Amorim vê pressão de Trump sobre Brasil perto da eleição
Assessor de Lula critica indicação de novo embaixador, classificação de PCC e CV como terroristas, tarifas e retomada da Doutrina Monroe
Caio Barcellos
Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula (PT) para assuntos internacionais | Divulgação/Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, afirmou nesta quarta-feira (12) que a pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil ganhou força na proximidade da eleição presidencial, em um momento em que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca a reeleição e mantém diferenças ideológicas e de política externa com o presidente americano, Donald Trump.
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O ex-chanceler foi chamado pela oposição para participar da audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados para explicar a posição do governo contra a decisão dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
“Do ponto de vista jurídico, a classificação não produz ganhos concretos para a cooperação internacional”, afirmou. Amorim argumentou que Brasil e EUA já dispõem de mecanismos para troca de informações de inteligência, cooperação policial, extradição, bloqueio e recuperação de ativos e combate à lavagem de dinheiro.
O receio do Palácio do Planalto está nos efeitos que a legislação americana permite produzir a partir da classificação, com sanções que podem atingir não apenas integrantes das facções, mas empresas, instituições financeiras e setores econômicos que passem a ser associados, mesmo indiretamente, às organizações.
Ele citou combustíveis, setor sucroalcooleiro, logística e sistema financeiro como áreas potencialmente expostas e mencionou riscos de aumento dos custos bancários e de compliance, perda de investimentos e exclusão de empresas brasileiras de cadeias internacionais.
Amorim também afirmou que uma ação americana contra brasileiros acusados de ligação com o PCC prejudicou uma operação da Polícia Federal. Segundo ele, sanções anunciadas sem coordenação prévia anteciparam uma investigação e impediram que agentes brasileiros prendessem um dos investigados.
O ex-chanceler relacionou a preocupação à possibilidade de classificações de “terrorismo” e “narcoterrorismo” serem usadas como base para ações de força.
“Não se pode ignorar que determinadas interpretações extremas da classificação como terrorista ou narcoterrorista já foram utilizadas para justificar operações de força em outros contextos internacionais”, destacou.
Presidente dos EUA, Donald Trump | Foto: Evelyn Hockstein/Reuters - 06.08.2026
Indicação de embaixador amplia tensão
Ao longo da audiência, Amorim e os deputados da oposição ampliaram a discussão e relacionaram o episódio a outros pontos de atrito entre Brasília e Washington, como a escolha do nome de Daniel Perez por Trump para comandar a Embaixada dos EUA no Brasil.
O assessor classificou como “bizarra” a decisão de Washington de tornar pública a indicação e fazer o processo avançar no Senado americano antes de receber o agrément —o consentimento do país que receberá o diplomata.
“O que aconteceu bizarramente nesse caso é que os EUA não seguiram de maneira nenhuma as convenções internacionais”, afirmou.
Perez foi indicado para o posto em junho e teve o nome confirmado pelo Senado americano na sexta-feira (7), por 51 votos a 47. A aprovação nos EUA, contudo, não substitui a necessidade de concordância do governo brasileiro para que ele possa assumir como embaixador em Brasília.
A demora brasileira em conceder o agrément já provocou uma retaliação de Washington. Na semana passada, o governo Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e relacionou a medida tanto à falta de aval para Perez quanto à negativa brasileira de vistos a dois diplomatas americanos.
A decisão não impede Viotti de continuar exercendo suas funções enquanto permanecer nos EUA, mas cria um obstáculo caso deixe o país e precise retornar. Washington indicou que a medida pode ser revertida se o impasse diplomático for solucionado.
Amorim afirmou que Lula decidiu não conceder novos agréments antes das eleições brasileiras e ressaltou que a medida não se limita aos EUA. Segundo ele, pedidos apresentados por qualquer outro país receberão o mesmo tratamento durante esse período.
“O agrément não foi recusado. A decisão do presidente Lula é que ele não vai aceitar nenhum pedido de agrément de nenhum país. Nem da Rússia, nem da China, nem dos EUA, nem da França, nem de quem quer que seja”, disse.
