelé (1940-2022). É verdade que o craque deixou os gramados há muito tempo, mas o impacto de seus feitos continua a ecoar por gerações.
É o que explica a coordenadora do Grupo de Estudos Olímpicos da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), Katia Rubio. Para ela, a Copa do Mundo é um "grande fenômeno sociocultural", e boa parte do prestígio que o Brasil conquistou na competição está ligada ao legado de Pelé.
Em Bangladesh, por exemplo, a influência de Pelé na cultura local começou nos anos 1970, quando a Copa do Mundo passou a ser transmitida pela televisão. Milhões de pessoas passaram a admirar o atleta por sua qualidade técnica e por seus feitos inéditos no futebol.
O impacto de Pelé foi tão grande que seu nome ficou associado a uma trégua durante a Guerra Civil da Nigéria. Em excursão com o Santos, o craque atraiu a atenção de milhares de pessoas e protagonizou um episódio que entrou para a história.
Professor da USP e escritor, Fábio Luis reforça que a admiração pelo futebol brasileiro, sobretudo por Pelé, passa pelo aspecto simbólico construído em torno do futebol apresentado pela Seleção. “Tem relação com a potência e a estética lúdica do futebol brasileiro”, diz. Para ele, criou-se um imaginário de um futebol subversivo e criativo, diferente de tudo o que havia sido visto até então.
“É isso que sustenta esse carinho. Internacionalmente, o Brasil não é reconhecido apenas pelo futebol, mas também pela festa. Nossos símbolos são o carnaval e a música. No fim das contas, todo esse simbolismo se reúne em uma admiração comum”, afirma.
Pelé abraçando Jairzinho durante a Copa de 1970. | Divulgação/FIFA
Ao longo dos anos, outros ídolos brasileiros cativaram a torcida estrangeira. Atique conta que se apaixonou pela Seleção ainda criança e que a Copa de 2010 marcou o início dessa relação. Primeiro, tornou-se fã de Kaká. Depois, encontrou em Neymar seu maior ídolo. Para ele, a Copa de 2014 continua sendo a mais inesquecível justamente por ter visto o camisa 10 disputar seu primeiro Mundial.
Fator sociocultural e colonial
Outros aspectos que contribuem para esse carinho pela Seleção são a falta de poder aquisitivo e o passado colonial. Normalmente, essa torcida pela Seleção é observada em países do Sul Global, marcados por deficiências estruturais e elevada desigualdade social.
“O Brasil é parecido com eles [Bangladesh, Jamaica, Angola, entre outros]. É um país do Sul Global, pobre, desigual e racializado. Por isso, há uma espécie de identificação compensatória. O Brasil foi vítima de um passado colonial”, diz Fábio Luis.
Katia Rubio concorda com a análise e acredita que o Brasil desperta identificação por também ter sido uma colônia e, ao mesmo tempo, ter se tornado uma potência do futebol mundial. “Quando o Brasil, que também foi colônia de Portugal, se sobressai, e além de tudo é um futebol adorável pela criatividade, pela sua irreverência, isso também cativa e cria um vínculo ainda mais forte entre essas seleções e essas nações”, afirmou.
O professor Fábio Luis entende que essa população quer participar da grande festa mundial que é a Copa do Mundo. Como não dispõe de condições econômicas para formar uma seleção competitiva, o imaginário desses torcedores é preenchido pela simbologia que o Brasil carrega. “Isso remete à ideia de um mundo organizado pela poesia, e não pelo poder econômico”, afirma.
O criador de conteúdo bangalês deixa isso claro ao destacar que, como Bangladesh não disputa a Copa, ele escolheu uma delegação para apoiar: “Os jovens assistem aos jogos, gostam do estilo ofensivo e do jeito de jogar do Brasil e acabam torcendo pela seleção. Essa tradição passa de geração em geração.”
Atique Enam é criador de conteúdo de Bangladesh apaixonado pela Seleção. | Acervo pessoal
Futebol une nações
Segundo a professora, o caso da Seleção Brasileira ilustra como o esporte é capaz de construir vínculos entre povos separados por milhares de quilômetros.
