Disputa recorde pela reeleição explica isolamento de Flávio
Análise: deputados empoderados com dinheiro de emendas não querem se engajar na disputa nacional

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) | Tânia Rego/Agência Brasil
Quatrocentos e cinquenta e um deputados federais disputarão a reeleição. O número representa 88% da Câmara e é o maior já registrado, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que traçou um raio X das candidaturas ao Congresso Nacional.
O recesso parlamentar serviu para que esses deputados avaliassem o cenário em suas bases eleitorais. Entre parlamentares ouvidos pela coluna, há desconfiança sobre o potencial de um apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) prejudicar projetos políticos individuais.
O deputado Otoni de Paula (PSD-RJ), que rompeu com o ex-presidente Jair Bolsonaro após não receber apoio na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro, afirma que o silêncio de pastores e lideranças evangélicas é um indicativo das dificuldades que o candidato do PL enfrentará na corrida ao Palácio do Planalto. Segundo ele, isso fica evidente especialmente no Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país e berço político da família Bolsonaro.
Outro líder do Centrão, ouvido pela coluna sob condição de anonimato e que afirma não ser nem lulista nem bolsonarista, diz que a maioria dos parlamentares voltou do recesso convencida de que Flávio Bolsonaro tende a ser derrotado. Na avaliação dele, isso ocorreria não por méritos do atual governo, mas por erros na condução política da própria campanha.
Entre as críticas feitas por parlamentares está a de que o candidato do PL tem pouca habilidade de articulação política, o que teria dificultado as negociações com dirigentes partidários. Segundo esses interlocutores, Flávio deixou para a reta final da pré-campanha as conversas com lideranças do Centrão.
Na avaliação desses parlamentares, o pouco empenho do candidato na costura de alianças, somado ao pagamento de mais de R$ 37 bilhões em emendas parlamentares até julho deste ano, levou muitos deputados a concluir que um engajamento na campanha presidencial não lhes traria benefícios e poderia até prejudicar suas chances de reeleição.
O cientista político Rudá Ricci afirma que os recursos das emendas também ampliaram a influência dos deputados sobre as administrações municipais. “Com o dinheiro da emenda, ele impõe ao prefeito, que vai receber os recursos, a condição de indicar o secretário para que ele seja o principal cabo eleitoral do parlamentar”, afirma.
A campanha de Flávio Bolsonaro nega o isolamento e afirma contar, ainda que informalmente, com o apoio de lideranças de partidos de centro, como a senadora Tereza Cristina (PP-MS), que chegou a ser cogitada para a vaga de vice. O acordo, porém, não avançou após a decisão da federação União Progressista de manter neutralidade na disputa presidencial.
A senadora participou do anúncio do vice de Flávio Bolsonaro, o deputado Alfredo Gaspar, na quarta-feira (5). Apesar do peso político de Tereza Cristina e de outros aliados, a avaliação de parlamentares ouvidos pela coluna é que, em uma eleição novamente polarizada e decidida voto a voto, a ausência de cabos eleitorais dispostos a se engajar publicamente na campanha poderá fazer diferença no resultado final.

























