Economia

Banco Central vê necessidade de juros altos por mais tempo

Ata do Copom mostra que expectativas de inflação acima da meta exigem cautela, apesar da desaceleração da economia e do corte da Selic para 13,75% ao ano

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Caio Barcellos, Victor Schneider
Prédio do Banco Central em Brasília | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil - 26.10.2023

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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) avalia que as expectativas de inflação persistentemente acima da meta exigem a manutenção de juros restritivos por um período mais prolongado, mesmo diante dos sinais de desaceleração da economia brasileira.

A avaliação consta da ata da reunião divulgada nesta terça-feira (22), que detalha os motivos da decisão de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, de 14% para 13,75% ao ano na semana passada.

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Segundo o documento, os integrantes do comitê concordaram que a dificuldade de aproximar as expectativas de inflação da meta de 3% exige uma política monetária mais rigorosa do que seria necessário em outras circunstâncias, o que pode prolongar o período de juros elevados para conter a alta dos preços.

"A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado", afirma a ata.

A decisão da última quarta-feira (16) representou o quinto corte consecutivo da Selic desde março, quando o BC iniciou o ciclo de redução dos juros após manter a taxa em 15% ao ano por nove meses.

Apesar da sequência continua de reduções, o Copom não assumiu compromisso com novos cortes e afirmou que a dimensão total do ciclo dependerá da evolução dos indicadores econômicos.

Economia desacelera, mas inflação preocupa

A ata reconhece que os efeitos dos juros elevados sobre a atividade econômica estão se acumulando gradualmente, com desaceleração mais intensa nos setores e componentes da demanda que costumam reagir mais rapidamente às mudanças na taxa de juros.

O mercado de crédito também apresenta sinais de perda de ritmo, principalmente nas operações de prazo mais longo, enquanto o desemprego permanece em níveis historicamente baixos e os salários continuam crescendo acima da produtividade do trabalho, situação que pode manter pressões sobre os preços.

Para a autarquia, a desaceleração da economia contribui para reduzir a inflação, mas o processo ainda não é suficiente para garantir que a alta dos preços se aproxime da meta de forma duradoura.

"Embora a política monetária esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo", afirma o documento.

No cenário de referência apresentado pelo BC, a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve encerrar 2026 em 5,2% e recuar para 3,9% em 2027. Para o primeiro trimestre de 2028, período considerado atualmente nas decisões sobre os juros, a projeção é de 3,2%, ainda acima do centro da meta de 3%.

As estimativas do mercado financeiro, reunidas no Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (21), apontam inflação de 4,92% em 2026, acima dos 4,90% projetados na semana anterior, enquanto a previsão para 2027 permaneceu em 4,30%.

Apesar da revisão para cima na inflação, o mercado reduziu de 13,75% para 13,50% a projeção para a Selic ao fim deste ano, com mais um corte de 0,25 pontos.

Petróleo e clima representam riscos para inflação

Dentre os fatores que pressionam a inflação, o Copom cita a persistência da inflação no setor de serviços, a “desancoragem” das expectativas – ou seja, projeções de inflação acima da meta que influenciam decisões do mercado financeiro –, oscilações no preço do petróleo pelos efeitos da guerra no Irã e impactos climáticos sobre a agricultura e energia com o El Niño nos próximos meses.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o fenômeno tem potencial para provocar secas no Norte e Nordeste e chuvas excessivas no Sul do país.

Já a desaceleração da atividade econômica brasileira mais forte do que a projetada inicialmente, a incerteza global que freia investimentos e as quedas de preços das commodities são fatores que têm feito a inflação convergido para a meta.

Maior juro real do mundo

Mesmo com o corte da Selic, o Brasil continua com a maior taxa real de juro real do mundo, de 8,45% ao ano, segundo levantamento das consultorias MoneYou e Lev Intelligence.

O indicador, que desconta a inflação projetada dos juros nominais, recuou de 9,30% após a decisão do BC, mas continua acima dos índices registrados na Rússia (6,79%), na Colômbia (6,33%) e na Turquia (6,25%).

O estudo considera um grupo de 40 países e utiliza a expectativa de inflação para os próximos 12 meses, estimada em 4,71% para o Brasil.

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