“Essa relação dos torcedores com o Brasil e com a Seleção Brasileira mostra o poder que o esporte tem de atravessar fronteiras como uma linguagem universal”, destaca.
Ainda em Bangladesh, quando a Seleção vence, as comemorações tomam conta das cidades. “Há fogos de artifício, gritos de apoio ao Brasil, carreatas e muito mais”, relata Atique. Já nas derrotas, o clima muda completamente. “Nós ficamos muito tristes. Algumas pessoas choram. Evitamos as redes sociais, não queremos conversar com ninguém e preferimos ficar isolados.”
Torcida da Seleção Brasileira em Bangladesh. | Acervo pessoal
Apesar da distância geográfica, o jovem garante que a torcida permanece fiel. “Independentemente de o Brasil ganhar ou perder, continuaremos torcendo."
"Talvez nossa língua e nossa cultura sejam diferentes, mas o futebol é o que nos une. Os brasileiros deveriam lembrar que têm outra família em outra parte do mundo”, completa.
Seleção Brasileira desperta paixão em Bangladesh; entendaVídeos virais mostram torcida a favor do Brasil na Ásia e em diferentes países; especialistas apontam fatores para explicar paixãoMundo2026-07-05T12:00:00.000ZÀ medida que a Seleção Brasileira avança na Copa do Mundo de 2026, a timeline dos brasileiros é inundada por vídeos virais de torcedores da amarelinha em diferentes partes do mundo. Bangladesh, Jamaica, Índia, Indonésia e Angola são alguns dos países que vivem na expectativa pelo . Os registros com milhões de visualizações mostram verde e amarelo por toda parte: na decoração das ruas e vestindo uma legião de pessoas que aparecem reunidas para assistir às partidas. Parte desses vídeos foram gravados em Bangladesh, país no Sul da Ásia, e publicados por Atique Enam, de 26 anos, criador de conteúdo bengalês. Ao SBT News, o bangalês diz que nunca esteve no Brasil, mas que o amor pela Seleção passou de geração em geração em sua família. “Durante a Copa do Mundo, nós vivemos como se fosse um festival. Nos reunimos para assistir aos jogos em ruas, restaurantes, terraços, campos abertos e diante de grandes telões públicos. Os jogos aqui são transmitidos às 3h e às 4h da manhã. E, mesmo assim, assistimos às partidas. Imagine um jogo às 4h da manhã e milhares de pessoas reunidas”, destaca o jovem, morador da capital Daca. Por muito tempo, o Brasil foi considerado a maior potência das Copas do Mundo. Afinal, nenhuma outra seleção é pentacampeã. No entanto, os anos sem títulos e o desempenho abaixo da média reduziram esse protagonismo. Ainda assim, milhares de pessoas continuam apaixonadas pela amarelinha. Para especialistas ouvidos pelo SBT News, esse fenômeno vai muito além do sucesso dentro das quatro linhas e envolve fatores históricos, culturais e socioeconômicos. Admiração por Pelé O ponto de partida para entender esse carinho passa pelo maior jogador de todos os tempos: Edson Arantes do Nascimento, o . É verdade que o craque deixou os gramados há muito tempo, mas o impacto de seus feitos continua a ecoar por gerações. É o que explica a coordenadora do Grupo de Estudos Olímpicos da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), Katia Rubio. Para ela, a Copa do Mundo é um "grande fenômeno sociocultural", e boa parte do prestígio que o Brasil conquistou na competição está ligada ao legado de Pelé. Em Bangladesh, por exemplo, a influência de Pelé na cultura local começou nos anos 1970, quando a Copa do Mundo passou a ser transmitida pela televisão. Milhões de pessoas passaram a admirar o atleta por sua qualidade técnica e por seus feitos inéditos no futebol. O impacto de Pelé foi tão grande que seu nome ficou associado a uma trégua durante a Guerra Civil da Nigéria. Em excursão com o Santos, o craque atraiu a atenção de milhares de pessoas e protagonizou um episódio que entrou para a história. Professor da USP e escritor, Fábio Luis