Economia

A uma semana da eleição, ainda dá para entrar na bolsa?

O Ibovespa sobe 10,3% desde 18 de agosto, quando o índice começou a se recuperar; agora, desafio é calibrar o risco eleitoral

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Eleição e a bolsa brasileira | Foto: Agência Brasil

Eleição e a bolsa brasileira | Foto: Agência Brasil

A uma semana da eleição, o mercado acionário brasileiro já começou a incorporar parte das apostas sobre o resultado das urnas. Porém, isso não significa que seja hora de aumentar ou zerar a exposição à bolsa brasileira, de acordo com especialistas.

Até o último pregão na sexta-feira (25), o Ibovespa subiu 10,3% desde 18 de agosto, quando passou a se recuperar das quedas em julho e na primeira quinzena do mês passado ao fechar em 166.335 pontos. Em setembro, o principal índice acionário da B3 acumula alta de 2,09%.

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O movimento foi acompanhado por forte entrada de capital estrangeiro, enquanto investidores locais continuaram reduzindo posições. Um descompasso que ajuda a explicar o dilema que se coloca para o investidor antes da votação: quanto da eleição já está nos preços e quanto ainda pode mudar depois das urnas?

De um lado, o JP Morgan vê espaço para uma reprecificação relevante das ações brasileiras caso o mercado enxergue uma trajetória de maior disciplina fiscal e queda dos juros. De outro, os analistas alertam que tentar antecipar o resultado para capturar uma alta, ou evitar uma queda, transforma a eleição em uma aposta de curto prazo.

Entrar agora na bolsa ou esperar?

Na avaliação de Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, tentar capturar um movimento eleitoral nos preços atuais envolve risco elevado independentemente do lado escolhido. "Apostar no resultado é cara ou coroa. Quem tem posição de longo prazo, mantém. Quem quer entrar, entra aos poucos", recomenda o especialista.

O CEO da Inter Asset, Daniel Castro, tem uma avaliação semelhante, mas considera que os preços atuais ainda oferecem espaço para quem está disposto a correr algum risco.

"Se tivermos um governo que tem agenda de ajuste fiscal mais forte você tem um potencial de alta relevante no curtíssimo prazo. Não estar alocado, talvez não faça sentido. É interessante uma margem de segurança, uma calibragem do risco que você vai querer correr. Não recomendo não ter nenhum tipo de participação", diz.

Na visão de André Matos, CEO da MA7 Capital, a eleição não deveria determinar sozinha a decisão de investir em ações.

"A decisão de estar ou não em bolsa deveria depender do horizonte de quem investe e de quanto de oscilação essa pessoa aguenta sem mudar de ideia", afirma.

A lógica, porém, é diferente para quem precisa do dinheiro em breve e para quem tem horizonte de vários anos. "Se o dinheiro vai ser usado em seis meses, ele não deveria estar em bolsa em nenhum cenário, com eleição ou sem eleição. Se o horizonte é de cinco anos, uma semana não muda tese nenhuma", completa.

Para André Motta, especialista em investimentos da Valor Investimentos, a indefinição eleitoral também torna arriscada uma aposta direcional neste momento. "Minha visão é que o cenário da eleição é de indefinição, com aproximadamente 50% de chances para cada lado. Então se posicionar agora seria como jogar um cara e coroa, fazendo uma aposta, o que nunca é recomendável", afirma.

Investidores locais

A sensação de que o mercado já precificou uma eventual alternância de poder não é desconsiderada. O Ibovespa saiu de cerca de 166 mil pontos, na mínima em agosto, para acima de 183 mil pontos no fim da semana passada, uma recuperação de mais de 10%.

Iuri Franceschini, fundador da Acta Partners, destaca, no entanto, que interpretar esse movimento como um rali eleitoral completo seria exagero. "A verdade é que estamos com a sensação que 'o mercado já andou' devido a essa alta do Ibovespa".

"Isso, porém, foi apenas uma descompressão de risco com gringo parando de vender o absurdo que vinha sendo. Não estamos em máxima história e extremo otimismo. Muitos ativos estão defasados ainda por falta de fluxo, especialmente muitas small caps, as mais beneficiadas caso venha um governo pró-mercado", afirma.

