'Caso ela diga não': imprensa francesa repercute trend no Brasil e destaca feminicídio
Jornais apontam relação entre crimes de ódio contra mulheres que ganharam destaque e discursos misóginos disseminados na internet

Sofia Pilagallo
A trend misógina "treinando para caso ela diga 'não'" ganhou forte repercussão na imprensa francesa nesta semana. O conteúdo, que viralizou principalmente no TikTok, mostra simulações de agressões físicas contra mulheres após a recusa de pedidos de namoro ou casamento. As informações são da "RFI" (Radio France Internationale).
"No Brasil, vídeos que promovem violência contra mulheres se tornaram virais no TikTok", diz uma matéria publicada na segunda-feira (13) no jornal "Le Parisien". O diário descreve "homens treinando e esfaqueando bonecos de treino", um tipo de conteúdo "cada vez mais violento, descomplexado e acessível", acrescenta.
O "Le Parisien" começa a matéria fazendo menção ao caso Alana Rosa, jovem de 20 anos que sobreviveu a uma tentativa de feminicídio em fevereiro, em São Gonçalo (RJ). Ela recebeu dezenas de facadas e foi espancada por ter recusado os pedidos de namoro de um homem, que foi preso em flagrante.
A matéria destaca que a mãe de Alana atribui a trend misógina ao aumento da violência contra mulheres. Para Jaderluce Anisio de Oliveira, o suspeito, Luiz Felipe Sampaio, de 22 anos, se inspirou no conteúdo viral misógino para cometer a tentativa de feminicídio contra sua filha.
O site do canal de TV France 24, por sua vez, fez menção a outros dois casos chocantes que ocorreram recentemente no Brasil: o estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos em Copacabana e o assassinato da policial Gisele Alves Santana. O veículo aponta relação dos crimes com discursos de ódio contra mulheres disseminados na internet.
O site ressalta que, no caso do estupro coletivo, Victor Hugo Simonin, de 18 anos, um dos acusados do crime, se entregou à polícia usando uma camiseta com os dizeres em inglês "Regret nothing" (não se arrepender de nada), expressão famosa entre influenciadores do universo da "machosfera".
Já no caso do assassinato de Gisele Alves Santana, de 32 anos, a polícia revelou trocas de mensagens que mostraram que o suspeito do crime, tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, com quem a vítima era casada, se descreve como um "macho alfa" e exige que ela seja uma "fêmea beta, obediente e submissa".
O site do jornal "20 minutes" ressaltou que muitos desses vídeos foram visualizados milhares de vezes e afirmou que esse tipo de conteúdo pode ter um impacto sobre o aumento dos crimes contra mulheres. O texto destaca ainda o alto número de feminicídios registrados no Brasil no ano passado: 1.586.
'Ficção se tornou real'
Em sua crônica diária na rádio France Inter, afirmou que "no Brasil, a ficção se tornou realidade" ao evocar a série de TV "Adolescência", lançada há um ano na Netflix, que trata da história de um menino de 13 anos que cometeu um feminicídio por ter sido rejeitado por uma colega. Ao fazer a declaração, ela se referia ao caso Alana Rosa.
Serrell, que afirma contar a história de Alana "com o coração pesado", disse esperar que a repercussão do caso incite o Brasil e vários países a modificarem suas leis para lutar contra a misoginia. A jornalista também fez menção à trend "treinando caso ela diga não".
A plataforma francesa Brut, por sua vez, deu enfoque à mobilização contra o conteúdo misógino viral. Nas redes sociais, muitos internautas postaram vídeos sobre como reagir quando homens têm suas investidas rejeitadas. "Se uma mulher disser não, a melhor resposta possível é respeito", afirma um jovem em um dos vídeos.
Nos comentários da publicação, seguidores do Brut também criticam a lentidão das autoridades para identificar e punir os responsáveis pelos vídeos que incentivam a violência contra mulheres. "Eles mesmos se filmam e não se escondem", observou uma usuária. "Podemos concordar que esse tipo de conteúdo demonstra premeditação?", questionou outro.
Alguns internautas também mencionam o debate atual sobre o PL da Misoginia no Brasil. A proposta, em tramitação na Câmara dos Deputados, enfrenta oposição de grupos conservadores, que buscam descaracterizar ou enfraquecer o projeto.









