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Pode apostar? Como o futebol brasileiro tem se prevenido contra a manipulação de resultados

Caso Paquetá traz à tona escândalo brasileiro; há um ano, esporte vivia o seu primeiro escândalo após a presença maciça de casas de apostas na modalidade

Pode apostar? Como o futebol brasileiro tem se prevenido contra a manipulação de resultados
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Em junho de 2023, era exposto o primeiro escândalo de manipulação de resultados no futebol brasileiro desde a entrada "oficial" e maciça das casas de apostas como patrocinadoras na modalidade. A partir das investigações do Ministério Público de Goiás, 11 atletas de divisões diversas do futebol nacional foram punidos por envolvimento nos esquemas. Desses, oito foram suspensos e multados e três, banidos do esporte.

Um ano após o ocorrido, quais medidas foram tomadas para que novos casos de manipulação não voltem a ocorrer?

É importante ressaltar que, desde então, a presença de casas de apostas no futebol só se intensificou. Dos 20 clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro, 19 têm empresas do ramo entre os seus principais patrocinadores. Apenas o Cuiabá não recebe aportes diretamente de site de "bets".

A própria competição carrega em seu "nome oficial" uma casa de apostas. Ainda assim, os clubes têm encontrado formas de orientar e prevenir seus atletas sobre o envolvimento com a prática.

Em resposta ao SBT News, o São Paulo afirmou que "tem como norma a proibição de envolvimento em atividades de apostas de cota-fixa, jogos de azar, loterias ou eventos similares", e que trabalha "na promoção de ações afirmativas de conscientização e educação a respeito do tema para seus funcionários".

Outros dois clubes da Série A, na condição de anonimato, responderam que, entre as medidas implementadas, estão "eventos de educação sobre o tema com jogadores e jogadoras do time principal e da base para falar sobre vício em jogos e prevenir o envolvimento dos atletas nisso", além de "constantes instruções a atletas e staff sobre o assunto, bem como presença de cláusulas em contrato". Todos os consultados afirmaram que as iniciativas partiram do próprio clube, sem parceria com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A CBF não respondeu aos questionamentos da reportagem — o espaço segue aberto. À CPI da Manipulação do Futebol no Senado Federal, Júlio Avellar, diretor de competições da CBF, e Eduardo Gussem, oficial de integridade da entidade, explicaram algumas das medidas implementadas para monitorar casos suspeitos de manipulação no futebol.

Em parceria com a empresa Sportradar, líder global em tecnologia esportiva, a CBF identificou 264 partidas suspeitas de manipulação no futebol brasileiro entre 2022 e 2024. No entanto, apenas 31 desses jogos aconteceram sob influência da confederação. As demais, aconteceram em estaduais, tanto da base, quanto do profissional e do futebol feminino.

Os casos identificados foram encaminhados a órgãos de investigação, como Polícia Federal (PF), Ministério Público, Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) e comissão de ética da confederação.

Esquema de apostas

A existência de uma "máfia das apostas" no futebol brasileiro foi exposta pelo Ministério Público de Goiás por meio de uma operação chamada de "Penalidade Máxima". As investigações começaram no final de 2022, quando o volante Romário, do Vila Nova-GO, aceitou uma oferta de R$ 150 mil para cometer um pênalti em jogo contra o Sport, válido pela Série B do Campeonato Brasileiro.

O empresário Bruno Lopez de Moura foi visto como o líder do esquema de manipulação de resultados pelo MP. Além dele, foram presos o empresário Thiago Chambó e o ex-jogador Romário Hugo dos Santos.

Com o aprofundamento das investigações, descobriu-se que o grupo criminoso atuava em todo o Brasil, em divisões diversas do futebol nacional. Jogadores eram cooptados com ofertas entre R$ 50 mil e R$ 100 mil para realizar ações específicas dentro das partidas, como tomar cartões amarelos e vermelhos.

O esquema era divididos em quatro núcleos: apostadores, responsáveis por contratar, aliciar e pagar os jogadores; financiadores; intermediadores, responsáveis por indicar e facilitar a aproximação entre apostadores e atletas dispostos a performar as ações; e núcleo administrativo, responsável pelas transferências financeiras aos integrantes dos grupos.

