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O que está por trás dos protestos de estudantes na França

Manifestantes começaram mobilização em setembro e cobram melhorias no ensino; ineficiência no controle e cenário político abalam Macron

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Murillo Otavio
Protesto França - Reprodução/Redes

Protesto França - Reprodução/Redes

Milhares de estudantes estão à frente da onda de manifestações que toma parte da França desde meados de setembro. Professores, pais e sindicalistas fortalecem o movimento, que cobra melhores condições de ensino no país. Em resposta, o governo francês tem adotado medidas para tentar conter os protestos. Nesta quarta-feira (7), o governo suspendeu o uso de bombas de efeito moral após casos de violência e confrontos entre policiais e manifestantes.

Esta tem sido a semana de maior movimento nas ruas francesas. Na terça-feira (6), mais de 250 mil pessoas protestaram em Paris e em outras partes do país. O movimento estudantil começou em Créteil, nos subúrbios do sudeste de Paris, e ganhou força nacional.

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Jovens de diferentes regiões da França aderiram ao movimento e passaram a exigir medidas do governo diante dos problemas estruturais do ensino francês, como cortes de investimentos, falta de estrutura nas escolas, atraso de salários e ausência de um plano de melhoria.

Segundo dados oficiais, mais de 5.060 pessoas foram detidas, 87% delas menores de idade. Ao todo, 170 estudantes, 78 funcionários e mais de 700 policiais ficaram feridos.

Com o caos instalado no país, o presidente da França, Emmanuel Macron, convocou ministros ao Palácio do Eliseu para uma reunião na terça-feira, com o objetivo de definir novas ações para tentar reduzir a intensidade dos protestos. Além disso, o governo trabalha para abrir canais de diálogo com representantes dos movimentos que organizam as manifestações. Até o momento, sem sucesso.

Maurício Fronzaglia, professor de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudou na França e avalia que este é um dos momentos mais tensos para Macron, levando em consideração a proximidade das próximas eleições.

“Ano que vem tem eleição na França e Emmanuel Macron tem sido alvo da extrema direita e parte da esquerda por não conseguir efetivar seu plano de governo”, detalha Fronzaglia.

Como exemplo, o professor cita o primeiro-ministro da França Sébastien Lecornu, que não tem conseguido avançar nos projetos de Macron.

Manifestação França /ReproduçãoRedes
Manifestação França /ReproduçãoRedes

Ensino sucateado

Os primeiros estudantes insatisfeitos se mobilizaram em Créteil, nos subúrbios do sudeste de Paris, em 17 de setembro, para exigir mais recursos para a educação. Alunos de diferentes regiões da França aderiram ao movimento e passaram a cobrar medidas do governo.

Os estudantes reivindicam condições básicas dos prédios escolares, como a falta de carteiras e de saneamento básico, além de exigirem melhores salários para os professores.

Com a escalada das manifestações, o governo resolveu suspender as aulas e determinou o fechamento de boa parte das unidades escolares. O governo entendeu que a dimensão e a violência dos protestos impuseram condições inadequadas para o funcionamento escolar.

Embora muitas manifestações tenham sido pacíficas, outras foram marcadas por tumultos e confrontos com a polícia. Em toda a França, diversos estabelecimentos foram danificados, incendiados e saqueados. Em alguns casos, vândalos se infiltraram nas marchas. Em um dos episódios de violência, um jovem teve a mão amputada após manusear um material explosivo durante os protestos.

Em Tours, no centro da França, a família de um estudante de 16 anos apresentou uma queixa no domingo (4), alegando brutalidade policial, depois que o jovem perdeu a visão do olho direito nos dias anteriores.

Sindicatos e grupos de direitos humanos acusaram a polícia de usar força desnecessária contra os jovens manifestantes nos últimos dias. A Anistia Internacional afirmou que as autoridades francesas deveriam “pôr fim à repressão policial desproporcional”.

Na manifestação de terça-feira, em Paris, estudantes ergueram sinalizadores e cartazes com slogans como “sob nossos livros didáticos, raiva”, em uma referência ao famoso lema “sob os paralelepípedos, a praia”, utilizado nos protestos estudantis de maio de 1968. Outros cartazes traziam a frase “escolas sem dinheiro = país sem futuro”.

Maurício Fronzaglia lembra que a manifestação dos anos 1960, conhecida como “Maio de 1968”, causou “profundas mudanças comportamentais para a sociedade francesa e foi um evento traumático para a sociedade”.

Assim como nos dias atuais, ainda segundo o professor, durante um mês, “os estudantes tomaram Paris e quase transformaram Paris numa cidade rebelde, e o governo, na época do general De Gaulle, um grande herói nacional, teve muita dificuldade para conduzir essa situação”, afirmou.

O que dizem as autoridades

O governo francês corre contra o tempo para tentar conter os protestos e apresentar um plano de medidas para melhorar o ensino no país. As manifestações se tornaram um ponto crítico para Macron em um momento delicado.

A começar pelo orçamento para a educação, que deverá aumentar 1,7%, abaixo da inflação, para € 65,53 bilhões, excluindo as pensões dos professores.

O ministro da Educação, Édouard Geffray, afirmou que a educação continua sendo uma prioridade e que o aumento do orçamento, abaixo da inflação, ocorre em razão do declínio populacional.

Além disso, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, braço direito de Emmanuel Macron, anunciou um plano de ação de cinco pontos, que incluem a melhoria da infraestrutura em parceria com as autoridades locais, melhor organização dos dias letivos e mais transparência na plataforma francesa de inscrição em universidades.

Ainda assim, as medidas parecem não alterar o cenário do ensino público, que está em alerta. Segundo a agência Reuters, alguns especialistas atribuem a queda nas notas da França no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) da OCDE às precárias condições de aprendizagem. Segundo o ranking, as notas da França caíram mais rapidamente do que a média da OCDE desde 2015.

Em leitura, os jovens franceses de 15 anos, idade em que começam o ensino médio, obtiveram uma pontuação 43 pontos inferior em 2025 em comparação com uma década antes, a maior queda entre os países da OCDE. Suas pontuações em matemática também foram as que mais caíram.

Diante do baixo desempenho escolar e da persistência das tensões, líderes políticos passaram a aproveitar as reivindicações dos estudantes e a buscar soluções para os distúrbios.

A esquerda radical se mobilizou particularmente em apoio ao movimento. Jean-Luc Mélenchon, líder do partido La France Insoumise (A França Insubmissa), declarou na quinta-feira: “Queremos que a juventude deste país saia deste episódio de cabeça erguida, tendo conquistado e aprendido algo”.

Críticos acusam Mélenchon e seu partido de galvanizar e explorar a mobilização juvenil para fins políticos. O líder da La France Insoumise, por sua vez, afirma que a legenda apoia o movimento sem organizá-lo e que deseja que os protestos permaneçam não violentos.

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