O assessor também questionou o momento escolhido por Washington para preencher a vaga. O posto está sem um embaixador desde o fim da missão de Elizabeth Bagley, em janeiro de 2025, e Amorim sugeriu que a aceleração do processo às vésperas das eleições brasileiras não ocorreu por acaso.
“Isso não aconteceu por acaso. Os EUA ficaram mais de um ano e meio sem embaixador aqui. [...] De repente, na proximidade das eleições, às pressas, sem nosso consentimento, quiseram acreditar um outro embaixador”, declarou.
Maria Luiza Ribeiro Viotti
Doutrina Monroe e pressão sobre a América Latina
Amorim também citou um vídeo divulgado pelo Departamento de Estado na terça-feira (11) para reforçar sua preocupação com a política americana para a América Latina. A publicação recupera a Doutrina Monroe e afirma que a predominância dos EUA no Hemisfério Ocidental não deverá ser novamente questionada.
Para o assessor, a mensagem também alcança o Brasil, embora o país não seja citado diretamente.
“Quem tiver visto o vídeo que foi divulgado ontem pelo Departamento de Estado verá que o que se quer fazer é justamente relativizar a soberania dos países latino-americanos em geral, inclusive, naturalmente, o Brasil”, afirmou.
A avaliação se insere em uma mudança mais ampla da política externa americana sob Donald Trump. Desde o início do atual governo, o secretário de Estado, Marco Rubio, colocou o chamado Hemisfério Ocidental entre as prioridades de Washington.
A primeira viagem internacional de Rubio no cargo, em fevereiro de 2025, foi exclusivamente pela América Latina, com passagens por Panamá, El Salvador, Costa Rica, Guatemala e República Dominicana. A agenda combinava temas como imigração, crime organizado e redução da influência chinesa.
Essa orientação ganhou contornos mais claros com a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. Segundo Amorim, o documento recupera os princípios da Doutrina Monroe e estabelece como objetivos restaurar a “preeminência” americana na região, ampliar o acesso a recursos considerados estratégicos e conter a influência de potências de fora do continente, em especial a China.
Dessa forma, a política conduzida por Trump e Rubio passou a tratar temas como narcotráfico, migração, comércio, segurança, recursos estratégicos e presença chinesa dentro de uma mesma lógica de segurança nacional. Isso amplia o espaço para o uso de sanções, tarifas e pressão diplomática contra governos que entrem em choque com as prioridades de Washington.
Para o governo brasileiro, os atritos recentes deixaram de ser vistos como episódios isolados e passaram a compor uma ofensiva mais ampla dos EUA na região.
O Brasil ganha peso particular nessa disputa por ser a maior economia latino-americana, manter relações relevantes tanto com Washington quanto com Pequim e tradicionalmente rejeitar alinhamentos automáticos na política externa da atual administração da Casa Branca.
Rubio teve participação direta em decisões que aprofundaram o desgaste com Brasília. Foi ele que anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas em maio, contrariando a posição do governo Lula. Em julho, também acusou o Brasil de não negociar “de boa-fé” durante a disputa comercial com os EUA, que resultou em uma nova rodada de tarifas.
“Por meio de carta divulgada nas redes sociais do presidente Donald Trump, em 9 de julho de 2025, as tarifas foram elevadas para 50%. Causou estranheza esse procedimento diplomático, uma comunicação pública, sem qualquer negociação prévia e sem qualquer respaldo nas normas multilaterais de comércio”, rebateu Amorim.
Ao mesmo tempo, Washington reforçou vínculos com governos latino-americanos ideologicamente mais próximos de Trump, como os de Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador), Santiago Peña (Paraguai), Daniel Noboa (Equador) e outros, sobretudo nas áreas de segurança, economia e combate ao narcotráfico.
Amorim defendeu a continuidade da cooperação com os EUA no combate ao crime organizado, mas afirmou que o governo não aceitará que esse relacionamento seja utilizado para limitar a autonomia brasileira.
“O presidente Lula tem sido firme em reiterar que não aceitaremos que medidas unilaterais sejam utilizadas como pretexto para relativizar a soberania nacional ou impor constrangimentos econômicos ao nosso país”, disse.
