Entidades rebatem jovem que chamou Anne Frank de vitimista
Vídeo gravado durante a Bienal do Livro de São Paulo viralizou após adolescente criticar "Diário de Anne Frank", livro escrito por vítima de perseguição nazista
Caroline Vale
Livro "Diário de Anne Frank" é alvo de polêmica nas redes sociais. | Reprodução/Anne Frank House
Um vídeo gravado durante a Bienal do Livro, realizada neste mês em São Paulo, viralizou após uma jovem ser questionada sobre o melhor e o pior livro que havia lido este ano. Ao citar "Além do Bem e do Mal" (1886), de Friedrich Nietzsche, como o melhor, ela apontou "Diário de Anne Frank" (1947) como o pior.
Ao ser questionada sobre o motivo, a jovem sugeriu que não havia gostado do livro porque considerava que Anne Frank “se vitimiza”. O trecho da entrevista repercutiu nas redes sociais, dando início a um debate sobre a obra.
Em reação ao vídeo, o Museu do Holocausto emitiu uma nota esta semana. No texto, a instituição disse que é necessário lembrar o contexto em que o diário foi escrito.
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“Diante dos recentes questionamentos sobre a postura e a escrita de Anne Frank, é importante lembrar: seu diário é o registro de uma adolescente submetida à perseguição nazista. Narrar o sofrimento não significa fazer dele uma identidade”, afirmou o museu.
A instituição também destacou que o diário não precisa apresentar uma narrativa idealizada sobre a experiência de uma vítima. “A vítima não deve ao leitor uma narrativa confortável. Às vezes, esperamos que uma vítima seja sempre serena, corajosa e inspiradora. Mas um diário pode não ser uma lição de superação. Nele cabem medo, raiva, tédio, contradições, desejos, conflitos familiares e vontade de viver”, declarou.
“Narrar o sofrimento não significa fazer dele uma identidade. Testemunho não é uma performance de dor. É o direito de dizer: isto aconteceu comigo”.
O Instituto Brasil-Israel também se posicionou diante da polêmica e publicou o texto “Anne Frank na Bienal: a distância que uma opinião não percorre”, em que relaciona a repercussão do vídeo à dificuldade de compreender a experiência histórica por trás do diário.
Segundo o historiador, a questão não está no fato de alguém não gostar de um livro. Para Schurster, o ponto de discussão está na justificativa apresentada pela jovem e na forma como a expressão atribuída a Anne Frank foi interpretada nas redes sociais.
A Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) também falou sobre o episódio. A entidade pontuou o contraste da situação: "Uma menina vivendo escondida, perseguida por ser judia, escrevendo sobre esperança mesmo diante do horror. E, décadas depois, alguém olhando para essa mesma história e enxergando 'vitimismo'. Talvez seja justamente por isso que precisamos continuar falando de Anne Frank."
Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929, em Frankfurt, na Alemanha. De origem judaica, mudou-se com a família para Amsterdã após a ascensão de Adolf Hitler e do regime nazista.
Com a ocupação nazista da Holanda e o avanço das medidas de perseguição aos judeus durante a 2ª Guerra Mundial, Anne e outras sete pessoas precisaram largar tudo que tinham para se esconder, em julho de 1942, no chamado Anexo Secreto, um espaço ligado à empresa de seu pai.
Anne ganhou um diário no aniversário de 13 anos e passou a registrar nele acontecimentos do cotidiano, sentimentos, pensamentos e experiências vividas durante os 761 dias em que permaneceu escondida.
O esconderijo foi descoberto em 4 de agosto de 1944. Anne e os demais ocupantes foram presos e posteriormente deportados para Auschwitz-Birkenau. No fim daquele ano, Anne e sua irmã Margot foram transferidas para o campo de concentração de Bergen-Belsen.
As duas morreram em fevereiro de 1945, vítimas das consequências do tifo, uma doença causada pela picada de pulgas ou piolhos infectados. Anne estava com 15 anos. Otto Frank, pai de Anne, foi o único dos ocupantes do Anexo Secreto a sobreviver à guerra.
Após o conflito, Otto achou o diário da filha e realizou o sonho dela de publicá-lo. O livro foi lançado em 25 de junho de 1947 e posteriormente traduzido para dezenas de idiomas, tornando a história de Anne Frank conhecida mundialmente. Milhares de jovens leem o diário de Anne Frank como uma porta de entrada para a literatura e para o conhecimento sobre o Holocausto.
Atualmente, o esconderijo onde Anne Frank e sua família viveram durante a perseguição nazista abriga a Casa de Anne Frank, um museu em Amsterdã.
