Economia

Fazenda trabalha com novas altas de juros no exterior

Governo passa a tratar conflito entre EUA e Irã como “choque persistente” no mercado de energia; inteligência artificial e China ampliam incertezas

Avatar de Caio Barcellos
Caio Barcellos
Ministro da Fazenda, Dario Durigan, diz que governo estuda cobrar empresas com muitos PJs | Divulgação/Washington Costa/MF

Ministro da Fazenda, Dario Durigan, diz que governo estuda cobrar empresas com muitos PJs | Divulgação/Washington Costa/MF

O Ministério da Fazenda avalia que a persistência das pressões sobre os preços do petróleo e da inflação nas economias desenvolvidas aumentou o risco de novas altas de juros no exterior, com possíveis efeitos sobre o câmbio e o custo do financiamento no Brasil.

No Boletim Macrofiscal de setembro, divulgado nesta terça-feira (22), a Secretaria de Política Econômica (SPE) aponta que o conflito entre Estados Unidos e Irã deixou de representar apenas um "choque pontual" o sobre o mercado de energia e passou a ser considerado como "condição persistente".

📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique aqui e siga o canal do SBT News.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT,Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung, LG e Roku.

Siga no Google Discover

Segundo o relatório, o acordo provisório entre os dois países não evoluiu para um entendimento formal, e o movimento de embarcações pelo Estreito de Ormuz -rota responsável por cerca de 20% do transporte mundial de petróleo- permaneceu abaixo dos níveis anteriores ao conflito.

O documento também menciona estoques globais de petróleo em queda, combinação que diminui a capacidade do mercado de absorver novas interrupções na oferta. Nesse ambiente, o petróleo Brent -usado como referência internacional- ultrapassou US$ 100 por barril na primeira semana de setembro.

“Caso a China volte a recompor seus estoques antes da normalização de Ormuz, a combinação de maior demanda, estoques globais baixos e oferta restrita poderá reforçar a pressão altista sobre os preços”, ressalta a SPE.

EUA e Europa elevaram juros

Nos EUA, o Federal Reserve (Fed) elevou os juros em 0,25 ponto percentual na reunião de setembro, para o intervalo de 3,75% a 4% ao ano -a primeira alta desde julho de 2023.

A inflação medida pelo Índice de Preços de Gastos com Consumo Pessoal (PCE) chegou a 3,7% em 12 meses até julho. O relatório da SPE aponta que a maioria dos integrantes do Fed indicava a expectativa de pelo menos mais uma elevação dos juros até o fim de 2026.

Já o Banco Central Europeu (BCE) elevou a taxa de depósitos de 2,25% para 2,50%, na segunda alta do ano. A decisão ocorreu após a inflação do bloco acelerar de 2,9% em julho para 3,2% em agosto, impulsionada pelos preços da energia, em um momento em que os estoques europeus de gás natural permaneciam abaixo dos padrões históricos.

IA também pressiona

O boletim identifica os investimentos em inteligência artificial como outro fator de pressão sobre as condições financeiras internacionais.

Segundo a SPE, a demanda por semicondutores e componentes de memória, em um ambiente de capacidade produtiva limitada, contribuiu para uma alta de 7,4% nos preços americanos de importação de computadores e eletrônicos no primeiro semestre deste ano.

O financiamento dessa expansão também aumentou a procura por recursos no mercado, com as emissões de dívida de empresas ligadas à inteligência artificial a somar cerca US$ 266 bilhões até agosto, quase o dobro do total registrado em 2025, de acordo com o relatório.

“Para os países emergentes, isso eleva o custo de capital e reduz o espaço para cortes de juros. Para o Brasil, em específico, o canal relevante além do diferencial de juros, é o prêmio de risco exigido dos ativos de risco e a pressão decorrente sobre o câmbio”, afima o documento.

Desaceleração chinesa

Segundo os dados apresentados no boletim, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da China passou de 5% no primeiro trimestre para 4,3% no segundo, na comparação com os mesmos períodos do ano anterior, enquanto as vendas no varejo e a produção industrial desaceleraram no início do segundo semestre.

A SPE destaca, porém, que a indústria chinesa de alta tecnologia cresceu 16,9% em julho, sinalizando uma mudança na composição da produção e das exportações do país.

Para o Brasil, o ministério avalia que esse movimento pode ampliar a oferta de produtos industriais chineses a preços competitivos, especialmente veículos elétricos, baterias e painéis solares, ao mesmo tempo que reduz o impulso da demanda por matérias-primas associado aos investimentos chineses em infraestrutura.

Últimas notícias