Amorim vê pressão de Trump sobre Brasil perto da eleiçãoAssessor de Lula critica indicação de novo embaixador, classificação de PCC e CV como terroristas, tarifas e retomada da Doutrina MonroeMundo2026-08-12T16:50:17.564ZO assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, afirmou nesta quarta-feira (12) que a pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil ganhou força na proximidade da eleição presidencial, em um momento em que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca a reeleição e mantém diferenças ideológicas e de política externa com o presidente americano, Donald Trump. O ex-chanceler foi chamado pela oposição para participar da audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados para explicar a posição do governo contra a decisão dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. “Do ponto de vista jurídico, a classificação não produz ganhos concretos para a cooperação internacional”, afirmou. Amorim argumentou que Brasil e EUA já dispõem de mecanismos para troca de informações de inteligência, cooperação policial, extradição, bloqueio e recuperação de ativos e combate à lavagem de dinheiro. O receio do Palácio do Planalto está nos efeitos que a legislação americana permite produzir a partir da classificação, com sanções que podem atingir não apenas integrantes das facções, mas empresas, instituições financeiras e setores econômicos que passem a ser associados, mesmo indiretamente, às organizações. Ele citou combustíveis, setor sucroalcooleiro, logística e sistema financeiro como áreas potencialmente expostas e mencionou riscos de aumento dos custos bancários e de compliance, perda de investimentos e exclusão de empresas brasileiras de cadeias internacionais. Amorim também afirmou que uma ação americana contra brasileiros acusados de ligação com o PCC prejudicou uma operação da Polícia Federal. Segundo ele, sanções anunciadas sem coordenação prévia anteciparam uma investigação e impediram que agentes brasileiros prendessem um dos investigados. O ex-chanceler relacionou a preocupação à possibilidade de classificações de “terrorismo” e “narcoterrorismo” serem usadas como base para ações de força. “Não se pode ignorar que determinadas interpretações extremas da classificação como terrorista ou narcoterrorista já foram utilizadas para justificar operações de força em outros contextos internacionais”, destacou. Indicação de embaixador amplia tensão Ao longo da audiência, Amorim e os deputados da oposição ampliaram a discussão e relacionaram o episódio a outros pontos de atrito entre Brasília e Washington, como a escolha do nome de Daniel Perez por Trump para comandar a Embaixada dos EUA no Brasil. O assessor classificou como “bizarra” a decisão de Washington de tornar pública a indicação e fazer o processo avançar no Senado americano antes de receber o agrément —o consentimento do país que receberá o diplomata. “O que aconteceu bizarramente nesse caso é que os EUA não seguiram de maneira nenhuma as convenções internacionais”, afirmou. Perez foi indicado para o posto em junho e teve o nome confirmado pelo Senado americano na sexta-feira (7), por 51 votos a 47. A aprovação nos EUA, contudo, não substitui a necessidade de concordância do governo brasileiro para que ele possa assumir como embaixador em Brasília. A demora brasileira em conceder o agrément já provocou uma retaliação de Washington. Na semana passada, o governo Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e relacionou a medida tanto à falta de aval para Perez quanto à negativa brasileira de vistos a dois diplomatas americanos. A decisão não impede Viotti de continuar exercendo suas funções enquanto permanecer nos EUA, mas cria um obstáculo caso deixe o país e precise retornar. Washington indicou que a medida pode ser revertida se o impasse diplomático for solucionado. Amorim afirmou que Lula decidiu não conceder novos agréments antes das eleições brasileiras e ressaltou que a medida não se limita aos EUA. Segundo ele, pedidos apresentados por qualquer outro país receberão o mesmo tratamento durante esse período. “O agrément não foi recusado. A decisão do presidente Lula é que ele não vai aceitar nenhum pedido de agrément de nenhum país. Nem da Rússia, nem da China, nem dos EUA, nem da França, nem de quem quer que seja”, disse. O assessor também questionou o momento escolhido por Washington