Magnésio, ômega-3 e vitaminas podem ter indicação específica, mas não substituem medidas comprovadas para reduzir o risco cardiovascular
Brazil Health
Suplementos não substituem cuidados comprovados para o coração | Reprodução/Magnific
É cada vez mais comum receber no consultório pacientes que tomam magnésio, ômega-3, coenzima Q10, vitaminas e outros suplementos com a intenção de proteger o coração. Muitas vezes, porém, essa preocupação convive com colesterol elevado sem tratamento adequado, pressão arterial descontrolada, diabetes, obesidade, sedentarismo ou tabagismo. É uma contradição que merece atenção: investimos em produtos que parecem oferecer proteção enquanto, algumas vezes, deixamos em segundo plano justamente os fatores que mais influenciam o risco cardiovascular.
Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.
A ideia de que determinados suplementos podem funcionar como uma espécie de seguro para o coração é sedutora. Eles são facilmente encontrados, vendidos sem receita e frequentemente associados a conceitos como longevidade, energia, metabolismo e prevenção. O problema começa quando essa percepção cria uma falsa sensação de segurança ou faz o paciente acreditar que está fazendo o necessário para evitar um infarto ou um acidente vascular cerebral.
Na prevenção cardiovascular, não podemos colocar todas as intervenções no mesmo nível. Há décadas acumulamos evidências mostrando que controlar a pressão arterial, reduzir o colesterol quando indicado, tratar adequadamente o diabetes e a obesidade, abandonar o cigarro, praticar atividade física e manter uma alimentação equilibrada diminuem o risco cardiovascular. Para determinados pacientes, medicamentos como estatinas e, mais recentemente, algumas terapias utilizadas no tratamento do diabetes e da obesidade também demonstraram benefícios cardiovasculares importantes.
Os suplementos, de maneira geral, não apresentam o mesmo nível de evidência. A diretriz norte-americana de dislipidemias publicada em 2026, por exemplo, não recomenda o uso de suplementos alimentares para reduzir LDL ou triglicérides com o objetivo de diminuir o risco de doença cardiovascular aterosclerótica, diante dos benefícios limitados ou inconsistentes demonstrados nos estudos. Diretrizes para pacientes com doença coronariana também apontam ausência de benefício de suplementos não prescritos, incluindo cápsulas de óleo de peixe e ômega-3, para redução de eventos cardiovasculares.
Isso não significa que magnésio, ômega-3, coenzima Q10 ou vitaminas sejam inúteis. Essa generalização também seria equivocada. Existem deficiências nutricionais e condições clínicas específicas nas quais a suplementação pode ser indicada. Há ainda diferença importante entre um suplemento comprado livremente e formulações farmacológicas utilizadas em situações clínicas determinadas. O ponto central é outro: ter indicação para suplementar alguma substância é diferente de tomar um suplemento acreditando que ele irá prevenir um infarto.
Também precisamos enfrentar uma percepção bastante disseminada de que aquilo que é vendido como “natural” seria necessariamente mais seguro ou melhor para o organismo do que um medicamento. Um paciente pode resistir durante meses ao uso de uma estatina prescrita para reduzir seu risco cardiovascular e, ao mesmo tempo, consumir diariamente vários suplementos sem questionar sua eficácia. Do ponto de vista científico, essa lógica não faz sentido. A decisão sobre qualquer tratamento deveria partir da mesma pergunta: existe evidência de que essa intervenção traz benefício para este paciente?
Prevenir doenças cardiovasculares exige olhar para o risco como um todo. Não existe uma cápsula capaz de compensar cigarro, hipertensão não tratada, colesterol elevado, diabetes descontrolado, sedentarismo ou excesso de peso. Também não significa que todas as pessoas precisem tomar os mesmos medicamentos. A prevenção moderna caminha justamente na direção contrária: avaliar o risco individual e definir quais intervenções realmente oferecem benefício para aquela pessoa.
Por isso, antes de acrescentar mais um suplemento à rotina, talvez seja mais importante perguntar como estão a pressão arterial, o colesterol, a glicemia, o peso, a atividade física e o tabagismo. Suplementos podem ter seu lugar quando existe indicação. O que eles não devem fazer é ocupar o espaço daquilo que sabemos que efetivamente protege o coração.