De fato, de acordo com dados do fluxo de investimento da B3, enquanto os estrangeiros acumulam entrada líquida de R$ 9,06 bilhões em setembro até o dia 24 de setembro, os investidores institucionais locais retiraram R$ 7,20 bilhões.

Para Franceschini, isso mostra que o investidor doméstico ainda não participou do movimento de recuperação na mesma proporção. "Quem mais dá peso a eleições são os investidores locais", acrescenta.

Resultado eleitoral sozinho não 'transforma' a Bolsa

Segundo o JP Morgan, MSCI Brasil, índice de ações que mede o desempenho das empresas brasileiras de médio e grande porte, negocia atualmente a 8,6 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses. Esse múltiplo coloca o mercado entre os cenários de "deterioração" e "melhoria" construídos pelo banco a partir dos múltiplos dos últimos dez anos e mais próximo do primeiro.

Se o mercado migrar para um cenário de "melhoria", o maior banco dos Estados Unidos calcula um potencial de alta de 28% para o MSCI Brasil a partir dos níveis atuais. Em um cenário de "correção estrutural", com o P/L médio chegando a 13,3 vezes, nível observado pela última vez em 2020, o potencial implícito chega a 54%.

"O Brasil foi o mercado emergente com melhor desempenho no último mês, à medida que as pesquisas começaram a mostrar uma diferença cada vez menor, indicando a possibilidade de uma vitória da oposição nas eleições de outubro. Conforme enfatizamos em nossas perspectivas para o segundo semestre, fatores globais geralmente são os principais impulsionadores na América Latina, mas, às vezes — especialmente durante as eleições —, fatores locais podem assumir o comando. Quando isso acontece, a oscilação costuma ser maior do que a decorrente apenas do beta global", dizem os analistas.

O JP Morgan ressalta, contudo, que o resultado eleitoral, sozinho, não é suficiente para transformar o cenário de deterioração em melhoria.

"Acreditamos que o potencial de alta poderia ser maior se houvesse uma visão positiva do mercado sobre a direção e a implementação da futura política econômica, incluindo os possíveis candidatos a ministro da Fazenda e, por extensão, o gabinete como um todo. Nesse caso, em nossa opinião, o mercado poderia avançar de forma mais concreta em direção ao 'equilíbrio' de melhora", afirma o banco.

A análise é corroborada por Simão. "O que decide é o sinal fiscal nas primeiras semanas, não o nome eleito", diz.

O que fazer com a carteira em cada cenário?

Para o investidor de longo prazo, os analistas ouvidos não veem razão para transformar uma semana eleitoral em uma mudança estrutural de carteira.

Para quem tem menor tolerância a risco, a recomendação é diferente. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, afirma que ficar completamente fora pode significar perder movimentos importantes, mas elevar demais a exposição também não parece necessário diante da volatilidade esperada.

"O mais racional é manter uma posição menor e seletiva, privilegiando empresas com caixa forte, baixo endividamento e resultados menos dependentes do cenário político", afirma.

Para esse perfil, preservar liquidez também ganha importância. "A eleição pode provocar movimentos rápidos de preço, mas o que deverá sustentar a Bolsa depois das urnas será principalmente a percepção sobre juros, inflação e trajetória fiscal", acrescenta Lima.

A lógica é manter recursos disponíveis para aproveitar oportunidades caso apareçam preços mais baixos depois da eleição, sem necessariamente abandonar completamente a renda variável. Já para quem aceita mais risco e busca capturar uma eventual mudança de percepção sobre o Brasil, ativos que ainda estão distantes das máximas podem oferecer maior sensibilidade ao cenário.

Franceschini cita justamente as small caps e empresas mais expostas ao ciclo doméstico como possíveis beneficiárias de um cenário pró-mercado. No cenário contrário, de uma reação negativa após as urnas, a estratégia pode ser justamente esperar a poeira baixar e procurar empresas com fundamentos mais resilientes.

Para investidores mais sofisticados, há ainda a possibilidade de utilizar opções para atravessar o período eleitoral com proteção. Motta afirma que uma conversa com o assessor sobre estruturas de opções pode fazer sentido para quem deseja manter a exposição, mas reduzir o impacto de uma oscilação adversa.

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