para preencher a vaga. O posto está sem um embaixador desde o fim da missão de Elizabeth Bagley, em janeiro de 2025, e Amorim sugeriu que a aceleração do processo às vésperas das eleições brasileiras não ocorreu por acaso. “Isso não aconteceu por acaso. Os EUA ficaram mais de um ano e meio sem embaixador aqui. [...] De repente, na proximidade das eleições, às pressas, sem nosso consentimento, quiseram acreditar um outro embaixador”, declarou. Doutrina Monroe e pressão sobre a América Latina Amorim também citou um vídeo divulgado pelo Departamento de Estado na terça-feira (11) para reforçar sua preocupação com a política americana para a América Latina. A publicação recupera a e afirma que a predominância dos EUA no Hemisfério Ocidental não deverá ser novamente questionada. Para o assessor, a mensagem também alcança o Brasil, embora o país não seja citado diretamente. “Quem tiver visto o vídeo que foi divulgado ontem pelo Departamento de Estado verá que o que se quer fazer é justamente relativizar a soberania dos países latino-americanos em geral, inclusive, naturalmente, o Brasil”, afirmou. A avaliação se insere em uma mudança mais ampla da política externa americana sob Donald Trump. Desde o início do atual governo, o secretário de Estado, Marco Rubio, colocou o chamado Hemisfério Ocidental entre as prioridades de Washington. A primeira viagem internacional de Rubio no cargo, em fevereiro de 2025, foi exclusivamente pela América Latina, com passagens por Panamá, El Salvador, Costa Rica, Guatemala e República Dominicana. A agenda combinava temas como imigração, crime organizado e redução da influência chinesa. Essa orientação ganhou contornos mais claros com a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. Segundo Amorim, o documento recupera os princípios da Doutrina Monroe e estabelece como objetivos restaurar a “preeminência” americana na região, ampliar o acesso a recursos considerados estratégicos e conter a influência de potências de fora do continente, em especial a China. Dessa forma, a política conduzida por Trump e Rubio passou a tratar temas como narcotráfico, migração, comércio, segurança, recursos estratégicos e presença chinesa dentro de uma mesma lógica de segurança nacional. Isso amplia o espaço para o uso de sanções, tarifas e pressão diplomática contra governos que entrem em choque com as prioridades de Washington. Para o governo brasileiro, os atritos recentes deixaram de ser vistos como episódios isolados e passaram a compor uma ofensiva mais ampla dos EUA na região. O Brasil ganha peso particular nessa disputa por ser a maior economia latino-americana, manter relações relevantes tanto com Washington quanto com Pequim e tradicionalmente rejeitar alinhamentos automáticos na política externa da atual administração da Casa Branca. Rubio teve participação direta em decisões que aprofundaram o desgaste com Brasília. Foi ele que anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas em maio, contrariando a posição do governo Lula. Em julho, também acusou o Brasil de não negociar “de boa-fé” durante a disputa comercial com os EUA, que resultou em uma nova rodada de tarifas. “Por meio de carta divulgada nas redes sociais do presidente Donald Trump, em 9 de julho de 2025, as tarifas foram elevadas para 50%. Causou estranheza esse procedimento diplomático, uma comunicação pública, sem qualquer negociação prévia e sem qualquer respaldo nas normas multilaterais de comércio”, rebateu Amorim. Ao mesmo tempo, Washington reforçou vínculos com governos latino-americanos ideologicamente mais próximos de Trump, como os de Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador), Santiago Peña (Paraguai), Daniel Noboa (Equador) e outros, sobretudo nas áreas de segurança, economia e combate ao narcotráfico. Amorim defendeu a continuidade da cooperação com os EUA no combate ao crime organizado, mas afirmou que o governo não aceitará que esse relacionamento seja utilizado para limitar a autonomia brasileira. “O presidente Lula tem sido firme em reiterar que não aceitaremos que medidas unilaterais sejam utilizadas como pretexto para relativizar a soberania nacional ou impor constrangimentos econômicos ao nosso país”, disse.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/mundo/amorim-ve-pressao-de-trump-sobre-brasil-perto-da-eleicao
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