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Cessar-fogo na Faixa de Gaza está próximo? O que dizem especialistas sobre plano Trump

Apesar de encorajadora, proposta ainda será debatida por delegações do Hamas e Israel

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Camila Stucaluc, Giovanna Colossi
07/10/2025, 08:15 • Atualizado em 07/10/2025, 12:51
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Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | White House

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | White House

Delegações de Israel e do grupo extremista Hamas se reúnem nesta semana, no Egito, para debater um acordo de paz na Faixa de Gaza. A proposta em análise foi apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem pressionando ambas as partes por um cessar-fogo.

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Segundo a Casa Branca, o acordo engloba 20 pontos, entre eles, a libertação dos 48 reféns ainda mantidos pelo Hamas, vivos e mortos, em troca de 250 palestinos condenados e 1.700 detidos em Israel. O texto também inclui a desmilitarização de Gaza e a entrada de ajuda humanitária na região, incluindo a reconstrução de infraestrutura.

É proposto ainda que, enquanto um novo governo não é firmado, o enclave palestino será administrado por uma gestão internacional temporário, chamado de “Conselho da Paz”, chefiada por Trump e outros líderes e ex-chefes de Estado, e composto por palestinos qualificados. O Hamas, por outro lado, não terá participação no governo.

Outros pontos do acordo incluem:

  • a criação de um plano de desenvolvimento para reconstruir e revitalizar Gaza;
  • o estabelecimento de uma zona econômica especial com tarifas preferenciais e taxas de acesso negociadas;
  • a garantia de segurança por parceiros regionais, que deverão impedir o Hamas e outras facções de descumprirem os termos do acordo.

Fernando Brancolli, professor de Geopolítica do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), classifica o plano de Trump como o mais “potente” dentre as propostas já apresentadas para acabar com a guerra. Isso porque o acordo traz pontos de propostas anteriores, apresentadas por Catar, Egito, Arábia Saudita e França, e tem recebido apoio internacional.

“Países que são críticos inclusive da política norte-americana, como é o caso do Brasil, mas até países mais relevantes [para a guerra], como é o caso da França, da Arábia Saudita, argumentaram que seriam a favor [da proposta]. Então, acho que talvez uma das diferenças dessa narrativa de acordo é que claramente há uma pré-disposição internacional para movimentar de alguma maneira esse processo”, explica.

Brancolli ressalta, contudo, que não acredita 100% em uma “solução inevitável”, já que o Hamas pediu para revisar alguns termos do acordo. “É difícil de falar em momento decisivo, porque já tivemos tentativas de acordo anteriores. O que temos agora, talvez, seja o acordo mais potente, com mais dispositivos para tentar lidar com esse processo. O que não está muito claro é como essas dinâmicas vão interagir na realidade”, completa.

Uma das principais questões do Hamas é a libertação dos 48 reféns ainda mantidos em Gaza, dos quais 20 estão vivos, além. Conforme o texto, o grupo terá até 72 horas para entregar todos os sequestrados, contando a partir do momento em que Israel aceitar publicamente o acordo.

James Onnig, professor de geopolítica do Laboratório de Pesquisa em Relações Internacionais da Faculdade de Campinas (FACAMP), diz que a ideia do Hamas é devolver os reféns gradualmente, uma vez que são a única moeda de troca do grupo com Israel.

“Isso, para um grupo como o Hamas, que está usando os reféns como moeda de troca, é inviável, porque a visão do Hamas é que depois de entregar todos os reféns eles não terão mais nenhum trunfo nas mãos. Então, eles querem entregar os reféns gradativamente, à medida que os alimentos chegam e que há uma retirada das tropas israelenses [da Faixa de Gaza]”, explica.

Outro ponto que chama a atenção do Hamas é em relação à exigência do desarmamento do grupo palestino. Najad Khouri, pesquisador em Oriente Médio, aponta que a condição é problemática e pode gerar um impasse nas negociações. "Entregar as armas, sair da Palestina, fazer a paz, é o fim do Hamas. E como é que eles vão aceitar o próprio fim? Essa que é a complexidade desse acordo“, diz.

Interesses de Trump

Para os especialistas, Trump vem usando os conflitos internacionais como uma forma de restabelecer o poderio norte-americano, visando reposicionar os Estados Unidos como liderança geopolítica global. Mas há também interesses econômicos e, até mesmo, pessoais, como uma possível indicação ao Nobel da Paz.

É o que explica Khouri. Segundo ele, o propósito do presidente norte-americano é retomar os Acordos de Abraão, paralisados desde o início da ofensiva de Israel em Gaza e apontados como uma das principais motivações para o ataque inicial do Hamas em 7 de outubro de 2023.

“Cinco anos atrás, Trump teve um grande sucesso na carreira política quando anunciou os acordos de Abraão. E, naquela época, os Emirados Árabes, o Bahrein, Marrocos e Sudão aceitaram participar. E agora, isso seria o maior sucesso do Trump, que é capaz de ganhar um Nobel da Paz, se conseguir acabar com esse conflito”, explica.

Esse tratado, mediado pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump, em 2020, previa o reconhecimento diplomático mútuo entre Israel e os países árabes signatários, além de, entre outros, a cooperação econômica, tecnológica, científica e de segurança.

O acordo foi visto como um marco nas relações árabe-israelenses, pois quebrou a tradição da Liga Árabe, que até então condicionava a normalização das relações com Israel à criação de um Estado palestino independente.

"Há um interesse muito grande e econômico do Trump no Oriente Médio. A gente sabe que o interesse dele de fazer a paz e acabar com esse conflito, tem a ver com a Arábia Saudita, que condicionou estabelecer relação econômica e diplomática com Israel se a guerra acabar”, diz Khouri.

Além disso, Trump visa recuperar a chamada “Pax Americana”, período caracterizado pela hegemonia do governo norte-americano após a Segunda Guerra Mundial. Para Onnig, as ações do republicano, no entanto, são “atabalhoadas”, com tarifas e frases de efeito “quase sem nenhuma aplicabilidade na vida real”.

“As relações exteriores estão inseridas no plano de Trump para reposicionar os Estados Unidos como liderança geopolítica global. Ou seja, todos os conflitos mundiais, quando minimizados ou quando encerrados, devem ter o dedo dos Estados Unidos para que o mundo lembre do poderio militar e geopolítico estadunidense. O objetivo é não ser ultrapassado por outros países como negociadores, especialmente a China”, avalia o professor.

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