Enem 2026: como evitar o “repertório de bolso” na redação
Além de dominar a estrutura da redação, estudantes devem relacionar informações de diferentes áreas ao tema e utilizá-las para sustentar argumentos

12 estudantes tiraram nota 1.000 na redação do Enem 2024 | Reprodução
A preparação para a redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) vai além do treino de estrutura textual e da memorização de citações. Na edição 2026 da Cartilha do Participante, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) chama a atenção para o chamado “repertório de bolso”.
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De acordo com o documento, o repertório sociocultural pode ser formado por informações, fatos, citações ou experiências que tenham relação com o tema e contribuam para a construção da argumentação. O Inep também reforça que essas referências precisam ser pertinentes, contextualizadas e articuladas ao ponto de vista defendido pelo estudante.
A orientação muda a forma como o estudante pode aproveitar as últimas semanas antes da prova. Em vez de tentar memorizar uma grande quantidade de frases de filósofos ou referências consideradas “coringas”, a recomendação é ampliar o contato com diferentes fontes de informação e, principalmente, aprender a estabelecer relações entre elas e os problemas discutidos na sociedade.
“A construção de repertório não deve ser encarada como uma coleção de citações para serem encaixadas na redação. O estudante precisa entender a informação que está utilizando e perceber de que maneira aquele conhecimento ajuda a explicar o problema apresentado. Uma notícia, um filme, uma obra literária, um acontecimento histórico ou um conceito estudado em sala podem se transformar em repertório quando são compreendidos e relacionados ao argumento”, explica a professora Taís Guimarães.
A própria Cartilha do Enem 2026 amplia as possibilidades de onde esse conhecimento pode vir. O documento cita letras de músicas, filmes, obras literárias, conhecimentos adquiridos na escola, podcasts, palestras, notícias e documentários, além do conhecimento de mundo construído ao longo da formação do estudante.
Para quem está na reta final da preparação, uma estratégia é acompanhar notícias e, em vez de apenas memorizar números ou acontecimentos, tentar compreender qual problema social está sendo discutido, suas causas, consequências e possíveis relações com outros conhecimentos.
“O estudante pode transformar o próprio hábito de acompanhar notícias em uma ferramenta de preparação. Ao ler uma reportagem, por exemplo, vale perguntar: qual é o problema apresentado? Quem é afetado? Quais são as causas? Que consequência isso produz? Existe algum conteúdo de História, Geografia, Sociologia, Literatura ou outra área que ajude a compreender essa questão? Esse exercício desenvolve justamente a capacidade de relacionar conhecimentos”, orienta Taís.
Essa capacidade também está diretamente relacionada à Competência III, que avalia a seleção, organização, relação e interpretação de informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. Segundo a Cartilha, um bom texto deve apresentar uma estratégia clara de argumentação, com ideias organizadas e desenvolvidas, evitando informações soltas ou sem relação com a tese.
“Mais importante do que saber citar muitas obras é conseguir explicar por que aquela referência é relevante para o argumento. Quando o estudante consegue fazer essa conexão, ele deixa de apenas mencionar uma informação e passa a utilizá-la como parte da construção do raciocínio”, afirma a pedagoga.
Literatura, filmes e atualidades também entram na preparação
A Cartilha de 2026 apresenta exemplos de repertório considerado produtivo a partir de diferentes áreas. Em um dos casos, uma redação utiliza “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, para discutir o envelhecimento. O documento considera que a referência funciona porque o estudante interpreta a crítica social presente na obra e estabelece uma relação com a invisibilização das pessoas idosas.
Outro exemplo utiliza o filme “A Substância” para discutir a influência da mídia na construção de estereótipos relacionados ao envelhecimento. Segundo a análise apresentada pelo Inep, a referência é produtiva porque não fica restrita à história do filme: o estudante estabelece uma ponte entre a obra e um problema social contemporâneo.
A orientação mostra que não existe apenas um tipo de repertório válido. O desafio é compreender o conteúdo e saber mobilizá-lo de acordo com o tema.
“Esse é um momento em que o estudante pode olhar para o próprio repertório com mais confiança. Ele não precisa conhecer tudo. Pode partir de filmes que assistiu, livros que leu, conteúdos estudados na escola, notícias que acompanhou e até conhecimentos construídos ao longo da própria formação. O mais importante é compreender essas referências e desenvolver a capacidade de relacioná-las”, completa Taís.
Veja dicas para ampliar o repertório na reta final
- Leia notícias todos os dias: escolha assuntos relacionados a sociedade, educação, tecnologia, meio ambiente, saúde, cultura, economia e comportamento.
- Não decore apenas dados: procure entender o que o dado revela sobre determinado problema.
- Revise conteúdos de diferentes disciplinas: História, Geografia, Sociologia, Filosofia, Literatura e Ciências podem fornecer conhecimentos úteis para diferentes discussões.
- Assista a filmes e documentários com olhar analítico: depois, pergunte: qual problema a obra apresenta? Que crítica ela faz? Em quais discussões sociais essa ideia poderia ajudar?
- Leia literatura: além de ampliar o vocabulário, obras literárias podem oferecer perspectivas históricas, sociais e culturais para a argumentação.
- Treine a conexão entre repertório e argumento: não basta escrever “como afirma determinado autor”. Explique o que aquela ideia significa e como ela ajuda a sustentar sua tese.
- Evite o “repertório de bolso”: a Cartilha alerta que referências utilizadas de forma automática, genérica ou forçada podem ser consideradas pouco produtivas.
- Treine o raciocínio antes de treinar apenas a redação completa: pegue um tema e tente elaborar, em poucos minutos, uma tese, dois argumentos e um repertório pertinente para cada um.















