Entenda: por que acordo UE–Índia não enfrenta os protestos que marcaram o tratado com Mercosul?
Acordo de livre comércio avança com baixa resistência política na Europa e deve criar um mercado de quase 2 bilhões de consumidores


Giovanna Colossi
A União Europeia e a Índia anunciaram nesta terça-feira (27) a conclusão das negociações para um acordo de livre comércio, classificado como a “mãe de todos os acordos” pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Assim como o tratado Mercosul–União Europeia — assinado após 26 anos de negociações —, o acordo entre UE e Índia também passou mais de uma década travado. As conversas foram retomadas em 2022 e ganharam ritmo em 2025, em meio ao aumento das tensões comerciais globais e às tarifas impostas pelos Estados Unidos, principal parceiro comercial do bloco europeu.
Apesar das semelhanças no histórico, a recepção política foi bastante diferente. Enquanto o acordo com o Mercosul, que reúne cerca de 720 milhões de pessoas e responde por um Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 22 trilhões, enfrenta forte resistência interna na Europa, o tratado com a Índia, país mais populoso do mundo, avançou com poucas manifestações contrárias entre os 27 países-membros da União Europeia.
Mas o que explica reações tão distintas a dois acordos de livre comércio negociados pelo mesmo bloco?
Para Tomaz Esposito Neto, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados, há uma combinação de fatores. Um dos principais é a “complementaridade econômica” entre a Índia e a União Europeia.
“A Índia é muito forte no setor de serviços, não tem um setor agrícola desenvolvido, é uma grande exportadora de vários produtos, tem enormes cotas de subsídio (a agricultores), como a União Europeia, e do outro lado, a União Europeia é exportadora de produtos industriais de alto valor agregado.”, observou.
A iniciativa deve abranger quase um quarto do PIB global e criar um mercado consumidor de quase 2 bilhões de pessoas. Na prática, o acordo abre caminho para a redução de tarifas sobre carros e vinhos europeus na Índia, ao mesmo tempo em que amplia o acesso de produtos indianos — como eletrônicos, têxteis e químicos — ao mercado europeu.
Os setores afetados também ajudam a explicar a menor resistência política, segundo Esposito. Diferentemente do acordo Mercosul–União Europeia, que encontrou forte oposição de agricultores europeus — grupo altamente organizado e vocal, capaz de travar o processo —, o tratado com a Índia impacta setores menos mobilizados politicamente.
“É um jogo de ganha-ganha muito importante. Existia certo ceticismo em algumas áreas, mas não atinge grupos tão vocais, né? O setor de químicos e farmacêutico, por exemplo, tem uma presença muito grande de multinacionais europeias na Índia. Por outro lado, o setor mais vocal contrário ao livre comércio, que é o agronegócio, tanto indiano quanto europeu, se sente complementado com isso”, disse.
O acordo com a Índia também se insere em uma estratégia mais ampla da União Europeia de diversificação de parceiros, especialmente após a assinatura do tratado com o Mercosul. Para além da economia, o pacto reforça o papel da Índia como um contrapeso geopolítico à Rússia e à China na Ásia, avaliou Esposito, destacando ainda que os dolis lados devem assinar um pacto de segurança e defesa. O terceiro do bloco na Ásia, depois dos acordos com a Coreia do Sul e o Japão.
“A Índia é um enorme exportador de softwares. Tem um setor de serviços muito avançado. E está explorando um programa espacial tão avançado quanto o chinês, por exemplo.”, afirmou e completou:
“Existe uma série de convergências ali que valem a pena e a Índia é um dos 10 países que a União Europeia considera como parceiro estratégico.”