** Ana Paula Garcia é cardiologista e membro da Brazil Health
Suplementos protegem o coração? Entenda Magnésio, ômega-3 e vitaminas podem ter indicação específica, mas não substituem medidas comprovadas para reduzir o risco cardiovascularSaúde2026-09-08T14:43:12.602ZÉ cada vez mais comum receber no consultório pacientes que tomam magnésio, ômega-3, coenzima Q10, vitaminas e outros suplementos com a intenção de proteger o coração. Muitas vezes, porém, essa preocupação convive com colesterol elevado sem tratamento adequado, pressão arterial descontrolada, diabetes, obesidade, sedentarismo ou tabagismo. É uma contradição que merece atenção: investimos em produtos que parecem oferecer proteção enquanto, algumas vezes, deixamos em segundo plano justamente os fatores que mais influenciam o risco cardiovascular. A ideia de que determinados suplementos podem funcionar como uma espécie de seguro para o coração é sedutora. Eles são facilmente encontrados, vendidos sem receita e frequentemente associados a conceitos como longevidade, energia, metabolismo e prevenção. O problema começa quando essa percepção cria uma falsa sensação de segurança ou faz o paciente acreditar que está fazendo o necessário para evitar um infarto ou um acidente vascular cerebral. Na prevenção cardiovascular, não podemos colocar todas as intervenções no mesmo nível. Há décadas acumulamos evidências mostrando que controlar a pressão arterial, reduzir o colesterol quando indicado, tratar adequadamente o diabetes e a obesidade, abandonar o cigarro, praticar atividade física e manter uma alimentação equilibrada diminuem o risco cardiovascular. Para determinados pacientes, medicamentos como estatinas e, mais recentemente, algumas terapias utilizadas no tratamento do diabetes e da obesidade também demonstraram benefícios cardiovasculares importantes. Os suplementos, de maneira geral, não apresentam o mesmo nível de evidência. A diretriz norte-americana de dislipidemias publicada em 2026, por exemplo, não recomenda o uso de suplementos alimentares para reduzir LDL ou triglicérides com o objetivo de diminuir o risco de doença cardiovascular aterosclerótica, diante dos benefícios limitados ou inconsistentes demonstrados nos estudos. Diretrizes para pacientes com doença coronariana também apontam ausência de benefício de suplementos não prescritos, incluindo cápsulas de óleo de peixe e ômega-3, para redução de eventos cardiovasculares. Isso não significa que magnésio, ômega-3, coenzima Q10 ou vitaminas sejam inúteis. Essa generalização também seria equivocada. Existem deficiências nutricionais e condições clínicas específicas nas quais a suplementação pode ser indicada. Há ainda diferença importante entre um suplemento comprado livremente e formulações farmacológicas utilizadas em situações clínicas determinadas. O ponto central é outro: ter indicação para suplementar alguma substância é diferente de tomar um suplemento acreditando que ele irá prevenir um infarto. Também precisamos enfrentar uma percepção bastante disseminada de que aquilo que é vendido como “natural” seria necessariamente mais seguro ou melhor para o organismo do que um medicamento. Um paciente pode resistir durante meses ao uso de uma estatina prescrita para reduzir seu risco cardiovascular e, ao mesmo tempo, consumir diariamente vários suplementos sem questionar sua eficácia. Do ponto de vista científico, essa lógica não faz sentido. A decisão sobre qualquer tratamento deveria partir da mesma pergunta: existe evidência de que essa intervenção traz benefício para este paciente? Prevenir doenças cardiovasculares exige olhar para o risco como um todo. Não existe uma cápsula capaz de compensar cigarro, hipertensão não tratada, colesterol elevado, diabetes descontrolado, sedentarismo ou excesso de peso. Também não significa que todas as pessoas precisem tomar os mesmos medicamentos. A prevenção moderna caminha justamente na direção contrária: avaliar o risco individual e definir quais intervenções realmente oferecem benefício para aquela pessoa. Por isso, antes de acrescentar mais um suplemento à rotina, talvez seja mais importante perguntar como estão a pressão arterial, o colesterol, a glicemia, o peso, a atividade física e o tabagismo. Suplementos podem ter seu lugar quando existe indicação. O que eles não devem fazer é ocupar o espaço daquilo que sabemos que efetivamente protege o coração. ** Ana Paula Garcia é cardiologista e membro da Brazil HealthSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/suplementos-coracao-risco-cardiovascular
Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, presidente do colegiado, acompanharam o ministro André Mendonça, autor da decisão que afastou diretor-geral da Polícia Federal