China já está se abrindo a negócios, mas não do jeito que Trump quer, diz especialista
Pedido por abertura foi feito pelo presidente dos EUA a Xi Jinping, durante encontro dos líderes na China

Sofia Pilagallo
A China já está se abrindo a negócios internacionais, mas não da forma como Donald Trump gostaria. A avaliação é de Theo Paul Santana, especialista em negócios China/Brasil e fundador do Destino China.
O presidente americano esteve reunido com o líder Xi Jinping na quarta-feira (13), em viagem à China, e reiterou o que havia publicado em suas redes sociais: que o páis asiático se "abra" para ajudar a elevar o "nível" da República Popular.
Segundo Santana, quando o presidente dos Estados Unidos fala em "abrir" o país, ele se refere principalmente a maior acesso para empresas norte-americanas em áreas como tecnologia, serviços financeiros, plataformas digitais e propriedade intelectual. O movimento interno chinês, porém, segue outra direção.
"Pedirei ao presidente Xi, um líder de extraordinária distinção, que 'abra' a China para que essas pessoas brilhantes possam fazer sua mágica e ajudar a levar a República Popular a um nível ainda mais alto!", escreveu Trump, em referência aos CEOs de empresas americanas que o acompanham na viagem.
Segundo Santana, a China quer ampliar o consumo interno, mas isso não significa abrir espaço automaticamente para empresas ocidentais. O foco de Pequim hoje é reduzir a dependência de exportações e de investimentos pesados em infraestrutura, ao mesmo tempo em que fortalece renda, consumo, indústria tecnológica e seus próprios campeões nacionais.
Atualmente, o consumo das famílias representa cerca de 40% do PIB chinês — percentual considerado baixo para o tamanho da economia do país. Em comparação com os EUA, por exemplo, o consumo das famílias tem peso muito maior e funciona como principal motor da atividade econômica.
"Por isso, o novo plano econômico busca estimular renda, serviços, saúde, previdência e consumo doméstico", afirma Santana. Segundo ele, o governo chinês quer fazer a população consumir mais, mas priorizando empresas nacionais. "A tendência é que a China fortaleça companhias chinesas, e não necessariamente americanas, para atender essa nova demanda."
A mudança já aparece nos números. Em 2017, os Estados Unidos representavam cerca de 19% das exportações chinesas, segundo a plataforma WITS (World Integrated Trade Solution). Em 2025, essa participação caiu para perto de 10%. Paralelamente, a China ampliou suas relações comerciais com ASEAN, América Latina, Oriente Médio e África.
A própria economia chinesa mudou de perfil. O país praticamente dobrou o PIB nominal desde 2017, saindo de cerca de US$ 12 trilhões para uma projeção próxima de US$ 20 trilhões em 2026, além de consolidar liderança em setores estratégicos como veículos elétricos, baterias e energia solar. Hoje, cerca de 70% da cadeia global de baterias para veículos elétricos está concentrada na China.
Essa transformação não aconteceu por acaso. Durante décadas, o crescimento chinês foi sustentado por exportações, expansão imobiliária, grandes obras de infraestrutura e investimentos industriais em larga escala. Agora, Pequim avalia que a dependência excessiva das vendas externas deixa o país mais vulnerável a guerras comerciais, desaceleração global e tarifas.
Além disso, boa parte da competitividade chinesa vinha do baixo custo da mão de obra. Muitas empresas produziam no país porque fabricar ali era barato. Hoje, porém, a China já não depende apenas disso: desenvolveu tecnologia própria, criou gigantes nacionais e avançou em setores de alto valor agregado.
Brasil pode se beneficiar dessa mudança
De acordo com Santana, a China deixou de ser apenas uma plataforma de produção barata para empresas estrangeiras e passou a ocupar posições centrais em setores estratégicos da economia do futuro. O país hoje lidera áreas como veículos elétricos, baterias, energia solar, manufatura avançada e inteligência artificial.
Para o especialista, o consumidor chinês de maior renda valoriza atributos como rastreabilidade, qualidade, sustentabilidade e bem-estar — características nas quais o Brasil pode construir uma diferenciação competitiva relevante. Nesse cenário, a transformação do consumo chinês pode representar uma das maiores oportunidades econômicas para o Brasil na próxima década.
A demanda já aparece em números expressivos. Em 2025, a China importou cerca de US$ 8,9 bilhões (R$ 44,5 bilhões) em carne bovina brasileira. No setor cafeeiro, o acordo firmado entre a rede chinesa Luckin Coffee e exportadores brasileiros prevê compras próximas de US$ 1,4 bilhão (R$ 7 bilhões) até 2029.
"O próximo ciclo de crescimento tende a ser impulsionado por produtos premium e pelo consumo sofisticado da classe média chinesa", diz. "Alimentos saudáveis, suplementos, cosméticos naturais, própolis, mel, produtos amazônicos e turismo também apresentam forte potencial de crescimento."









