Estudo revela os vilões do endividamento das famílias: rotativo do cartão e juros elevados
De acordo com levantamento da LCA Consultoria Econômica, a inadimplência do rotativo do cartão chegou a 64,5% em dezembro de 2025



Soane Guerreiro
Victor Schneider
A alta taxa de inadimplência e endividamento entre as famílias brasileiras, com trajetória de alta desde 2021, está associada ao crédito mais caro na praça com a Selic em dois dígitos. Com isso, há estímulo a alternativas mais caras de acesso ao dinheiro, como cheques especiais e cartões de crédito, sujeitos a juros rotativos. A conclusão é do estudo "Endividamento e Inadimplência das Famílias no Brasil", realizado pela LCA Consultoria Econômica a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IJBR).
O levantamento mostra que a inadimplência com o rotativo do cartão de crédito chegou a 64,5% em dezembro do ano passado. A linha de crédito é a mais cara do mercado, com juros que superam os 400% ao ano. Por outro lado, o cartão parcelado (13,1%), o cheque especial (14,6%) e o crédito pessoal não consignado (8,4%) - um empréstimo sem garantia - seguem com patamares relevantes, mas têm papel mais limitado na crise de endividamento.
O diretor da LCA, Eric Brasil, avalia que o problema é também consequência da falta de educação financeira das famílias, que recorrem a alternativas para complementar o consumo ou pagar despesas pendentes no mês e acabam aumentando o problema no médio prazo. "Acho que a principal orientação para as famílias, no geral, é entender que esse crédito mais fácil do cartão, do cheque especial, é extremamente elevado dentro da própria economia brasileira", afirmou.
A inadimplência das famílias vem em trajetória de crescimento desde o final da pandemia e alcançou 5,2% em fevereiro deste ano. O teto da série histórica foi registrado em 2012, quando 5,5% dos brasileiros não tinham perspectiva de quitar suas dívidas. Conforme o estudo, gastos com pagamento de juros e amortizações de dívidas representaram quase 30% do orçamento no fim do ano.
Outro problema destacado no estudo é o perfil da dívida. Diferentemente do financiamento imobiliário, por exemplo, o cartão é frequentemente usado como crédito emergencial ou de curto prazo para antecipação de consumo, o que gera um ciclo de dívidas "punitivas". Para comparação, a taxa voltada à compra de imóveis está em cerca de 11% ao ano, próxima à Selic, enquanto os juros do cartão parcelado chegam a 188%.
Impacto das Bets
Outro trecho do estudo se debruça sobre o impacto das apostas em jogos on-line, como as bets, no endividamento das famílias. A responsabilidade dessas apostas digitais no surto de inadimplência dos brasileiros entrou na mira do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que sugeriu inclusive a vontade pessoal de proibir a licença para o funcionamento de bets no país.
"O cassino está dentro da sua casa, está dentro da sua sala, está no celular do seu pai, no celular do seu avô, no celular da sua avó. Ou seja, induzindo as pessoas a fazerem apostas que não deveriam acontecer", afirmou em entrevista na terça (14) aos veículos de esquerda Brasil247, Revista Fórum e Diário do Centro do Mundo.
O documento analisou dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, que revelam que o gasto médio por apostador em 2025 foi de R$ 122,00. Considerando a renda média do trabalhador brasileiro, conforme dados do IBGE, isso significa que cada apostador gastou por mês cerca de 3,3% da sua renda. Os gastos com apostas legais – que não contabilizam bets em situação irregular ou o jogo do bicho, por exemplo – foram enquadrados como de lazer, representando 0,46% do consumo das famílias, totalizando R$ 37 bilhões em 2025.
Para o presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), André Gelfi, empresas de bets têm se comprometido a alertar famílias sobre os riscos de vícios com a jogatina desenfreada.
"O nosso setor é muito jovem. A gente começou a operar em janeiro de 2025 e desde então o trabalho de conscientização e de comunicação da nossa atividade como uma forma de entretenimento vem sendo feito. Temos um grande desafio de chegar com essa mensagem a toda população brasileira, e fazemos isso diariamente", afirmou.









