Brasil

Candeia: a renovação do samba e a liderança negra popular

Lançado pela editora Malê, novo livro do escritor norte-americano Stephen Bocskay resgata a trajetória do músico como símbolo de resistência cultural

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Murillo Otavio
30/06/2026, 11:34 • Atualizado em 30/06/2026, 11:34
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Mestre Candeia - Reprodução Candeia, o samba, o quilombo e o ativismo negro

Mestre Candeia - Reprodução Candeia, o samba, o quilombo e o ativismo negro

Antônio Candeia Filho (1935-1978) pode ser entendido como um dos principais renovadores do samba, além de uma referência da consciência negra popular e da resistência cultural brasileira. Parte dessa premissa é descrita em detalhes no mais recente livro do escritor norte-americano Stephen Bocskay, “Candeia, o samba, o quilombo e o ativismo negro”, lançado em junho pela editora Malê.

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Fruto de 15 anos de pesquisa baseada em arquivos, documentos e entrevistas com personalidades marcantes do samba e dos movimentos negros, a obra mostra como Candeia simboliza a criatividade musical negra e a força da liderança popular. Assim, a contribuição de Candeia é fundamental para pavimentar a consciência racial dos dias de hoje, que se mostra mais coletiva e ativa, diferentemente do cenário dos anos 1970.

Um dos seus principais legados é o conceito do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, entidade fundada por ele e por outros nomes, como Paulinho da Viola e Martinho da Vila. A agremiação funcionava como oposição à comercialização do Carnaval e à deterioração das raízes afro-brasileiras. A ideia central do projeto parecia antecipar, inclusive, os moldes do carnaval dos últimos anos, que conta com forte participação do mercado privado e, por vezes, é excessivamente voltado para turistas.

Na música, Candeia trouxe elementos da diáspora africana que colocaram mais tempero e encorparam o samba. Há relatos de referências vindas dos EUA, sobretudo do jazz, além de elementos da música caribenha. Por isso, nomes de projeção nacional, como Zeca Pagodinho e Alcione, o enxergam como um expoente original do subúrbio carioca. Arlindo Cruz, considerado o “poeta maior” do gênero, também o reverencia em suas canções: “O sambista perfeito devia nascer com a luz de Candeia. Que animava o terreiro em noite de chuva ou de lua cheia”.

“Candeia não era apenas um preservacionista, e sim um defensor e cuidador da história cultural dinâmica do samba”, destaca Stephen em entrevista ao SBT News sobre o livro e a vida do músico carioca.

Mestre Candeia

Antônio Candeia Filho, nasceu em 17 de agosto de 1935, no bairro de Oswaldo Cruz, na zona norte do Rio de Janeiro. Negro retinto, ele foi criado em um ambiente profundamente ligado à música e à cultura afro-brasileira, sendo filho de Antônio Candeia, que também era músico, além de tipógrafo e integrante da escola de samba Portela.

Os primeiros passos do artista na música aconteceram ainda na adolescência. Aos 14 anos, Candeia já compunha sambas-enredo para Portela, com títulos em 1953 e 1957.

Ainda que tivesse um papel importante na formação cultural do subúrbio carioca, Candeia trabalhou na polícia e carregava características que faziam dele um homem respeitado pela posição firme e, por vezes, autoritária.

Ele fazia, por exemplo, “rondas” no bairro em que morava para garantir a segurança dos moradores, além de organizar a família e os redutos de samba com disciplina rígida. Essa postura era semelhante à de quartéis-generais, tidos como órgãos repressivos, sobretudo na época da ditadura militar. Embora defendesse os interesses populares, Candeia nunca se posicionou contra o Golpe Militar de 1964.

Em 1965, o compositor reagiu a uma briga de trânsito e acabou baleado. O tiro que levou mudou drasticamente o rumo de sua vida. Cadeirante e com a saúde fragilizada, Candeia mergulhou ainda mais fundo nas raízes do samba e na luta pela dignidade do povo negro, transformando essa vivência em matéria musical. Ele morreu em 16 de novembro de 1978, aos 43 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma infecção generalizada motivada por complicações de saúde relacionadas aos ferimentos que o deixaram paraplégico anos antes.

Movimento negro

Mesmo com suas referências e o legado deixado para a população negra, Candeia não pode ser definido simplesmente como um "militante negro" nos moldes que parte da intelectualidade e do movimento negro organizado passou a adotar no final dos anos 1970. Para ele, a ideia de negritude era mais complexa.

