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Césio-137: Goiás aprova aumento de pensão às vítimas de acidente radioativo

Benefício atende profissionais da saúde e trabalhadores que atuaram na descontaminação e na vigilância de rejeitos

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Camila Stucaluc
06/04/2026, 09:05 • Atualizado em 06/04/2026, 09:05
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Ocorrido em setembro de 1987, o episódio é considerado o maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear do mundo | Divulgação

Ocorrido em setembro de 1987, o episódio é considerado o maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear do mundo | Divulgação

Foi sancionado o reajuste das pensões especiais concedidas às vítimas do acidente radioativo com Césio-137, em Goiânia. A medida consta na Lei Estadual nº 24.188 e é uma iniciativa do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) — que deixou o cargo na última semana para disputar a Presidência da República.

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Ocorrido em setembro de 1987, o episódio é considerado o maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear do mundo (leia mais abaixo). A história voltou a repercutir recentemente no Brasil, em decorrência do lançamento da série “Emergência Radioativa”, na Netflix.

A legislação contempla aqueles que atuaram na descontaminação da área afetada e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente radioativo. O benefício também atende as pessoas que auxiliaram na vigilância do depósito provisório em Abadia de Goiás, onde foram enterrados os resíduos radioativos.

Com o reajuste, as pensões passam de R$ 1.908 para R$ 3.242 aos radiolesionados pelo contato direto com o Césio-137 e para aqueles que receberam irradiação superior a 100 RAD. Já os demais beneficiários terão pensão reajustada de R$ 954 para RS 1.621. Ao todo, segundo o governo, 603 pessoas têm direito ao pagamento atualmente.

Relembre o caso

O acidente com o Césio-137 aconteceu em setembro de 1987, em Goiânia, capital de Goiás. Naquele mês, dois catadores entraram no edifício que abrigava o antigo Instituto Radiológico de Goiânia em busca de algo para vender como sucata. Nos escombros, a dupla encontrou uma peça de chumbo, de cerca de 98 kgs.

O que eles não sabiam é que tal peça pertencia a um aparelho de radioterapia abandonado. A fonte, com radioatividade de 50.9 Tbq (1375 Ci), continha cloreto de césio, composto químico tóxico em pó de alta solubilidade.

A dupla vendeu a peça para Devair Alves Ferreira, dono de um um ferro-velho no Setor Central de Goiânia. Sem noção do perigo, ele pediu para dois funcionários removerem o chumbo que envolvia a fonte radioativa. À noite, ao passar pelo pátio do estabelecimento, percebeu um intenso brilho azul vindo do interior da cápsula. Encantado, levou a peça para casa, onde mostrou o pó para familiares.

Dias depois, Devair e sua esposa, Maria Gabriela, começaram a apresentar sintomas típicos de radiação, como diarreia, náuseas, tontura, vômito e queda de cabelo. Em seguida, Ivo Ferreira, irmão de Devair, também começou a passar mal, assim como sua esposa, Lourdes, e seus filhos, Leide, de seis anos, e Lucimar, de 14.

Foi somente 17 dias depois da abertura da cápsula no ferro-velho que a contaminação foi identificada. A responsável por informar as autoridades foi Maria Gabriela, que, desconfiada de que o pó brilhante era o causador dos problemas de saúde da família, levou a peça à Vigilância Sanitária. Paulo Roberto Monteiro, diretor da unidade na época, contatou o físico Walter Mendes, que confirmou o material tóxico.

A notícia obrigou as autoridades a agirem rápido para conter a disseminação da radiação no estado. Como a fonte foi manuseada por semanas, diversos locais precisaram ser interditados e, inclusive, demolidos. Os contaminados foram internados em alas isoladas do Hospital de Goiânia e os casos mais graves foram encaminhados para o Hospital Naval do Rio de Janeiro.

Ao todo, o acidente radioativo provocou quatro mortes diretas, incluindo a de Leide, uma das mais marcantes da época. Outras dezenas de óbitos ocorreram nos anos seguintes, em decorrência da radiação.

As vítimas diretas foram:

  • Maria Gabriela Ferreira (esposa de Devair): ela adoeceu cerca de três dias após ter contato com a substância, morrendo em 23 de outubro de 1987, cerca de um mês após a exposição, aos 37 anos.
  • Israel Batista dos Santos (funcionário de Devair que trabalhou na remoção do chumbo da fonte): ele foi internado no Hospital Naval Marcílio Dias e morreu seis dias depois, em 27 de outubro de 1987, aos 22 anos.
  • Admilson Alves de Souza (funcionário de Devair que manipulou a fonte): ele morreu em 28 de outubro de 1987, no Hospital Naval Marcílio Dias, aos 18 anos.
  • Leide das Neves Ferreira (sobrinha de Devair que ingeriu a substância): foi a vítima com a maior dose de contaminação radioativa pelo Césio 137. Ela morreu, em 23 de outubro de 1987, por hemorragia de múltiplos órgãos no Hospital Naval Marcílio Dias.

Maria e Leide foram enterradas no Cemitério Parque, em Goiânia, em um caixão especial de 700 quilos, revestido com chumbo para evitar a propagação da radiação. Posteriormente, os túmulos foram concretados.

O acidente radioativo foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, que vai de zero a sete. No campo cível, a principal condenação institucional foi imposta à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), fixada em R$ 1 milhão por danos difusos. Cinco médicos ligados ao Instituto Radiológico onde a fonte foi retirada também foram condenados, mas cumpriram a pena em liberdade.

Em relação aos rejeitos radioativos, itens como roupas, móveis e escombros de casas foram armazenados em um depósito no município de Abadia de Goiás, região metropolitana de Goiânia. Ao todo, 6 mil toneladas de rejeitos foram distribuídos em contêineres de chumbo, isolados em morros artificiais de concreto. Todo o material, monitorado pela CNEN, deverá ficar isolado por menos 300 anos, contados a partir da data do acidente, para que a radiação atinja níveis seguros.

Rejeitos radioativo foram armazenados em um depósito no município de Abadia de Goiás | Divulgação
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