Saúde

Cirurgia da mão é uma das mais complexas da ortopedia

Especialista explica por que operação exige força, técnica e uma precisão quase invisível, capaz de reconstruir movimentos e devolver funções

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Cirurgia da mão é uma das mais complexas da ortopedia | Reprodução

Cirurgia da mão é uma das mais complexas da ortopedia | Reprodução

É amplamente reconhecido que a Ortopedia é uma das especialidades mais relacionadas à física e à engenharia dentro da Medicina. A biomecânica do sistema musculoesquelético, o desenvolvimento de placas, próteses e fixadores, além do uso de instrumentos como brocas, serras e parafusos, fazem parte da rotina do ortopedista.

Mas a física da Ortopedia não está apenas nos equipamentos: está também na forma como cada procedimento é realizado. O especialista precisa compreender forças, deformações, atrito e torque, além de dominar movimentos que exigem precisão e experiência. A redução de uma articulação ou fratura, por exemplo, depende da aplicação correta da força como resume a conhecida frase entre ortopedistas: “não é força, é jeito... de fazer força”.

Essas características renderam à Ortopedia comparações bem-humoradas, como a de “marceneiros” da Medicina. A metáfora, porém, vai além do trabalho manual: um bom marceneiro analisa a matéria-prima, planeja cada etapa e busca precisão no resultado. Da mesma forma, o tratamento ortopédico de excelência está nos detalhes: no gesso bem moldado, no parafuso posicionado no ângulo correto e no enxerto ósseo encaixado com precisão.

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A cirurgia da mão dentro da Ortopedia

Dentro da Ortopedia, existe uma subespecialidade em que essa precisão ganha uma nova dimensão: a Cirurgia da Mão. Para ingressar nessa área, o médico precisa ter formação prévia em Ortopedia e Traumatologia ou em Cirurgia Plástica.

A especialidade começou a se estruturar no século XX. Considerado o pai da Cirurgia da Mão, o norte-americano Sterling Bunnell dedicou-se ao tratamento das lesões sofridas por soldados durante a Primeira Guerra Mundial. Seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento de técnicas utilizadas posteriormente no atendimento às vítimas da Segunda Guerra Mundial e para a criação de centros especializados.

Bunnell defendia que lesões da mão exigiam uma abordagem integrada, pois envolviam estruturas como ossos, tendões, vasos sanguíneos e nervos. Por isso, a especialidade passou a reunir conhecimentos da Ortopedia, Cirurgia Vascular e Neurocirurgia.

Semelhança do trabalho do cirurgião e do relojoeiro

A mão concentra estruturas extremamente delicadas, com artérias, veias e nervos, que possuem poucos milímetros de diâmetro e não podem ser manipulados com instrumentos ortopédicos convencionais ou reparados a olho nu.

Para lidar com essa complexidade, o cirurgião utiliza pinças de ponta fina, lupas ou microscópios e desenvolve habilidades após anos de treinamento específico. A comparação com um relojoeiro não é exagerada: além da semelhança entre alguns instrumentos, o trabalho exige a mesma atenção aos detalhes, precisão e conhecimento da função de cada pequena estrutura.

Com a microcirurgia, tornou-se possível realizar procedimentos antes considerados inviáveis, como reimplantes de dedos e membros, reconstruções de nervos, transferências de tecidos e músculos, além de técnicas avançadas para recuperar movimentos perdidos.

Apesar do nome, a microcirurgia não significa cirurgias pequenas, muitos desses procedimentos são longos, complexos e podem envolver grandes áreas de reconstrução. O termo se refere ao tamanho das estruturas manipuladas e ao nível de precisão necessário para tratá-las.

Entre a força e a precisão

Uma das características mais marcantes da Cirurgia da Mão é justamente a capacidade de alternar diferentes abordagens. Em um mesmo campo cirúrgico, o especialista pode atuar sobre ossos e articulações com técnicas tradicionais da Ortopedia e, em seguida, realizar suturas microscópicas de vasos e nervos.

Como costuma dizer um professor da especialidade, o cirurgião da mão possui uma chave que alterna entre o ortopedista e o microcirurgião. Ora marceneiro, ora relojoeiro.

É essa combinação entre conhecimento, habilidade técnica e precisão que permite à Cirurgia da Mão restaurar funções, devolver movimentos e ampliar as possibilidades de tratamento para pacientes com lesões complexas.

** Arthur Kayano Sargaço é médico especialista em Cirurgia da Mão e Microcirurgia

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