reforça que a admiração pelo futebol brasileiro, sobretudo por Pelé, passa pelo aspecto simbólico construído em torno do futebol apresentado pela Seleção. “Tem relação com a potência e a estética lúdica do futebol brasileiro”, diz. Para ele, criou-se um imaginário de um futebol subversivo e criativo, diferente de tudo o que havia sido visto até então. “É isso que sustenta esse carinho. Internacionalmente, o Brasil não é reconhecido apenas pelo futebol, mas também pela festa. Nossos símbolos são o carnaval e a música. No fim das contas, todo esse simbolismo se reúne em uma admiração comum”, afirma. Ao longo dos anos, outros ídolos brasileiros cativaram a torcida estrangeira. Atique conta que se apaixonou pela Seleção ainda criança e que a Copa de 2010 marcou o início dessa relação. Primeiro, tornou-se fã de Kaká. Depois, encontrou em seu maior ídolo. Para ele, a Copa de 2014 continua sendo a mais inesquecível justamente por ter visto o camisa 10 disputar seu primeiro Mundial. Fator sociocultural e colonial Outros aspectos que contribuem para esse carinho pela Seleção são a falta de poder aquisitivo e o passado colonial. Normalmente, essa torcida pela Seleção é observada em países do Sul Global, marcados por deficiências estruturais e elevada desigualdade social. “O Brasil é parecido com eles [Bangladesh, Jamaica, , entre outros]. É um país do Sul Global, pobre, desigual e racializado. Por isso, há uma espécie de identificação compensatória. O Brasil foi vítima de um passado colonial”, diz Fábio Luis. Katia Rubio concorda com a análise e acredita que o Brasil desperta identificação por também ter sido uma colônia e, ao mesmo tempo, ter se tornado uma potência do futebol mundial. “Quando o Brasil, que também foi colônia de Portugal, se sobressai, e além de tudo é um futebol adorável pela criatividade, pela sua irreverência, isso também cativa e cria um vínculo ainda mais forte entre essas seleções e essas nações”, afirmou. O professor Fábio Luis entende que essa população quer participar da grande festa mundial que é a Copa do Mundo. Como não dispõe de condições econômicas para formar uma seleção competitiva, o imaginário desses torcedores é preenchido pela simbologia que o Brasil carrega. “Isso remete à ideia de um mundo organizado pela poesia, e não pelo poder econômico”, afirma. O criador de conteúdo bangalês deixa isso claro ao destacar que, como Bangladesh não disputa a Copa, ele escolheu uma delegação para apoiar: “Os jovens assistem aos jogos, gostam do estilo ofensivo e do jeito de jogar do Brasil e acabam torcendo pela seleção. Essa tradição passa de geração em geração.” Futebol une nações Segundo a professora, o caso da Seleção Brasileira ilustra como o esporte é capaz de construir vínculos entre povos separados por milhares de quilômetros. “Essa relação dos torcedores com o Brasil e com a Seleção Brasileira mostra o poder que o esporte tem de atravessar fronteiras como uma linguagem universal”, destaca. Ainda em , quando a Seleção vence, as comemorações tomam conta das cidades. “Há fogos de artifício, gritos de apoio ao Brasil, carreatas e muito mais”, relata Atique. Já nas derrotas, o clima muda completamente. “Nós ficamos muito tristes. Algumas pessoas choram. Evitamos as redes sociais, não queremos conversar com ninguém e preferimos ficar isolados.” Apesar da distância geográfica, o jovem garante que a torcida permanece fiel. “Independentemente de o Brasil ganhar ou perder, continuaremos torcendo." "Talvez nossa língua e nossa cultura sejam diferentes, mas o futebol é o que nos une. Os brasileiros deveriam lembrar que têm outra família em outra parte do mundo”, completa. São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/mundo/selecao-brasileira-desperta-paixao-em-bangladesh-entenda
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