Mais de 20 atletas já foram citados nas investigações. Até o momento, os clubes e as casas de apostas são consideradas vítimas das práticas.

Outras ligas

Problemas relacionados a esportes e apostas não são exclusividade do futebol brasileiro. A principal liga doméstica do mundo atualmente, a Premier League, registrou casos recentes envolvendo algumas de suas estrelas.

A Federação Inglesa de Futebol (FA) denunciou o meia Lucas Paquetá, da seleção brasileira, por má conduta com relação a apostas em quatro jogos da Premier League. O jogador do West Ham está sendo acusado formalmente de forçar cartões amarelos em quatro partidas do campeonato inglês realizadas entre novembro de 2022 e agosto de 2023.

"Alega-se que ele procurou influenciar diretamente o progresso, a conduta ou qualquer outro aspecto ou ocorrência nessas partidas, buscando intencionalmente receber um cartão do árbitro com o propósito indevido de afetar o mercado de apostas para que uma ou mais pessoas lucrem com apostas", afirmou a FA em comunicado.

De acordo com as regras da federação inglesa envolvendo apostas, nenhum profissional (seja jogador ou um árbitro, por exemplo) envolvido em partidas da federação pode apostar direta ou indiretamente em resultados de partidas — seja da FA ou de jogos em qualquer lugar do mundo — ou em eventos relacionados a transferências, contratações e/ou demissões de treinadores, cartões amarelos, vermelhos, etc.

Pelas regras da FA, o brasileiro pode pegar de seis meses de suspensão até banimento da liga. Em suas redes sociais, Paquetá negou as acusações.

Jogador da seleção inglesa, Ivan Toney, do Brentford, teria descumprido 232 regras envolvendo apostas entre 2017 e 2021, sendo formalmente acusado pela FA por 30 violações. Em março de 2023, ele admitiu sua culpa. Como punição, foi multado em 50 mil libras (R$ 306,8 mil) e suspenso de todas as atividades relacionadas ao futebol por oito meses (a suspensão terminou em 16 de janeiro deste ano).

Além de Toney, Sandro Tonali também foi afastado por apostas ilegais feitas enquanto defendia Milan, Brescia e também o Newcastle, como investigações recentes apontaram. O italiano chegou à Premier League em julho de 2023 por 70 milhões de euros (R$ 364 milhões à época), porém, teve pouco tempo para desfilar seu talento.

A Federação Italiana de Futebol (FIGC, na sigla em italiano), suspendeu o jogador por 10 meses a partir de outubro do ano passado e, agora, aguarda se haverá nova punição da FA. Tonali também admitiu ter feito as apostas e afirmou que procuraria ajuda psicológica para "curar" o seu vício.

"É válido ter cuidado com a palavra cura quando falamos de transtornos psicológicos, neste caso a compulsão, pois a recaída algumas vezes é parte do processo. É importante fazer um controle com psicoterapia e psicofármacos. Atividades em grupo também são oferecidas para que haja uma melhor aceitação desta condição. O mais importante nestes casos é buscar ajuda profissional", aconselhou a psicóloga clínica e esportiva Mariana Moura, que tem trabalhos com o Brasília Basquete e com a jogadora da WNBA Damiris Dantas.

"É importante ressaltar que, antes do atleta, vem o ser humano e ser atleta é uma profissão como qualquer outra. Alguns dias estamos extremamente produtivos e em outros queremos passar longe do trabalho. Com os atletas também é assim. Ganhar um título e fazer gol vem depois de um trabalho árduo. Muitas vezes, depois de feitos assim, vem a sensação do alívio, de dever cumprido. Com relação às apostas, é o risco do prazer imediato, há a liberação de dopamina. Independentemente de ganhar ou perder, só o fato de jogar já faz com que ela seja liberada", alertou Mariana.

NBA

Fora do futebol, a principal liga de basquete do mundo decidiu banir um de seus atletas por envolvimento ilegal com apostas. Jontay Porter, do Toronto Raptors, foi excluído da NBA após uma investigação ter apontado que ele forneceu informação confidencial sobre jogos para apostadores.

Um desses indivíduos teria apostado US$ 80 mil em uma entrada múltipla, que incluiu uma má performance de Porter a partir de informações dadas pelo próprio jogador. O retorno seria de US$ 1,1 milhão.

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