Entidades rebatem jovem que chamou Anne Frank de vitimistaVídeo gravado durante a Bienal do Livro de São Paulo viralizou após adolescente criticar "Diário de Anne Frank", livro escrito por vítima de perseguição nazistaBrasil2026-09-17T18:01:47.168ZUm vídeo gravado durante a Bienal do Livro, realizada neste mês em São Paulo, viralizou após uma jovem ser questionada sobre o melhor e o pior livro que havia lido este ano. Ao citar "Além do Bem e do Mal" (1886), de Friedrich Nietzsche, como o melhor, ela apontou "Diário de Anne Frank" (1947) como o pior. Ao ser questionada sobre o motivo, a jovem sugeriu que não havia gostado do livro porque considerava que Anne Frank “se vitimiza”. O trecho da entrevista repercutiu nas redes sociais, dando início a um debate sobre a obra. Em reação ao vídeo, o Museu do Holocausto emitiu uma nota esta semana. No texto, a instituição disse que é necessário lembrar o contexto em que o diário foi escrito. “Diante dos recentes questionamentos sobre a postura e a escrita de Anne Frank, é importante lembrar: seu diário é o registro de uma adolescente submetida à perseguição nazista. Narrar o sofrimento não significa fazer dele uma identidade”, afirmou o museu. A instituição também destacou que o diário não precisa apresentar uma narrativa idealizada sobre a experiência de uma vítima. “A vítima não deve ao leitor uma narrativa confortável. Às vezes, esperamos que uma vítima seja sempre serena, corajosa e inspiradora. Mas um diário pode não ser uma lição de superação. Nele cabem medo, raiva, tédio, contradições, desejos, conflitos familiares e vontade de viver”, declarou. “Narrar o sofrimento não significa fazer dele uma identidade. Testemunho não é uma performance de dor. É o direito de dizer: isto aconteceu comigo”. O Instituto Brasil-Israel também se posicionou diante da polêmica e publicou o texto “Anne Frank na Bienal: a distância que uma opinião não percorre”, em que relaciona a repercussão do vídeo à dificuldade de compreender a experiência histórica por trás do diário. Segundo o historiador, a questão não está no fato de alguém não gostar de um livro. Para Schurster, o ponto de discussão está na justificativa apresentada pela jovem e na forma como a expressão atribuída a Anne Frank foi interpretada nas redes sociais. A Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) também falou sobre o episódio. A entidade pontuou o contraste da situação: "Uma menina vivendo escondida, perseguida por ser judia, escrevendo sobre esperança mesmo diante do horror. E, décadas depois, alguém olhando para essa mesma história e enxergando 'vitimismo'. Talvez seja justamente por isso que precisamos continuar falando de Anne Frank." Quem foi Anne Frank? Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929, em Frankfurt, na Alemanha. De origem judaica, mudou-se com a família para Amsterdã após a ascensão de Adolf Hitler e do regime nazista. Com a ocupação nazista da Holanda e o avanço das medidas de perseguição aos judeus durante a 2ª Guerra Mundial, Anne e outras sete pessoas precisaram largar tudo que tinham para se esconder, em julho de 1942, no chamado Anexo Secreto, um espaço ligado à empresa de seu pai. Anne ganhou um diário no aniversário de 13 anos e passou a registrar nele acontecimentos do cotidiano, sentimentos, pensamentos e experiências vividas durante os 761 dias em que permaneceu escondida. O esconderijo foi descoberto em 4 de agosto de 1944. Anne e os demais ocupantes foram presos e posteriormente deportados para Auschwitz-Birkenau. No fim daquele ano, Anne e sua irmã Margot foram transferidas para o campo de concentração de Bergen-Belsen. As duas morreram em fevereiro de 1945, vítimas das consequências do tifo, uma doença causada pela picada de pulgas ou piolhos infectados. Anne estava com 15 anos. Otto Frank, pai de Anne, foi o único dos ocupantes do Anexo Secreto a sobreviver à guerra. Após o conflito, Otto achou o diário da filha e realizou o sonho dela de publicá-lo. O livro foi lançado em 25 de junho de 1947 e posteriormente traduzido para dezenas de idiomas, tornando a história de Anne Frank conhecida mundialmente. Milhares de jovens leem o diário de Anne Frank como uma porta de entrada para a literatura e para o conhecimento sobre o Holocausto. Atualmente, o esconderijo onde Anne Frank e sua família viveram durante a perseguição nazista abriga a Casa de Anne Frank, um museu em Amsterdã.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/brasil/entidades-rebatem-jovem-que-chamou-anne-frank-de-vitimista