Economia

Dólar abaixo de R$ 5? Até onde vai a queda da moeda americana

Apesar da sequência de quedas, os especialistas divergem sobre se o dólar poderia romper a barreira dos R$ 5

Imagem da noticia Dólar abaixo de R$ 5? Até onde vai a queda da moeda americana
Dólar | Divulgação/Valter Campanato/Agência Brasil

O dólar à vista registrou quatro dias consecutivos de queda, fechando nesta terça (23) em R$ 5,1553, o menor patamar em 21 meses. Nesta quarta (24), a moeda americana mantém o movimento de perda ao recuar 0,40%, cotada a R$ 5,135, renovando as mínimas de quase dois anos atrás. Desde o início de 2026, a divisa acumula desvalorização de 6% frente ao real, pouco mais da metade da perda registrada ao longo de 2025, quando recuou 11,18%.

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O movimento, porém, não é exclusivo do Brasil. Diversas moedas globais têm se valorizado frente ao dólar, refletindo um enfraquecimento da moeda americana em nível internacional.

"O dólar mais fraco é observado globalmente. Há expectativa de cortes de juros pelo Fed [Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos] e incertezas institucionais nos EUA, que afetam a confiança na moeda", afirma Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.

Mas a desvalorização do dólar frente ao real é atribuída a uma combinação de fatores domésticos e externos.

Internamente, o diferencial de juros elevado e o fluxo de capital estrangeiro para o país têm fortalecido a moeda brasileira.

Com a taxa básica de juros, a Selic em 15% ao ano, o Brasil segue entre os países com maiores juros reais do mundo. Segundo levantamento de Jason Vieira, da MoneYou e Lev Intelligence, a taxa de juros real brasileira — ajustada pela inflação projetada para os próximos 12 meses — ficou em 9,23%, colocando o país no segundo lugar global, atrás apenas da Turquia, que registrou 9,88%.

Além disso, os estrangeiros têm reforçado a compra de ações dos países emergentes e o Brasil se destaca, como mostram os 13 recordes já batidos pelo Ibovespa, o principal índice acionário da B3 que acumula uma valorização de 18% ano ante os ganhos de 34% registrados ao longo de todo o ano passado.

"Só em janeiro, recebemos quase US$ 3,8 bilhões em ações e US$ 7 bilhões em títulos de dívida brasileira. Esse fluxo ajuda a explicar a valorização do real neste início de ano", afirma Cauê Valim, analista da Avenue.

O cenário externo também contribui. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, destaca que o real se beneficia de "cenário internacional favorável" marcado pelo vai e vem das tarifas de importação impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e suas questões geopolíticas, como as recentes ameaças de um ataque militar do país ao Irã.

"Vemos o dólar numa tendência de desvalorização principalmente por conta de questões internacionais, que dão um cenário mais favorável para a moeda brasileira, como a redução do excepcionalismo norte-americano, ruídos geopolíticos, a busca por diversificação fora dos Estados Unidos. Estamos observando uma saída dos Estados Unidos, e isso leva ao enfraquecimento do dólar e a uma busca por outros mercados", diz Sung.

Até onde a moeda americana pode recuar?

Apesar da sequência de quedas, os especialistas divergem sobre se o dólar poderia romper a barreira dos R$ 5. Valim alerta que há limites estruturais para a valorização do real.

"Se o fluxo continuar positivo, o real pode seguir forte no curto prazo. Mas, no médio e longo prazo, o diferencial de inflação tende a favorecer a recuperação do dólar frente ao real."

Já Shahini, por outro lado, considera que os fundamentos atuais poderiam levar a moeda abaixo de R$ 5. "O diferencial de juros entre Brasil e EUA permanece elevado, o fluxo estrangeiro continua e os preços das commodities estão sustentados. Os fundamentos seriam compatíveis com um dólar abaixo desse patamar", diz.

Sung, contudo, adota uma visão mais cautelosa. "Nossas projeções indicam média mensal de R$ 5,25 a R$ 5,26 até o início do segundo semestre. Sem mudanças estruturais, especialmente no risco fiscal, acho difícil o dólar romper os R$ 5", afirma.

No radar dos operadores também está a política monetária do Fed. Em janeiro, Trump indicou para o cargo de novo presidente do BC, Kevin Warsh, como substituto de Jerome Powell, há quase oito anos no comando do banco central americano.

Com a troca na liderança do Fed e uma pressão política crescente por juros menores, o mercado observa de perto até onde o banco central poderá reduzir a taxa de referência, o chamado debate sobre a taxa terminal. A trajetória da moeda americana dependerá da evolução do mercado de trabalho, da inflação e do grau de autonomia do novo presidente do Fed.

No Brasil, outro fator que deve pesar sobre o câmbio é o calendário eleitoral. Historicamente, anos de eleição trazem maior volatilidade para ativos domésticos.

Para os especialistas, a percepção do mercado sobre o compromisso do próximo governo com o ajuste fiscal e a sustentabilidade das contas públicas será determinante para a valorização ou desvalorização do real no segundo semestre.

O dólar ainda manda no mundo?

Entre os operadores também todos convergem para a análise de que, apesar da recente fraqueza frente a algumas moedas e da valorização de ativos alternativos, o dólar continua a moeda dominante no sistema financeiro global.

"A moeda americana ainda representa quase 60% das reservas internacionais, e nenhuma outra moeda chega perto desse nível", lembra o analista da Avenue.

Shahini, da Nomad, reforça que a liderança do dólar se mantém em várias dimensões. "Ele continua dominante no comércio internacional, nas reservas de bancos centrais e como ativo de refúgio. O que observamos hoje é apenas uma diversificação gradual das reservas, não uma substituição abrupta", afirma.

"O dólar ainda está acima da média histórica. Há espaço para pequenas quedas, mas não para uma mudança de longo prazo em seu status global", acrescenta Sung, da Suno Research.

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