Análise: Michelle não vai viver à sombra do clã Bolsonaro
Vídeos que revelaram crise com Flávio Bolsonaro mostram que ex-primeira-dama não aceitará isolamento

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) deixou claro com o vídeo divulgado na última quarta-feira (24) que entrou para a política para ter vida própria e não ser apenas uma muleta do próprio marido, Jair Bolsonaro (PL), ou para impulsionar os filhos na disputa pelo espólio do ex-presidente.
Uma pergunta feita nos últimos dias é se Bolsonaro deu aval ou não para que Michelle publicasse o vídeo em que expõe problemas com o enteado e pré-candidato do PL à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A resposta está no próprio vídeo em que ela justifica por que demorou para vir a público: “para não expor a minha família”, e que ele, Jair Bolsonaro, “está sabendo de tudo”. No entanto, Michelle deixa claro que a gravação dos vídeos só ocorreu depois que ela consultou dois grupos de aliados, os que defendiam o silêncio e os que diziam que ela precisava contar toda a verdade.
O que sinaliza que o decisivo para a publicação do conteúdo foi o apoio desses aliados e não o aval de Jair Bolsonaro. Acreditar que Michelle precisaria da autorização de Bolsonaro para gravar e divulgar o vídeo é suco de machismo, até mesmo por parte da imprensa.
Mais que isso, a ex-primeira-dama relembra que foi quando ela começou a percorrer o Brasil, de norte a sul, que o PL Mulher deixou de ser algo só no papel. Michelle ressaltou no vídeo que foi ela que viabilizou a criação de diretórios do partido em todos os estados e que em 2024 a sigla aumentou em 45% o número de mulheres eleitas no pleito municipal.
A ex-primeira-dama foi ainda mais longe e pontuou que, em 2022, quando a maioria dizia que o ex-presidente seria derrotado fácil por Lula, foi ela que entrou de cabeça na campanha, com a caravana "Mulheres Com Bolsonaro”, e relembrou que eles “quase venceram a disputa”.
Traduzindo: Michelle tem lastro político não apenas para ajudar, mas para ter protagonismo político-partidário, e esse protagonismo não pode ser só participar de atos de campanha, mas também ser ouvida para escolha de nomes na chapa majoritária e nas costuras políticas.
O que Flávio Bolsonaro fez, segundo o relato de Michelle, foi o contrário: articulou para esvaziar o poder e a influência política de Michelle, que tem interlocução com as mulheres e também com evangélicos, que ainda hoje desconfiam dos reais compromissos do filho de Bolsonaro com os princípios da igreja.
Michelle usou o exemplo da negociação para o palanque no Ceará para explicitar essa estratégia do grupo de Flávio para tentar isolá-la.
A resposta de Michelle veio com o vídeo, e o conteúdo é a prova de que ela não irá aceitar o isolamento. Pelo contrário, ela vai brigar pelo protagonismo político do legado bolsonarista.
Entre os aliados do senador, e em um ambiente de desconfiança e de fogo amigo, há quem diga que a ex-primeira-dama tenta derrubar a pré-candidatura de Flávio para que ela mesma dispute a Presidência.
Os sinais de Michelle Bolsonaro, no entanto, são de quem está pensando a longo prazo. A ex-primeira-dama parece se distanciar dos filhos do ex-presidente para em 2030 usar o protagonismo que Flávio Bolsonaro tenta asfixiar.