O autor sustenta que Candeia foi um intelectual popular negro, um ativista cultural afro-brasileiro e um pensador da questão racial a partir do samba, mas que construiu suas posições por um caminho diferente daquele defendido por setores mais politizados do movimento negro. Essa tensão, inclusive, aparece diversas vezes no livro.

Um dos pontos centrais está no fato de que Candeia defendia a valorização da cultura negra brasileira, mas dentro de uma perspectiva nacionalista. O autor observa que o músico “forjou um discurso antirracista de viés nacionalista que desconsiderou pontos em comum entre a condição histórica dos afro-brasileiros e a dos afrodescendentes de outros países do mundo.”

Ele também acumulava embates com parte da intelectualidade negra porque, segundo sua visão, havia uma distância considerável entre o campo acadêmico e as ruas cariocas. Em certos momentos, recusava-se a aceitar que a origem negra do Brasil vinha diretamente do continente africano, ideia que aparece na canção “Sou mais o samba”: “Eu não sou africano, eu não. Nem norte-americano. Ao som da viola e pandeiro, sou mais o samba brasileiro”.

O Quilombo, movimento racial e musical que Candeia ajudou a criar, entendia que havia diferenças significativas na formação escolar, cultural dentro da própria população negra. Por isso, ele enfatizava que o Quilombo e o Instituto de Pesquisas Negras (IPCN), por exemplo, tinham objetivos idênticos, mas caminhos diferentes para alcançá-los.

“Segundo Candeia, a maior diferença entre os dois era ‘o fato de o pessoal do [IPCN] se sentir mais fechado, fazendo reuniões sob um aspecto muito elevado e intelectual, enquanto o Quilombo procurou se identificar com o pessoal da favela, gente que realmente precisa ser conscientizada’”, destaca o autor. Assim, Candeia era um pensador sofisticado que possuía certos limites políticos decorrentes de seu próprio entendimento do Brasil e do mundo.

Música do subúrbio

Candeia se destacou essencialmente porque conseguiu unir preservação e inovação. Enquanto defendia as tradições do samba e criticava sua descaracterização pelo excesso de comercialização, também renovou os limites musicais do gênero ao incorporar ritmos e manifestações afro-brasileiras, como o jongo, o samba de roda, os cantos de capoeira e pontos de religiões de matriz africana. Outras referências, como o jazz norte-americano e a música caribenha, também aparecem em suas composições.

Em discos como Raiz (1971) e Samba de Roda (1975), apresentou uma sonoridade inédita para a época, deixando a batucada mais encorpada e repleta de múltiplas referências. Entre as músicas mais marcantes estão “Dia de Graça”, considerada uma das principais mensagens de valorização da população negra na história do samba; “O Mar Serenou”, eternizada na voz de Clara Nunes; “Minhas Madrugadas”, gravada por Elizeth Cardoso; e “Filosofia do Samba”, composta em parceria com Paulinho da Viola.

Mesmo após sua morte, a obra de Candeia continua sendo referência fundamental para o samba e para a cultura afro-brasileira. “Candeia não era apenas um preservacionista, um defensor e cuidador da história cultural dinâmica do samba, mas também um tropicalista e pioneiro que procurou as raízes do samba em fontes de música negra tão diversas”, completa o autor.

15 anos de pesquisa

“Resolvi escrever sobre Candeia por diversos motivos. Há, de certo modo, o samba antes e depois de Candeia. Trata-se de uma figura incontornável”, detalha Stephen Bocskay ao comentar os 15 anos de pesquisa sobre a vida do músico.

Para compreender não só o contexto em que o sambista vivia, mas também a percepção do negro em relação à sociedade — e vice-versa —, o escritor buscou documentos em arquivos públicos, conversou com personalidades como Beth Carvalho e Nei Lopes, e visitou as obras de intelectuais negros como Abdias Nascimento e Beatriz Nascimento.

Questionado sobre o fato de um estrangeiro escrever sobre Candeia — especialmente diante da visão nacionalista do músico e do contexto racial brasileiro —, o autor defende que a nacionalidade do pesquisador não faz diferença devido à própria complexidade da obra.

“É importante levar em consideração que nem todo mundo que escreve sobre o Brasil é turista ou ‘gringo’. Esses rótulos muitas vezes servem ao propósito de desqualificar. O que importa é o estudo e o engajamento com a cultura”, afirma. No Brasil, esse incômodo com estrangeiros escrevendo sobre brasileiros é um traço cultural que atravessa pessoas de todo o espectro político, segundo o autor. “Creio e espero que meu livro enriqueça a nossa compreensão sobre a sociedade brasileira”, completa.

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